Pontes

ponte de SanpietroOs créditos finais do filme “A grande beleza”, de Paolo Sorrentini, são do tipo que a gente precisa ficar sentado e ver.  E ver e ver e ver. Enquanto na sala de projeção ainda escura, a correnteza dos hiperativos desembesta, feito o trenzinho sem rumo da festa rave, quem sossega o facho e permanece sentado ganha mais um brinde, como se já não bastasse toda a beleza que o filme esbanja. Embalados pela trilha sonora hipnótica, deslumbrante, seguimos a câmera num lento processional das pontes que cruzam o rio Tibre. Esse desfile, ao mesmo tempo solene e despretensioso, nos devolverá ao mundo que logo encontraremos lá fora, pela ordem: o shopping sem graça, a cidade feia, indigente de alma, o rio imundo e fedorento. Para mim, os créditos finais reforçam as sensações que o filme provoca e vai aprofundando até fazer o coração doer, aquela cordinha mais aguda da alma vibrar com asas de libélula. Sensações de desconforto e bem estar, ironia e melancolia, maravilhamento e decepção, esperança e desespero, desprezo e admiração. Os italianos continuam mestres supremos em entrelaçar a tragédia e a comédia, na proporção exata para não fazer a história desandar.

ponte-rio-tibre

As pontes sobre o Tibre estão lá para ligar esses e outros opostos que mantêm a preciosa tensão dessa história, contada por seu adorável protagonista, o escritor brilhante de um livro só, jornalista bon vivant e sessentão a meio caminhos do setenta, Jep Gambardello. A grande beleza, concluímos ele e eu, está mesmo nos contrastes. Por exemplo, a festa dos ricaços, em que artistas midiáticos realizam suas egotrips sob holofotes, para intenso gozo dos mecenas presentes, amplifica violentamente a experiência da escapada noturna de Jep e sua acompanhante, para uma visita secreta ao palácio aonde a arte se esconde nas sombras. A jovem freirinha que paga 700 euros para que o aplicador de botox espetaculoso cure sua sudorese nas mãos reforça a santidade da freira velhíssima que costuma dormir no chão, sobre uma folha de papelão e sabe os nomes de batismo de todos os pássaros. Com a mesma santa, tão poderosa quanto discreta, contrasta o cardeal raso, vaidoso e chato, forte candidato ao papado. Jep faz questão de, numa cena memorável, desmascarar o discurso sem pernas da militante marxista chique, uma fala tão bem articulada quanto carente de significado, em que não se percebem contrastes, apenas contradições insuperáveis, cujo melhor exemplo é a “luta de classes”, essa noção infeliz e, ao que tudo indica, tão imorredoura quanto a de jihad. Aliás a militante elegante desancada por Jep contrasta perfeitamente com a stripper decadente, tão brega quanto verdadeira na sua dor real, inconfessada. A estatura objetiva da publisher e anã Dadina contrasta com o tamanho de sua humanidade, seu senso de humor, sua inteligência e empatia. A princesa que se aluga para eventos é a encarnação dolorosa de um contraste quando vai visitar, qual turista deprimida, o palácio onde nasceu e passou a infância feliz, antes da bancarrota da família. Dilacera o coração ver a imagem desolada da senhora imóvel diante do próprio bercinho iluminado, escutando, talvez pela milionésima vez, a narrativa de seu próprio nascimento, na voz da locutora da trilha sonora da visitação. Não achei o filme arrastado, como me disseram alguns. Ao contrário, achei sua narrativa fluente e intensa, um duplo do seu portador, o impagável Jep. Não achei tampouco que o filme deveria acabar antes, ao contrário: ele termina na hora certa, tendo desenrolado o suficiente todas as pequenas tramas que sustentam o enredo maior.  Acaba também do jeito certo, com a grande beleza se descortinando de uma vez só e para nunca mais, sendo descoberta somente quando já não existe. Um epicurista que se confunde com hedonista, Jep segue costurando tudo, com sua verve irônica temperada pela descoberta do próprio processo de amadurecimento, retardatário e imprevisto, ao 65 anos de idade. Um êxtase decepcionado. Uma decepção extática. Parece que descobrir o valor dos contrastes tem forte relação com o encontro, enfim, da sabedoria ou de alguma sabedoria. Além de tudo isso, ainda há Roma, a Cidade Eterna, a nos deslumbrar a todo instante com imagens de tirar a fala, parasitada por gerações e gerações de seres humanos, frágeis, vulgares, perecíveis.

ponte 2 roma

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Lourdinha Heredia
    fev 03, 2014 @ 12:42:14

    Ainda não vi. Vou ver embalada por seus comentários. João viu ontem e gostou.

    Responder

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