Rolezinho mais besta

espiral-fractalRolezinho em chópim. O ápice da sengracice. Confesso que eu esperava bem mais dessa turma, ou da ala realmente interessante, animada (leia-se com alma) e criativa dessa turma que vive e pulsa nas beiradas da cidade. Sempre acreditei que é das beiradas que vem as verdadeiras mudanças, as trocas de pele que dão novo alento a tudo o que tem de continuar a existir, como a comunidade humana, por exemplo, em suas variadíssimas formações. É comendo pelas beiradas que a gente chega ao centro da vida, o núcleo suculento das coisas, aonde mora o significado profundo de ser gente neste mundo velho sem porteira. É comendo pelas beiradas sem moleza, sem paternalismo, sem transigência barata, sem mamãezinha que desculpa, sem papaizinho que banca, é rodando em espiral, sem pular corredores do grande labirinto, que a gente chega, de verdade, ao centro, ao sentido de viver e conviver. É ralando, tecendo e destecendo relacionamentos, sofrendo e se divertindo, sendo injustiçado e fazendo reparações, ganhando resiliência, provando nosso mérito (palavra tão fora de moda quanto modelar) de estar lá, no coração da vida, tendo entrado sem pistolão nem carteirada. Daí me dizem os jornais que esses meninos e meninas palpitantes de sonhos, desejos, energia, projetos e hormônios, esses meninos que trabalham e estudam, que ajudam em casa com  sua grana e sua força, esse meninos valorosos e coloridos se rendem assim, facinho, aos encantos claustrofóbicos do chópim, esse não-lugar. Para mim, o chópim (ou mall, como querem os gringos e alguns tupininquins ainda mais metidos) é um tumor inorgânico que corrói os tecidos da alma da cidade, comendo a espontaneidade dos encontros, arrasando o comércio local, transformando socialidade em consumo, um espaço autoerótico e hiperindividualista. Esses garotos e garotas querem mesmo conquistar um castelo encantado onde, como diz o Lopez-Pedraza, nada se move? Um lugar onde a vida não se transforma, a não ser pelas lojas que fecham e as que abrem no lugar? Onde as princesas usam sempre a mesma roupa e o mesmo penteado? Eles querem mesmo pertencer a esse universo falso e asséptico, aonde os tolos vão para gastar dinheiro que não têm ou que lhes sobra, com coisas que lhes garantem que eles existem afinal, fato de que eles mesmos duvidam?  Entendi bem? Com toda a extensão dessa cidade fantástica para flanar, para tirar do limbo, para rejuvenescer, para enfeitar e transformar em pista de dança, eles querem mesmo é tomar… os chópins? Com tantas praças ensolaradas para circular, tantos parques para fazer passeatas engajadas e piqueniques odaras, tantas ruas inteiras, imóveis e sombrias, esperando para ser desencantadas e tantos bairros para colorir e tantas escolas para salvar do monstro que as aprisionou e mais um centro da cidade charmoso para desvendar, eles querem… circular em grupo nos chópins? É isso? Que pena, mais uma decepção com a moçada que não é da USP. Outra decepção para mim, que aderi de corpo e alma às manifestações de junho, para logo descobrir que os vândalos têm mais força do que os cidadãos e mostraram isso, ao fazer degenerar e assim desmobilizar a alma estupefata da nação. Que permanece estupefata. Que pena para nós, que sonhamos poder andar de novo pelas ruas noturnas de Sampa, de novo donos da nossa cidade, como são os cidadãos das cidades dos países em que o crime não compensa. Descobri, enlutada, que os 30 centavos eram mesmo a grandiosa razão rastaquera das manifestações de 2013. Foram eficientemente assassinadas pelos vândalos (com ou sem logotipo) porque eram rasas e curtas, não tinham outro significado além dos famigerados 30 centavos. Ou do tédio. Ou da ideologia de boutique. Deus as tenha em bom lugar. E agora isso? Esses meninos e meninas querem mesmo ir morar no castelo da Cinderela lá da Disney? Alguém avisou pra eles que lá não tem amigos nem primos, nem fogão nem cama, nem calor nem cobertor, nem mesinha para compartilhar um papo e uma cerveja, nem sofá para namorar e ficar vendo um filme na TV com a turma, por favor? Não tem vida lá? Algum sociólogo, antropólogo, psicólogo, astrólogo, pedagogo consegue largar o osso do clichê dos coitadinhos invisíveis que eles não são e ajudar a entender por que alguém que está vivo quer virar zumbi de chópim? Por favor?

P.S. – (Num país que confunde cidadania com consumismo, esse fenômeno me parece auto-explicativo. Senão, vejamos: ao invés de investir pesado em transporte público de qualidade em nível nacional, o governo federal subvenciona a compra de automóveis e a gasolina… Ao invés de qualificar a ascensão socioeconômica pelo acesso à educação e à cultura, o faz pelo acesso ao crédito. Claro que, nesse contexto, subir na vida vida significa mesmo frequentar o chópim JK Iguatemi…  Por outro lado, se a política econômica tem como finalidade reduzir as diferenças objetivas, a ideologia política  pretende acirrar as diferenças subjetivas, investindo na polarização e na generalização dos discursos maniqueístas e, no limite da esquizofrenia, defendendo a lastimável noção de “luta de classes”. Mas o povo quer mesmo é luxo, pessoal da cizânia esquerdista! Caiam vocês na real!)

Anúncios

6 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Fabiana
    jan 27, 2014 @ 12:32:17

    Isso! Isso! Isso!
    Ainda bem que existe a Mulher-Esqueleto para chacoalhar os nossos ossos e trazer bom senso a tanta insensatez. Fico arrasada com a possibilidade de vida sendo roubada pelo ideal pasteurizado e doentio que aí está. Caramba!
    Consumidores é só o que somos, afinal?
    Socorro! Minha alma encontra alento nas suas palavras…
    Muito obrigada, querida!
    Beijos,
    Fabi

    Responder

  2. Samuel Frison
    jan 27, 2014 @ 14:12:04

    Responder

  3. juci
    jan 27, 2014 @ 15:21:04

    Concordo com você. Chopin Não é mesmo um lugar agradável. Esses adolescentes poderiam se organizar para irem ver museus, bibliotecas.. Ou será que não existe nada grátis para se ver ou fazer nessa cidade enorme? Na verdade, esses rolézinhos estão é valorizando os chopins e fazendo ainda mais um desejo de consumo.

    Responder

  4. Mariluza Abrahao
    jan 27, 2014 @ 20:11:27

    Ótima matéria Eli. Brasil ainda dorme. Vamos chacoalhar estes jovens para cair na real! Bjs Mariluza

    Responder

  5. Maria Cecília Sanchez Teixeira
    jan 28, 2014 @ 17:51:11

    Muito bom como sempre Eli. Muita gente que fica fazendo comentários sobre os rolezinhos na TV deveria ler seu artigo e rever suas opiniões tão rasas como uma poça de água.

    Responder

  6. Lourdinha Heredia
    fev 03, 2014 @ 12:37:49

    Eu não disse que você tinha começado o ano “com a macaca”? Repito! Sem muita TV nas férias, fui saber dos rolezinhos tardiamente. Adorei seus comentários!!!!

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: