Xoxocotlán, Xoxotoclán: chegar

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Xoxocotlán (leia-se Ho-ho-co-tlán), Xoxo (Ho-ho) para os íntimos, é o nome do cemitério mais popular de Oaxaca de Juarez, México. É também o nome do aeroporto da cidade, o que me parece muito coerente, já que se trata de despedidas, temporárias ou definitivas.  Derivada da palavra original, Xoxotoclán é uma corruptela gaiata, o nome de um reino ou clã que se estabeleceu provisoriamente na mesma cidade, com sede na salinha lateral da igreja de San Miguel de Jalatlaco, entre os dias 27 de outubro e 2 de novembro de 2013. Alguém me contou o significado de Xoxocotlán enquanto eu ainda estava pela vizinhança, mas foram tantas as histórias contadas ao longo da curta e intensa vigência do reino de Xoxotoclán, que acabei por me esquecer completamente. Já em português, Xoxotoclán é uma palavra auto-explicativa, claro, nem perca seu tempo consultando o Aurélio ou o Caldas Aulete. O som é o sentido. Um neologismo que acabou de ser cunhado e já se dissolveu nas águas barrentas do rio das palavras, a descoberta de Xoxotoclán ainda ressoa, entre risadas, quase todas femininas, pelos labirintos da minha memória audio-afetiva. Enquanto o reino de Xoxotoclán durou, sua população foi de 20 habitantes, sendo 17 do sexo feminino, o que esclarece ainda mais as coisas do ponto de vista semântico (quer dizer: é aquilo mesmo que você está pensando que é). Entalado entre duas datas muito próximas uma da outra, Xoxotoclán construiu uma história, conquistou um território e se instalou nele, promulgou leis, narrou mitos, cultuou deuses, encenou rituais, miscigenou-se com autóctones, espelhou-se e se estranhou, viveu seu zênite e, ao fim de alguns dias, também se desfez, como acontece, mais dia menos dia, com todos os reinos deste mundo. Fui cidadã de Xoxotoclán, junto com mais nove amigas, todas chegadas um dia depois do estabelecimento do reino, o que, para uma vida tão curta, é muito tempo. Chegamos em Xoxocotlán, o aeroporto, num meio dia enevoado e quente, cansadas e confusas da viagem, com a alma ainda boiando no limbo. Uma caminhonete detonada ultrapassou a van que nos levava ao hotel, exibindo uma carga exuberante do que pensamos que fossem couves-flores vermelh0-sangue. Não eram couves, somente flores: uns pompons densos e carnudos, naturalmente arranjados em buquês que encontraríamos sendo vendidos em várias esquinas da cidade nos dias que se seguiriam. E que, como o reino de Xoxotoclán, passariam rapidamente do vermelho vivo ao castanho seco, para depois se desfazerem ao fim da festa. O mesmo aconteceria com as florinhas amarelas de perfume intenso e aspecto nada ordinário, uma combinação caprichosa e sincrônica de seis miolinhos circundados por dez pétalas, as mesmas que, metidas num vaso de plástico, enfeitariam pacientemente o centro do nosso círculo de sonhos compartilhados.  Acima de todas, porém, escandalosas e onipresentes, estavam as opulentas dálias alaranjadas, primas-irmãs dos cravos de defunto, espalhadas pelos altares com que a cidade rememorava e homenageava seus mortos, dependuradas nos batentes das portas, vitrines e janelas, estendidas em festões atados às filigranas de ferro batido dos terraços. Não podíamos perceber ainda como já se apagavam rapidamente os limites entre bom gosto e cafonice, vida e morte, consciência e inconsciente, ingenuidade e malandragem, beleza e feiúra, norte e sul, bem e mal, ego e sombra, booking.com e realidade concreta. Na salinha da igreja, sede do governo provisório de nosso reino microscópico, um São Miguel maneta, andrógino e europeu, de olhos lânguidos e delicados cachos louros, retinha sob os pés, sem esforço aparente, um Satã contrariado, mouro e, também como Otelo, muito másculo, com um cavanhaque que lhe dava um certo ar de mágico de festa de aniversário. Sob os auspícios de ambos, foi declarada aberta a temporada de sonhos. E todas nós, cidadãs temporárias de Xoxotoclán, sonhando ou não, sonhamos.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Lourdinha Heredia
    nov 11, 2013 @ 17:46:13

    Tudo de bom, Eli! Delicioso, como sempre. E que saudade!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Resposta

  2. Fabiana
    nov 13, 2013 @ 08:04:50

    Que presente fazer parte dessa experiência… E que bom ter o fio da Mulher-Esqueleto para nos guiar nessa jornada que continua pulsando aqui dentro. Beijos, muito obrigada e saudades…
    Fabi

    Resposta

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