O inverno está chegando

Final de temporada na série “Game of Thrones”, da HBO. O autor é um deus ex-machina sem misericórdia nem clemência, que rapidamente esvazia nossas apostas e mata um a um os personagens convencionais aos quais mais nos apegamos, dependentes que somos de uma visão de mundo que, numa expressão, já era. Quem leu os livros sabe de antemão para onde o enredo se encaminha, porém quem é fã da série de TV, meu caso, prefere continuar dependurado no fio tenso do excelente roteiro. Os deuses novos e antigos me livrem de saber antes o que vai acontecer. Pelo mesmo motivo, não frequento videntes e acho uma pobreza quem frequenta para saber o que vai rolar na semana que vem. É melancólico a gente não ser capaz de imaginar ou estar tão ausente de si mesmo a ponto de querer antever o futuro para ganhar alguma perspectiva. Olhe em volta. Olhe para dentro. Leia. Vá ao cinema. Aos museus de arte. Veja como se move o imaginário da época. Preste atenção, como aconselhava Montaigne. Enxergue os deuses que se movem, ocultos nos atos impudentes, inconscientes e mecânicos dos homens, essa raça mal acabada de demiurgos idiotas, como dizia Jung. Pergunte a esses deuses os seus nomes e eles lhe dirão, sem rodeios, quem são, de onde vêm, para onde nos levarão. Em “Game of thrones”, à medida que a história avança para o desfecho, as mulheres abusadas, as crianças, os aleijados, os disformes, os bastardos, os escravos, os miseráveis, os selvagens pouco a pouco roubam a cena dos heróis, dos senhores, dos príncipes, dos cavaleiros, dos reis, dos nobres, dos times da primeira e da segunda divisão. O patriarcado se desconjunta diante dos nossos olhos, em dez capítulos enxutos, vitimado por sua própria desmedida. A síntese está lá, primorosa e impactante porque é metáfora, e a metáfora resume e, ainda por cima, antecipa, já que está livre para imaginar, ao contrário dos discursos oficiais, dos dogmas e das doutrinas. Fiz uma lista das imagens arquetípicas que  mais me saltaram aos olhos nesta fase da história e que me esclarecem muito sobre os tempos sombrios que vivemos, se é que vivemos outra coisa neste mundo que não tempos sombrios. De qualquer modo, “o inverno está chegando”, o mote sinistro da casa Stark, me parece muito apropriado para nós, que esperamos ao invés de agir. Devagarinho vou recuperando aqui as personagens da série como cintilações do arquétipo, que sempre tem muito a nos dizer, no avesso da razão. Meu primeiro tema é:

JOFFREY, O REIZINHO EQUIVOCADO

joffrey baratheon

Joffrey Baratheon, o tiranete infantil, mimado e sociopata da história, é uma imagem nítida e incômoda da nossa juventude que tem tudo e, por isso mesmo, morre de tédio e soçobra na própria falta de empatia e imaginação. Quando não tem o que quer, também não se constrange em roubar e matar para conseguir. Indigente de caráter, valores morais e ideais, Joffrey sofre, entre outras coisas, de um déficit crônico de limites, que um corpo coletivo leniente e hipócrita não foi capaz de lhe impor. Você pode imaginar homens crescidos que cometem crimes bárbaros sendo tratados, pelo Estado, como criancinhas perversas, incapazes de escolher entre o bem e o mal? Se pode, então entendeu o cerne desta questão. Joffrey foi largamente convencido de seus direitos e assim acredita neles com uma fé fanática, embora seja bastante cético no que tange aos seus deveres. Como a atual geração dos micro-déspotas superprotegidos e refratários à autoridade, sejam eles ricos ou pobres, Joffrey prossegue sem vínculos, nem rumo, nem desejo, todavia possuído de uma violência e de um arbítrio sem limites, que já apontam para o destino funesto que o aguarda, pelo menos na ficção. Vi muito de Joffrey nos atos de vandalismo que destroçaram patrimônio público e privado na avenida Paulista, semana passada, em meio a um canhestro protesto contra o aumento da passagem de ônibus. O espírito de Joffrey, destrutivo, desrespeitoso, arrogante, que adora causar, embora não tenha outra causa além da sua própria, depositada no fundo do umbigo, estava por lá, encapetando a moçada, grande parte da qual nem sequer usa ônibus e até foi de carro ao local, como quem vai à balada. São, como Joffrey, filhos de reis fracos e ausentes, de rainhas incestuosas e permissivas, de uma sociedade de aparências, roída de culpa, louca para se livrar do mico de ter de servir de modelo. O rei  Robert, pai formal de Joffrey (para quem não assiste, seu verdadeiro pai é seu tio Jamie), começou bem e terminou poderoso demais, entediado, amargo, bebum e promíscuo. Só no leito de morte caiu-lhe a ficha da bisca que deixaria em seu lugar, por puro descuido. Interessante que, no derradeiro capítulo da temporada, Joffrey se confronta, enfim, com um inimigo à altura: o próprio avô, perto de quem a maldade do neto é pinto. Grandes expectativas desse que será um duelo inesquecível: o da antiga ordem, tão cínica quanto ciosa de sua honra, dos interesses de seu clã e do lugar que este ocupa no mundo, contra a nova ordem, representada, na série, por um montinho de merda pretensioso e prepotente, o qual, assim como foi alçado a um lugar de ilusório poder por força de um golpe do destino, dele será derrubado, a seu tempo, pelos mais velhos, mais safos e mais malvados do que ele. Olhem para o Joffrey, garotos e garotas insolentes e auto-referentes, tomem tento, baixem a crista e vão trabalhar para ver se conseguem conservar a única herança que lhes cabe de fato: este mundo despedaçado pelos seus pais e avós.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Fabiana
    jun 14, 2013 @ 16:21:30

    Genial!!!
    Sou fã da história e amei a conexão arquetípica que você fez entre os personagens e a realidade atual.
    E dá-lhe, Mulher-Esqueleto!!
    Beijos,
    Fabi

    Resposta

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