Chá e simpatia

Dinorah e Hilda

Minha mãe e eu (mais quem estivesse por perto) tínhamos um ritual do chá particular. O luxo residia no ato de tomar chá em boa companhia, jamais na qualidade do chá em si. Ou melhor: a qualidade da cerimônia do chá de minha mãe costumava ser determinada mais pelo contexto do que pela marca do chá, não importando se se tratava de uma mera tisana brazuca ou de um “by Appointment to Her Majesty”. Minha mãe que, inclusive, se parecia muito com a rainha Elizabeth II, tinha o seu próprio sistema de “appointment”. O luxo do seu chá da tarde dependia de outros atributos, além do fato de que o chá precisava ser quente e forte; entre eles, havia a companhia, a conversa e os beliscos para acompanhar. Quando o cenário estava perfeito, tia Hilda e minha irmã, entre outras personagens, positivas e operantes, minha mãe encarnava “the queen at the tea table” e não tinha para ninguém. Ela reinava. Poucas vezes na vida eu a vi tão contente quanto sentada à mesa do chá da tarde, na cozinha do seu apartamento. Nos últimos anos de sua vida, não importando a hora do dia ou da noite, mal eu chegava e ela imediatamente se levantava da poltrona amarela da sala de TV, pontificando: “Vamos tomar um chá”. A chaleirinha velha tinha um arame substituindo o botão da tampa, que fora abduzido há décadas. As xícaras e os pires não se constrangiam de ostentar lascados, muito menos de se ver misturados em composições insólitas. As toalhinhas de mesa frequentemente eram panos de prato mais novos, com estampas as mais espantadas imagináveis (quando não, também espantosas). Minha mãe tinha lá o jeito dela de presidir o ritual do chá e a gente que não se metesse a dar uma de árbitros da elegância para cima dela, que não colávamos de jeito nenhum. Ao lado da mesa da cozinha, uma pilha de latas de biscoitos dos mais variados tipos  oscilava perigosamente, ao alcance de sua mãozinha delicada. Havia também a lata de remédios, fazendo um dos andares da pilha, a qual era igualmente aberta e investigada na hora do chá, porque ela sempre tinha algum remédio para tomar “junto com a comida”. Em julho, estive pela primeira vez na vida na Inglaterra e descobri que minha mãe era naturalmente britânica, conquanto também totalmente cabocla. Senão, vejamos. O que caracteriza os ingleses é, na minha opinião, uma deliciosa inclinação para o oxímoro, essa figura de linguagem que remete à união harmoniosa dos opostos. A natureza oximorônica dos ingleses pode ser facilmente conferida em pares de parâmetros como: compostura-escândalo, conservadorismo-vanguarda, cafonice-elegância, cristianismo-paganismo… Cito esses quatro porque três deles remetem diretamente a minha mãe e seu jeito de ser e um quarto, eu acrescento por minha conta. Adolescente, eu entrava em parafuso cada vez que ela me colocava diante de qualidades que eu considerava irremediavelmente antagônicas. Fui crescendo e me tornando cada vez mais parecida com ela, embora dotada de uma liberdade que ela não pôde conquistar, até porque seu zeitgeist era outro. Trepada nos ombros dessa gigante, como faziam os personagens de “O nome da rosa” (livro que ela me deu de presente em 1984), eu, uma anã, acabo enxergando mais longe do que ela, muito embora ela fosse melhor do que eu. Na verdade, formamos, eu e minha mãe (e minha irmã e tia Hilda e tantas outras mulheres que buscam a autenticidade neste baile de máscaras sem graça que é o mundo) uma espécie de ser híbrido, bem grego, de muitas cabeças, pernas e braços. A mim cabe dar continuidade a minha mãe, não reiterando dela apenas as qualidades que o coletivo julgava adequadas, mas desafiando-a naquilo que ela nem sabia que era: o oxímoro que não tinha ideia do significado dessa palavra pedante. Ganhei dela a liberdade para expressar aquilo que ela mesma não conseguiu ser, aquilo que ela não teve autorização dos outros para expressar. Sem pedantismo algum, até porque ela era uma senhora caipira que, sobretudo, detestava gente pedante. Vi os ingleses descombinando louças, usando paninhos de prato excessivos e chamando-os de “toalhinhas de chá”, abusando dos bibelôs e das flores de plástico, misturando Nossa Senhora com Ceridwen e Jesus com o Green Man (neste quesito ela travava, tadinha, mas eu pego o bastão aonde ela o deixou e vou em frente), fazendo questão de cumprimentar estranhos na rua (minha mãe tinha isso como um dogma pessoal), mergulhando “shortbread” no chá para enchê-lo de migalhas moles e boiantes (eu tinha um pouco de nojo disso que minha mãe fazia), plantando jardins aparentemente bagunçados, mas com efeitos esplendorosos e outras coisas que me fizeram lembrar dela durante toda a viagem. Mas é claro que ela viajou comigo, dentro de mim, e pude então fazer todos esses comentários diretamente e in loco, o que foi uma verdadeira delícia. Uma história que ela sempre me contava era de que, na noite em que eu nasci, ela estava se arrumando para ir ao teatro assistir “Chá e simpatia”, acho que com Paulo Autran e Maria Della Costa, não me lembro bem. A bolsa estourou e ela teve de mudar de planos. Essa história eu guardei comigo. Acho linda, mas nunca soube muito bem o motivo. Hoje sei. Chá e simpatia são coisas da minha mãe anglo-roceira, que cultivava a ambos como rituais de beleza e bondade, apesar de. Tem brasileiro que quer se passar por inglês. E tem minha mãe, que não dava a mínima e foi agraciada com essa dupla cidadania.

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10 Comentários (+adicionar seu?)

  1. anacris
    set 15, 2013 @ 17:45:13

    Saudades das nossas tardes de chá com bolinhos de chuva, regados aos barulhos das crs…

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  2. Denise Costa Felipe
    set 15, 2013 @ 20:37:44

    Belo!! E a vulnerabilidade à flor da pele… ou da alma…

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  3. Cristiane
    set 15, 2013 @ 20:51:04

    Que texto lindo, Eli.
    E que viagem legal você fez, hein….(externa e internamente !).
    Bjs querida e até breve, espero.

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  4. Fabiana
    set 16, 2013 @ 07:44:22

    As matilhas são herdeiras do chá da sua mãe…
    Obrigada por manter viva a tradição do chá, do aconchego, do bem querer e da simpatia.
    Beijos!
    Fabi

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  5. Lourdinha Heredia
    set 16, 2013 @ 14:02:48

    Eu senti o que a Fabi escreveu a respeito de nosso ritualzinho semanal, seja de chá ou de groselha. Quanto aconchego!
    Seu texto está uma delícia …
    Lourdinha

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  6. Marilda
    out 16, 2013 @ 00:08:08

    Adorava as louças dela de plástico. Eternas!!

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  7. claudia
    nov 19, 2013 @ 16:59:02

    uau Eli! Amei esse texto… que saudade dela! Mas vcs realmente pegaram o bastão e estão seguindo a vida de uma maneira linda! Parabéns e um grande bj!

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  8. Evelyn Ioschpe
    nov 20, 2013 @ 13:49:58

    Eliana,
    Aterrissei agora, neste feriado, no seu blog. Coincidência: fui checar sua recomendação do bolo da Al. Lorena, que deve ser lá perto de nós. Que delícia o seu texto, o seu chá, suas memórias. Vou te acompanhar. Abraço da
    Evelyn

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