Menos triunfo. Mais sentido.

Deusa Minerva e o Centauro

Vou ter de confessar. A feminista acadêmica me intimidou. Sério. E olhem que eu me considero uma feminista. Apesar do visual familiar (eu também costumava me vestir de preto fechado aos dezesseis anos de idade), da iniciativa amistosa de me cumprimentar, do rosto bonito, o discurso logo me revelou de onde ela vinha e a quem ela servia. Saber disso me deu medo. A gente vê a sombra do outro e recua, é natural. Ver assombra. Ver a sombra do outro assombra ainda mais. E o auditório quase cheio. Na maioria garotas, mas também muitos garotos curiosos, animados. Era quase um milagre aquela moçada implume e baladeira ali sentada, querendo, com o sol brilhando lá fora, debater assuntos de mulheres. Logo percebi que não era recomendável enganchar na sombra espessa que vinha a reboque dela. Acontecesse o que acontecesse, eu tinha de sair de banda. Pensei isso logo que a feminista acadêmica engatou seu discurso, convincente como um AK 105. Era um verbo escorreito, sem fissuras, o verbo sedutor e agressivo dos machos-alfa. Uma fala dura, tão bem articulada quanto expurgada de sentimentos (os positivos, pelo menos). E pujante, esfuziante de citações, ecos de outras falas ainda mais autorizadas que a dela. Uma fala caudalosa, linear e lógica, rigorosamente fiel ao manual do neopatriarcado acadêmico, festonada de palavrões e outras expressões tão imaturas quanto anacrônicas. Muitos dogmas, nenhuma misericórdia, mais um bocado de populismo. Possuída da ilusão da objetividade, ela teceu um discurso assentado sobre pressupostos inquestionáveis, eivado de raciocínios cortantes, laudatório e ecoante de super-patriarcas como Freud e Marx (suprema contradição usar esses dois chauvinistas para referendar valores do feminino). Mais que tudo, era um discurso excludente da diferença, fosse ela representada pelos homens, as mães, as mulheres que gostam de se arrumar, entre outras vítimas sem nenhuma apelação possível. Um frêmito perpassou a plateia quase adolescente. Se vocês querem ser feministas, andem sempre em grupo, e grupo de amigas, porque os amigos homens não são de todo confiáveis. Ser mãe é um horror, não sejam mães, a maternidade é um engodo e uma servidão. Um aspecto de ser dona do própria corpo é que é preciso ser feia, parecer feia, não ceder à beleza como forma de dominação dos homens sobre as mulheres. E por aí foi. Sempre fico fascinada com o impacto que os discursos patriarcais anti-patriarcado continuam a ter sobre os militantes que os emitem e suas plateias transidas. O Grande Pai convence a maior das sabichonas, quando se traveste de Grande Mãe para vociferar palavras de ordem e dispensar veredictos incontestáveis. As meninas foram ficando nervosas e eletrizadas, enquanto eu me dava conta de como a capacidade de camuflagem do modelo patriarcal permanece intacta, muitos milênios passados de sua instauração. Mesmo hoje, alardeados os direitos das mais diversas minorias, o patriarcado 2.0  converte centenas de incautos pelo método certeiro do reducionismo maniqueísta. Parece fino, mas é tosco. Parece sofisticado, mas é genérico. Mudando um pouco as palavras aqui e ali, trata-se de um discurso adaptável a qualquer extremismo ideológico, seja ele religioso, social, político, mercadológico (embora, ao fim e ao fundo, tudo, neste mundo, termine por se revelar mercadológico). A tática por excelência, magistral, do patriarcado continua a ser sua formidável capacidade de infiltração, adaptaçãoe cooptação no interior dos movimentos que o combatem armados unicamente de uma racionalidade tão arrogante quando ingênua, que subestima o vasto poder da sombra coletiva. Mas então uma coisa aconteceu. Primeiro a feminista acadêmica teve de ir embora. No vácuo de discurso que ela deixou atrás de si, alguns meninos protestaram timidamente contra o julgamento que os transformou em ameaça latente às amigas. Encorajadas, algumas meninas contestaram com suavidade, evocando valores significativos para elas. Pequenas vozes discordantes se fizeram ouvir e me pareceram firmes, embora jovens, muito jovens. Sobrou para mim, no final, falar de outro modo de relação que não o da dominação de uma metade da humanidade pela outra, como diriam a Riane Eisler e o Umberto Maturana. Da superação da lutas de classes e de gêneros, porque a luta tão somente se alimenta de si mesma e tem sede de matar e morrer. De um encaminhamento que não pressuponha a erradição da diferença para chegar à síntese pela lobotomia. De uma negociação que reconheça o valor da diferença. Da beleza e da força da diferença. A identidade quer o poder e o poder pressupõe a instauração de uma hierarquia, esse constructo patriarcal em que alguns dominam e muitos são dominados. A diferença quer apenas que sua força seja reconhecida e respeitada pelo que é. Não me parece que seja pedir muito. A superação necessária desse feminismo feroz, que reafirma o patriarcado pelo avesso, talvez nos chegue por meio de um pacto da alma individual com a alma do mundo. A reparação de nossa condição feminina ferida virá na medida em que nos engajarmos com a reparação da Terra, da natureza espoliada, da cultura degradada pelo mercado e pelo consumo, da condição humana ferida em sua integridade pela fúria destruidora do patriarcado, também em seu aspecto de demolidora hiperracionalidade. Nesse sentido, acredito num feminismo em que mulheres e homens coloquem sua força a serviço da alma, uma força amorosa e coesiva, que busca o sentido e não o triunfo.

Anúncios

7 Comentários (+adicionar seu?)

  1. duboc9
    mar 11, 2013 @ 15:07:36

    Pois , quando at os-as que brincam perto da razo se parecem mais com os inimigos confiveis, a razo para algum otimismo perde a f (nada a ver com religio) e fica na vontade, se fica. Te ler sempre sobra alguma esperana. E a emoo, h alguma emoo para se ter otimismo? Clarices no h mais, quantas elianas, lias lufts, fernandas, marinas seriam precisas?

    abrao Luiz

    Date: Sun, 10 Mar 2013 21:28:57 +0000 To: duboc9@hotmail.com

    Responder

  2. Fabiana
    mar 11, 2013 @ 20:30:01

    Querida!!
    Fecho com você:
    “Nesse sentido, acredito num feminismo em que mulheres e homens coloquem sua força a serviço da alma, uma força amorosa e coesiva, que busca o sentido e não o triunfo.”
    Beijos e obrigada por estar perto dos jovens,
    Fabi

    Responder

  3. Maria Cecília
    mar 11, 2013 @ 20:57:16

    Que bom que você estava lá para mostrar o outro lado e que bom que a plateia teve alguma reação, ainda que incipiente. É um bom sinal.

    Responder

  4. Lourdinha Heredia
    mar 12, 2013 @ 11:48:53

    Você arrasou entrando sem toda essa agresividade, Eli!!!!!!!!! A gente chega lá! Beijo. Lourdinha

    Responder

  5. Cristiane
    abr 23, 2013 @ 20:50:39

    Eli, arrasou neste texto!
    É exatamente o que estamos discutindo no grupo de estudos. As formas disfarçadas da infiltração do patriarcado nos movimentos feministas.
    Agora, estou morrendo de curiosidade, desculpe a indiscrição: que evento foi esse? Como você foi parar lá?
    Bjs

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: