El Decamerón de Oaxaca: entre fazer e ficar

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“Decameron”, de Giovanni Boccaccio, é um dos livros mais importantes da minha vida, lido aos 14 ou 15 anos de idade, na edição de capa vermelha da coleção Grandes Clássicos da Literatura Universal, comprado na banca de jornal com dinheiro juntado de muitos lanches não comidos. Ao contrário dos mistos quentes e das Caçulinhas que deixei de ingerir, “Decameron” me alimenta até hoje, sem me abarrotar de calorias e causar celulite. Conto melhor essa história na minha tese de doutorado, cujo link você encontra aqui mesmo, no blog, na barra de rolagem do lado direito da tela ( é o penúltimo da lista). Continuo amando esse livro maravilhoso, escrito “na mui excelsa cidade de Florença”, entre 1349 e 1351, pouco depois de seu autor haver perdido uma filha pequena para a Peste Negra. O que me traz de volta a essa leitura que, ao mesmo tempo em que ajudou a forjar minha alma, também profetizou, à sua maneira, alguns episódios de sua jornada no mundo, foi minha estada em Oaxaca, à época da festa do Dia de Los Muertos, para um “taller” (como bem definiu a Guadalupe) de incubação de sonhos. No Decameron de Boccaccio, enquanto Tánatos ceifa incansável e arbitrariamente as vidas dos cidadãos, os limites entre riqueza e pobreza, pudor e indecência, público e privado, razão e loucura se dissolvem e o mundo vira do avesso, ao ritmo acelerado da rápida degradação dos valores que dão sentido à cultura e à vida humana. Em meio a todo esse horror de perda de sentido, um grupo de sete moças reúne-se para a missa na esplendorosa Basílica de Santa Maria Novella. Lá elas combinam, não uma fuga radical da realidade, mas apenas uma evasão planejada e pontual, que lhes permita juntar forças para enfrentar o que ainda está por vir. Enquanto as amigas conversam, três rapazes aparecem, buscando suas amadas que participam do grupo original. Terminam por se juntar a ele, formando assim a “brigatta” que, na manhã seguinte, partirá rumo à montanha, para instalar-se numa bela propriedade rural daquelas que abundam na Toscana, cercada de bosques, jardins, pomares, lagos e fontes. Realizada a primeira etapa do projeto, Pampineia, a mais inventiva e sensível das moças, sugere que, diariamente, o grupo escolha um rei ou uma rainha para comandar as atividades e, na hora do sol a pino, todos se dediquem a repousar juntos, “tecendo narrativas” licenciosas, cômicas, trágicas, romanescas, líricas, para deleite das almas da “brigatta”.  Seus companheiros acolhem a ideia com entusiasmo e, eleita primeira rainha, Pampineia inaugura um ciclo dez reinados (o Decameron) em que as histórias serão entremeadas de cantos, danças, jogos e banquetes. Ao final da temporada de dez dias, retornam todos à Florença e à dura realidade da pestilência e seus desdobramentos (entre os quais está o Renascimento), estranhamente, para nós, sem rodeios nem adiamentos. Em El Decamerón de Oaxaca, assim como no de Boccaccio, as mulheres também eram maioria na “brigatta”. As histórias estavam igualmente presentes, licenciosas, trágicas, cômicas, líricas, narradas diariamente num círculo de compartilhamento de sonhos, mais intenso do que relaxante. Nosso “palazzo” era a esplendorosa cidade velha e nossa Basílica de Santa Maria Novella,  a Igreja de San Miguel de Jalatlaco, um arcanjo bem menos permissivo e tolerante do que a sagrada embromadora Nossa Senhora das Histórias, até por determinação da própria “brigatta”. A condução da jornada diária, em nosso caso, cabia a um rei acolhedor e bem humorado, sua generosa primeira-ministra e três nobres e sábios zapotecas: um encantador casal de curanderos, mais um cuentero e mestre de cantos e danças rituais. Se, no Decameron de Boccaccio, havia muito espaço para a preguiça, as digressões e os divertimentos, em El Decamerón de Oaxaca o tempo era bem mais regrado e produtivo, tocado em ritmo de workshop, coerentemente com o que fora combinado desde o princípio, na missa. Se uma comparsa (espécie de bloco das almas penadas, diabos e afins, típico do período que inclui o dia de los muertos) passasse na porta do “palazzo” de Boccaccio, tenho certeza de que a “brigatta” cairia imediatamente na folia, por ordem expressa do rei ou rainha in charge. Já nós não conseguimos aderir a nenhuma comparsa, embora uma delas, especialmente animada, quase nos tivesse arrastado em seu caudal, fato que gerou um certo atraso na atividade subsequente, bem como algum estresse em parte da “brigatta”. Tivemos, n’El Decamerón de Oaxaca, muitos momentos de pura inversão e intimidade, como cabe ao regime de imagens místico, segundo a definição de Gilbert Durand, autor da teoria geral do imaginário. O regime místico sintetiza a natureza profunda de Xoxotoclán, feminina, engolidora, digestiva, eufemizadora. Para honrá-la, foram garantidos, formal ou informalmente, os banquetes, as danças, as cantorias em roda ou no ônibus, as sessões de puro besteirol e as de uivos coletivos, um breve ensaio de narração de contos de terror, liderado pela Fabi ao pé do altar que armamos no hotel, nosso baile em torno da tumba de Eva Lopez… Também as horas vagando, rindo como loucas, perdidas pelos labirintos do mercado Benito Juarez e do cemitério de Xoxo, com os sentidos naufragados nos estímulos mais desconcertantes… Enfim as imagens místicas, de fusão e confusão da consciência com o mundo, muitas vezes nos tomaram, ameaçando a programação, ensejando “sabotagens” mais ou menos conscientes e, claro, ativando as defesas do regime oposto complementar, heróico, sempre muito cônscio de seus objetivos, ativo, produtivo e responsável. Gilbert Durand chama esse movimento maravilhoso de “trajetividade”, uma contínua negociação e alternância entre regimes de imagens polares, um balanço calibrador que permite flexibilidade aos dois imaginários que estão sempre na iminência de se excluírem mutuamente: o místico e o heróico. O dia de los muertos em Oaxaca é uma experiência da mais pura trajetividade. Da mais pura eufemização mística da realidade, quando a vida vira do avesso e a morte comanda uma festa de vida e alegria. Do mais criativo diálogo com o negativo, em que não lutamos contra ele, mas o convidamos para bailar ao som de uma banda de mariachis. Para se instalar, a trajetividade demanda que os dois regimes aprendam a cooperar e se complementar, ao invés de somente antagonizar e competir. Esse balanço termina dando ensejo a um terceiro regime, ao qual Durand chama dramático ou copulativo, no sentido do ritmo da cópula, em que os opostos se encaixam e ondulam em fluxo. Trajetividade resume o que vivemos naqueles dias fabulosos, em El Decamerón de Oaxaca. E já escrevi demais, porque hoje é feriado e pretendo passar o resto do dia morgando ao sabor dos encantos improdutivos do regime místico, feito a “brigatta” do Decameron de Boccaccio.

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Laura Villares de Freitas
    nov 15, 2013 @ 17:54:47

    Delicia de texto, Eliana!! E de viagem, trajeto! De pessoa! Bjo

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  2. Isa Guará
    nov 18, 2013 @ 13:25:10

    Sonho e realidade realmente se misturam e tecem trajetórias – ou trajetividades- invisíveis a olho nú. Adorei o texto, as historias dele, contadas ou não. Lindo!!!

    Responder

  3. Camilo F Ghorayeb
    jan 09, 2014 @ 16:06:03

    Delicioso e muito sagaz, como sempre! bjao!!

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