Culta e grossa

medusa

Cultura e grossura. Por alguma razão insondável para mim, as duas jamais deveriam ter se tornado amigas de infância, já que sempre me pareceram, por natureza, auto-excludentes. Na minha cabeça reducionista, onde houvesse cultura não caberia a grossura e vice-versa. Falo da cultura (de humanidades en particular) como repertório pessoal, conquistado pelo sujeito ao cabedal de conhecimento coletivo acumulado ao longo dos milênios de nossa estada neste pobre planeta, e legado aos membros da espécie humana, cultura que deveria atuar, no sujeito e na minha fantasia cartesiana, como um elemento civilizador e não o contrário. Questão de simetria virginiana: a todo conhecimento adquirido “de fora” corresponderia uma ampliação da consciência do sujeito, um conhecimento de si que lhe permitisse, entre outras coisas, evitar as generalizações, investir na busca de uma autocrítica tão afiada e desenvolta quanto a crítica, mediar conflitos, treinar um olhar mais compassivo e integrador da diferença. Repiso aqui o clichê mais que avacalhado e que, contudo, permanece seminovo (na academia, pelo menos, com raras e honrosas exceções), da ciência com consciência. Seria algo como esperar que um “homem de Deus” fosse também um homem bom. Ou que fosse natural a um professor servir de modelo positivo de comportamento para seus alunos. Ou que um político tivesse inclinação inata à honestidade. É estúpido, eu sei, fantasiar que o contato aprofundado de um sujeito com alguma instância da cultura de humanidades deveria torná-lo, em decorrência, um ser humano melhor, um portador e agente da civilidade. Taí um termo que relaciono com cultura, nem sei bem o motivo, uma palavra que pede para ser definida, não por mim, mas pelo Aurélio. CIVILIDADE: “conjunto de formalidades observadas entre si pelos cidadãos em sinal de respeito mútuo e consideração; polidez, urbanidade, delicadeza, cortesia”. Vendo a coisa desse ângulo, a cultura adquirida que investisse de mais consciência seu portador, o dotaria, para começar, de uma visão mais nítida do outro, de uma aceitação da diferença no diferente que, justo por ser diferente, teria algo a lhe acrescentar. Daí o “respeito mútuo, a consideração, a urbanidade, a delicadeza, a cortesia” com esse outro: outras pessoas, outras opiniões, outros paradigmas etc… “Que venham os diferentes”, seria uma invocação digna de uma pessoa culta, “para me ensinarem o que ainda não sei”. E aí começa o problema, porque o mero ato de admitir que não se sabe alguma coisa é de uma civilidade que simplesmente não faz sentido no acervo de comportamentos do culto grosso. Observando como agem muitos daqueles que conquistaram o privilégio de receber uma formação humanista mais ampla, a gente acaba sendo forçada a concluir que não há nada mais equivocado que confundir cultura com civilidade, assim como religião não tem relação alguma com bondade, nem mestria com responsabilidade, nem política com ética. Saber não implica ser. Num mundo em que conhecimento é poder, a cultura sempre funcionou mais como arma letal, energia de dispersão sempre pronta a causar a destruição (nem sempre) simbólica do rival, expediente ativo-agressivo de sujeição e dominação dos que “não sabem” ou dos que “sabem diferente”, embora se trate de dominação e sujeição disfarçadas por sedutores discursos, geralmente impenetráveis aos leigos, discursos de poder, auráticos, repletos de construções e termos tão altissonantes quando a própria Palavra de Deus. Desencarnada, feita recheio untuoso e pouco nutritivo de cabeças falantes que não se deixam moderar pelo peso e os limites do corpo, do tempo e da mortalidade, a cultura virou cacife de carteirada. Confundida com dinheiro, ela é frequentemente sacada da cartucheira do doutor com a famigerada pergunta “Você sabe com quem está falando?”, disfarçada numa infinidade de versões. Talvez por isso, num momento da história do mundo em que tantos sabem tanto sobre tantos assuntos, continuemos reféns de uma miséria absoluta que nada tem de material e que, entre outras coisas, confunde o mero acesso a eletroeletrônicos e o consumo de iogurte industrializado com melhora na qualidade de vida. A extroversão perversa da cultura transformou-a em bugiganga, em verniz, em entulho dourado, e o currículo lattes, por vezes uma peça de ficção, tornou-se o cartão de crédito do Narciso acadêmico: quanto mais pesado de penduricalhos, mais respeitável será seu portador. Se ele tem algum lastro existencial que ancore essa persona hipertrofiada, ninguém sabe. E também não interessa. No reino das aparências, a cultura ostentada como símbolo de status não é menos vil ou cafona do que o carro, as jóias, as marcas, embora estas últimas sejam bem mais honestas naquilo que revelam dos ostentadores. Os cultos grossos sempre me remetem aos obesos mórbidos. Vejo neles o exercício do acúmulo de títulos como esporte, o excesso de gordura intelectual que a cultura retida a girar na órbita do umbigo do sujeito termina por desencadear. Os cultos e grossos me lembram de uma grande árvore que despencou, aqui mesmo, na minha rua, numa daquelas furiosas tempestades tropicais do verão passado. Sua queda revelou a exiguidade das raízes, frágeis, finas, curtas, incapazes de sustentar a imensa copa e o tronco grosso. Uma árvore majestosa, sem vida interior, pensei, quando a vi sendo fracionada pelas motosserras da prefeitura. A coisificação, a vulgarização (que nada tem de democratização), a ideologização da cultura não são novas, mas estão se tornando escandalosamente evidentes, como um rabo de dinossauro num cavalo puro-sangue árabe. O tema me chegou por conta de uma exposição, nas mídias digital e impressa, de uma certa luminar da academia, uma que se destaca por sua grossura tanto quanto pelo extenso cabedal de cultura que acumulou e gosta de exibir com notável agressividade. Trata-se de uma velha senhora que tinha tudo para trazer um pouco de sabedoria e equilíbrio a mais este momento sinistro da vida brasileira, todavia comporta-se em público feito uma menina mimada, contrariada porque os brinquedos não a obedecem como ela contava que fizessem. Muito ciência, nenhuma consciência. Copa magnífica, raízes anêmicas. Há mesmo algo de podre no mundo, quando pessoas cultas se manifestam nas mídias como seres humanos infantis, intratáveis, pequenas entidades raivosas, possuídas de empáfia e arrogância, dominadas unicamente pela soberba do próprio conhecimento. Se aqueles que, em tese, deveriam abrir caminho para o coletivo, na busca de uma vida mais autêntica, agem dessa maneira inqualificável, fica difícil imaginar uma sociedade que caminha para o amadurecimento político, para a justiça imparcial, para a melhora efetiva da vida de seus cidadãos. Em breve, com os cultos grossos deslumbrados cada vez mais ativados pelo narcisismo reinante, teremos pegas no ringue ao invés de debates. E será bem mais honesto, convenhamos.

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Marilia Rodrigues
    maio 17, 2013 @ 20:52:26

    Oi QUERIDA, lendo seu texto, no meio dele pensei…”o que (ou quem) será que provocou esta reação “aguda” na minha amiga?
    Deve ter sido mesmo bem “ridículo” o que houve, o que foi escrito ou o que foi dito…o que impressiona é que algumas “autoridades cultas” usam da grossura como parte de seu “estilo”…haja paciência!!!

    Responder

  2. Maria Cecília Sanchez Teixeira
    maio 18, 2013 @ 19:46:46

    Olá Eli, assino em baixo, pois você tem toda razão quando aponta a arrogância, a vaidade e a grossura dos “inteligentinhos” como diz o Pondé. Fiquei curiosa para saber quem provocou tanta indignação.

    Responder

  3. Lourdinha Heredia
    maio 27, 2013 @ 19:16:11

    Uau, isso foi uma reação. Aconteceu alguma coisa enquanto eu não estava por aí? Ou eu boiei mesmo estando? Bárbaro, mas ainda estou buscando a alusão!

    Responder

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