O inverno está chegando 2: a hora e a vez de Jaime Lannister Matraga

jaime lannister

Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento. O adágio cai como uma luva para a personalidade número 1 de Jaime Lannister, o tio-pai do vilãozinho Joffrey. Outra imagem arquetípica poderosa, desta vez para o masculino perdido e ferido, órfão do Papaizão corporativo ocidental, aquele que “fora de mim não há salvação”. No artigo “A face oculta do novo”, publicado no Estadão do dia 09-06, Lee Siegel fala sobre o crescimento do número de suicídio entre os americanos adultos do sexo masculino, como efeito colateral de algumas das “tendências festejadas” do Império, aquelas que as periferias adoram copiar: hiperindivualismo, hiperracionalismo, hiperconsumismo, hiperprodutividade. Para escapar ao suicídio, Jamie Lannister, assim como o Augusto Matraga do conto de Guimarãe Rosa, vai ter de se auto-sabotar.  Jamie literalmente terá de matar um pedaço de si para continuar vivo. No caso de um exímio espadachim, nada mais expressivo do que a mão direita. Um metrossexual cinico, amoral, irresistível, metido na sua reluzente armadura Louis Vuitton, Jaime forma, com sua contraparte feminina, a irmã-amante Cersei, uma espécie de totalidade corrompida, um andrógino literal e perverso. Ambos são consumidos pela relação incestuosa que não permite  que suas vidas evoluam, retidas no pântano do mundo da mãe morta, a quem eles reverenciam inconscientemente. É preciso abrandar a dureza, a agressividade, as altíssimas expectativas do poderoso patriarca da casa Lannister, Tywin, que trata os próprios filhos como crianças sumamente decepcionantes. Apesar da inegável competência para manipular e seduzir, Jaime permanece, contudo, sob o estigma de “Regicida”, o epiteto que o persegue  aonde quer que ele vá. No passado, tendo matado, pelas costas, um rei louco e homicida, ele continua preso a essa dúbia façanha e, portanto, uma espécie de herói eternamente sob suspeita, até porque, além de matar um rei (louco, mas rei), Jaime não foi capaz de fazer mais nada que o distinguisse por seu verdadeiro valor. Na corte do cunhado a quem corneia com a irmã, Jaime não passa de um super-valete. Retido na adolescência, preso ao pai e à irmã, incapaz de instituir uma jornada solo, Jaime acaba sendo lançado pela narrativa a uma aventura “campbelliana”, ao longo da qual será reenviado aos próprios limites. De volta ao lugar de onde partiu, ele encontrará seu verdadeiro lugar e papel num mundo que se transforma violentamente. Sua vida vira do avesso e sua aventura realmente começa quando ele se vê separado, pelas circunstâncias, do seu clã de origem. Segue-se sua captura pela casa inimiga, os Stark, cujo filho ele aleijou, ao empurrá-lo do alto de uma janela onde o menino inadvertidamente testemunhara a relação incestuosa entre Jaime e Cersei. Aí começa o calvário que desencadeará sua iniciação e sua metamorfose, impedindo que Jaime se autodestrua. Enviado pela matriarca dos Stark, sob a guarda estrita e competente de uma paraíba mulher-macho sem retoques, a cavaleira Rienne, Jamie deve ser trocado pelas duas filhas dos Stark, retidas na corte do malvadinho rei Joffrey. Mas as peripécias ao longo do caminho o submetem a todo tipo de provação e humilhação. Sem a resiliência do irmão Tyrion, o anão, de longe a melhor personagem da história, Jaime não sabe como se comportar na posição de inferior e é duramente castigado por sua arrogância e impulsividade. Termina por construir um vínculo de honra e lealdade com a improvável Rienne, mas somente depois de ter a mão direita amputada por um miserável caçador de recompensas. O homem que, ao final da temporada, retorna a King’s Landing, não é nem de longe o mesmo que deixou os confortos e os excessos da vida palaciana. Na cena final, eletrizante, Jaime entra, sem ser notado, no quarto de uma Cersei desatenta, mergulhada em pensamentos sombrios. Irreconhecível, mendigo e maneta, imundo e andrajoso, ele me pareceu, de repente, um digno avatar do épico Augusto Matraga em sua trajetória invertida, de reparação e redenção. Por fora, pão bolorento, por dentro, bela viola, Jaime Lannister engrossa o exército de Brancaleone que cresce e aparece lentamente ao longo da trama, um contingente de “loosers” de todos os tipos e que prometem virar o jogo dos tronos.

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