Rebeldes sem calça ou Dioniso no meio do redemoinho

Dedico este post a minha querida amiga Bea Enger, que tem 19 anos e já foi aluna do Colégio Bandeirantes. A encomenda foi dela. Espero que ela goste.

dioniso

Foi James Hillman, um rebelde com causa (a causa da alma), renovador da melhor tradição da Psicologia Profunda, quem teve esse insight que considero o mais genial de um homem dado a insights geniais: quando estiver diante de um evento, pergunte qual é o deus (ou o diabo) que está ali, dançando no meio do redemoinho. Grosso modo, isso corresponde a cultivar “um olhar psicológico” sobre a realidade, o que não tem nada a ver com entender de Psicologia, mas está relacionado com uma facilidade de enxergar a alma atuando nos eventos, nos seres, no mundo, em todo lugar. A alma, a dançarina que cria as ilusões em cujo fluxo nos deslocamos ou estagnamos: Maya, Psiquê, Perséfone. Existem analfabetos com mais olhar psicológico que muito psicanalista e psiquiatra. Porém aqui estou, como sempre, me perdendo nos labirintos da alma, por onde adoro vagabundar. Certa vez, Jung disse que, expulsos da consciência individual e coletiva pelo Deus único, os antigos deuses  haviam se transformado em doenças. Isto corresponde a dizer que foram mandados para o inconsciente (ou para o Tártaro, onde Zeus trancafiou os titãs, de onde, em sua revolta titânica, eles desencadeiam os terremotos que sacodem nossos olimpos particulares). As potestades do inconsciente, forças psíquicas que Jung chamou de arquétipos, são inúmeras, diversas e infinitamente poderosas. Para melhor lidar com elas, as religiões politeístas as personalizavam em divindades antropomorfizadas, gerando assim a possibilidade de abordar, por meio da metáfora, algumas dessas energias incognoscíveis e inefáveis que nos habitam e movem, quase sempre sem que a mirrada consciência de nosso Eu sequer se dê conta delas. Nem quando eles nos derrubam e pisoteiam, conseguimos enxergar os deuses por trás de nossas doenças, de nossa realidade política decadente, da violência que assola nossas cidades, do fenômeno das redes sociais digitais e assim por diante. Semicegados pelos antolhos da razão técnico-instrumental, da religião institucional, das ideologias polarizadoras e de seus podres poderes, dos discursos mal ou bem urdidos que nos enganam e a gente gosta, nos submetemos a essa condição de meia visão (ou menos) geralmente por escolha e sem esboçar muita reação.  Em geral, e mesmo quando achamos que temos poder sobre o que somos e fazemos (talvez ainda mais neste caso), somos tangidos como ovelhinhas burraldas e heterônomas, manobradas, ansiosas por chegarem logo ao aprisco de algum lobo em pele de pastor. O legal de tentar enxergar a divindade que se manifesta por trás de um evento é que, desse modo, trazemos à consciência algo que nos manipula a partir de nossa sombra, sempre enganchada na poderosa sombra coletiva. Esse upgrade não tem preço. Interessante que a consciência nos chegue mais por meio da intuição, da sensibilidade, das imagens, das metáforas, das experiências do corpo, da meditação do que por meio dos discursos lógicos e ideológicos sobre como se tornar consciente. Nesse sentido, um filme pode ser imensamente mais potente do que um sermão. Uma obra de arte pode ser muito mais esclarecedora do que a minuciosa explicação de um especialista. Um belo romance desbanca cinquenta livros de auto-ajuda. Um mito faz barba e cabelo de um conceito. Uma piada desanca a lenga-lenga do político mais habilidoso e cínico. Como a imagem é a linguagem da alma, a divindade a dançar no olho do furacão nos chega à consciência tão somente através da imagem, visível apenas para o olhar psicológico. A arte do Renascimento fez isso de caso pensado e com resultados fabulosos. Ultimamente é Dioniso quem anda solto, ou “a sombra de Dioniso”, como já anunciava o título de um livro de Michel Maffesolli, publicado há mais de 20 anos. A sombra dele porque ninguém sabe que se trata dele, de Dioniso, e, portanto, ele está fora das análises sociológicas, das pesquisas com suas intervenções demagógicas e ingênuas, dos reducionismos cartesianos da mídia, dos maniqueísmos materialistas, enfim, da pequena zona fortemente iluminada e murada da consciência individual e coletiva. E isso torna o deus oculto na sombra imensamente perigoso e ameaçador, já que ele não pode ser visto e integrado, legitimado pelo coletivo e, desse modo, devidamente controlado, posto a serviço da vida na polis. Dioniso é o deus das metamorfoses, um Shiva helênico, mas também um deus estrangeiro na Grécia, o qual destrói as formas que já perderam o vigor e estão ocas, estéreis, sem sentido, mas não querem largar o osso. Mais conhecido como o deus do vinho, quando usa outro de seus nomes, Baco, ele está, por exemplo, nos excessos que marcam o comportamento destrutivo da moçada ao beber. A sombra de Dioniso está na diversão que se transforma em coma alcóolico, na overdose que incapacita ou mata, no desfile fantasmagórico dos nóias da Cracolândia, na violência gratuita de pobres e ricos que querem exercer algum tipo de poder, ainda que entrando pela porta dos fundos. Ninguém vê Dioniso na nossa cultura arrogante e defensiva, mas é ele quem comanda pessoalmente o cortejo de delirantes, como fez na peça “As Bacantes”, do velho e ultramodermo Eurípides. A sombra de Dioniso emerge na manifestação inconsequente que rapidamente degringola em vandalismo, como as que aconteceram na avenida Paulista, sm Sampa, há duas semanas. Dioniso estava lá, para afrontar o Rei Velho e Tolo do poder instituído, o Cronos que come os próprios filhos para não ceder o trono, para não acolher a mudança urgente e necessária. Era, porém, um Dioniso sem imaginação nem metáfora, literal no seu furor descompensado, arrasador no seu descomedimento, no seu intento de destruir de fato uma ordem que se recusa a enxergá-lo e a ritualizar criativamente sua energia. De um modo mais leve e bem humorado, todavia não mais consciente, Dioniso estava no “saiaço” que tomou de assalto o apolíneo Colégio Bandeirantes, em São Paulo, reduto dos filhos de uma certa elite sócio-econômica paulistana que faz das tripas coração para ver os nomes dos seus meninos de ouro estampados nas listas mais distintas da FUVEST. Duvido que o garotos que foram de saia à escola, em apoio ao colega ridiculamente expulso da aula no dia anterior por estar usando a mesma peça, duvido e faço pouco que eles saibam que o travestismo ritual é de Dioniso, que gosta de atuar através do feminino, diferentemente dos fodões patriarcais do panteão olímpico, que mandavam na religião oficial. Sim, a mulherada é de Dioniso, e para poder espiar, sem ser notado, as bacantes e as mênades endoidecidas nos ritos dionisíacos, o rei Penteu, de Tebas, se vestiu de mulher e acabou deposto e desmembrado. A moçada que quer desmembrar o rei precisa, contudo, identificá-lo e melhorar a pontaria. Tomara que isso comece a acontecer. Dioniso derrubou Collor, hoje quase transformado numa vestal pelo descaramento dos monarcas in charge. Dioniso cai muito bem quando se trata de desbaratar projetos de poder auto-referentes, que não estão abertos a nenhum tipo de moderação pela alteridade. Ou quando é preciso, por exemplo, desmantelar uma medida desavergonhada e anti-democrática como a PEC 37, em que um bando de Saturnos eunucos luta para preservar seus mais duvidosos privilégios, contra todos os interesses do povo brasileiro. Bom seria se fosse um Dioniso conscientizado, como aquele que destronou Penteu em Tebas, não sem violência. Vejo com certa inveja os jovens turcos resistindo bravamente ao conservadorismo que ronda seu cenário político, tendo algumas centenas de árvores como centelha de inspiração. No caso da praça Taksim, vejo Dioniso, o Puer impulsivo, e Cronos, o Senex sábio e metódico, associados para garantir as liberdades ameaçadas pelo endurecimento do regime. Por aqui, a moçada parece que começa lentamente a sair de trás das barricadas de maio de 68. A violência da polícia, indesculpável mas, cá entre nós, um clichê, é a reação igualmente desmedida, que acaba por, inadvertidamente, obrigar o rebelde a encontrar uma causa que valha mais do que R$0,20. A liberdade cobra seu preço aos que nasceram nela. E Saturno, o senhor deste ano de 2013, demanda limites, responsabilidade, forma. Como aconteceu no apolíneo colégio de que falei há pouco, Dioniso virá e espero que, com ele, venha também um Cronos que o ancore na realidade e o compense, em sua impulsividade. Assim o arquétipo se torna inteiro: puer-e-senex.  Se isso acontecer, estaremos diante de uma genuína mudança.

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Cristiane
    jun 13, 2013 @ 18:23:08

    Eliana, você com uma caneta ( ou teclado) na mão é imbatível!
    Parabéns pelo artigo, vou divulgar e usar um trecho como post lá no blog. Quando tiver postado te aviso.
    Bjs e saudades
    P.S. Estou num retiro fora de São Paulo e toda essa loucura está me parecendo tremendamente surreal daqui…Volto na próxima semana, quem sabe conseguimos nos ver?

    Responder

  2. Lourdinha Heredia
    jun 17, 2013 @ 08:21:16

    Que encomenda da Bea e que delivery de você, Eli!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Responder

  3. ana maria bacchi ribeiro de oliveira
    ago 25, 2015 @ 15:27:01

    Bea, não te conheço, mas obrigadísima pela encomenda! Embora lendo com dois anos de atraso, achei o texto muito atual, e, lógico, divinamente (literalmente) escrito!!!! Eliana é Cultura!!!!!

    Responder

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