“Casinha pequenina”

mamae e caio bebe

Quando eu era pequena, minha mãe costumava cantar para me fazer dormir. Ela era meio desafinada, mas eu amava seu repertório heterodoxo e ecumênico, feito de marchinhas de carnaval, severos hinos do Cantor Christão, guarânias dolentes, modinhas sertanejas e cantigas tradicionais, algumas delas tristíssimas. Essas últimas eram as minhas favoritas. Uma canção em particular cortava em postas meu coraçãozinho tenro: “Casinha pequenina”. Pensando bem, triste mesmo é quem não teve, na infância, o privilégio de experimentar a tristeza pela metáfora e, com ela, viver o contraste que nos permite experimentar, por oposição, a mais perfeita alegria, quando ela se nos apresenta. Poucas crianças têm, hoje em dia, a mesma sorte, impedidas que são, pelos adultos, de aprender a lidar com os contrastes da vida mediados pelas metáforas, as imagens, a arte, as histórias, a (boa) música, o (bom) cinema etc. São as imagens que melhor nos ensinam a lidar com os opostos de que é feita a vida humana, para produzir resiliência. Déspotas obsedados pela ilusão de que a felicidade dos filhos é uma via de mão única, pais e mães interditam suas crianças de provar a tristeza, a dor, a morte por meio de fantasias protetoras e terapêuticas. A publicidade nos empastelou de um modo aviltante, viciando-nos com imagens falsas e vazias de uma felicidade que se pode comprar nas boas casa do ramo, enquanto nossas almas, reduzidas à mais negra miséria, passam fome. Boris Cirulnik, psiquiatra e etologista francês, foi o primeiro a usar o termo “resiliência” fora do contexto da física dos materiais, aplicado à psicologia, como a capacidade que todo ser humano pode desenvolver, se lhe for permitido, de se recompor e prosseguir, ferido mas íntegro, depois de sofrer um golpe da vida. Ele mesmo foi um menino judeu abandonado pela mãe num orfanato, porque esta não queria que o filho fosse levado para o campo de concentração nazista. A mãe foi e lá ela morreu. O filho sobreviveu, superou e transformou a resiliência no tema de sua vida. Num livro lindo, chamado “O murmúrio dos fantasmas”, Boris conta que pessoas com lesões na região do cérebro responsável por produzir a sensação de infelicidade, acabam se tornando, em decorrência, incapazes de sentir, também, felicidade. Não à toa, tantas crianças e jovens se tornam pessoas apáticas, astênicas, desinteressadas de tudo e de todos. Carentes de contrastes, polarizadas no prazer ou na dor, elas acabam precisando aditivar com drogas e álcool uma vida sem nuances. Assim ricos e pobres podem irmanar-se, democraticamente, na anomia e falta de sentido, caso os traumas inevitáveis do existir não lhes tenham ensinado resiliência.

Pupi

Pupi

A letra de “Casinha pequenina” dizia: “Tu não te lembras da casinha pequenina onde o nosso amor nasceu. Tinha um coqueiro do lado que, coitado, de saudades já morreu”. Eu sei que tinha uma segunda estrofe, mais abstrata e romântica, mas a que eu guardei foi a primeira. Eu literalmente via as imagens enquanto minha mãe cantava. Eu vejo até hoje as imagens, como as via então. A casinha pequenina fechada e sombria, paredes descascadas, vidraças quebradas, a varanda tomada de mato. Na tela do meu cineminha subjetivo, a casinha chorava seu abandono, desintegrando-se à luz de um entardecer melancólico. O coqueiro do lado, coitado, o destino dele, então, me dilacerava. O tronco reclinado num arco desanimado, as palmas secas, sua ninfa evadida para sempre. Monteiro Lobato ainda não me contara que os gregos tinham uma alma com nome para cada ser da natureza, mas eu já intuía isso, como toda criança é capaz de intuir antes que os adultos tirem dela essa capacidade ou a transformem numa fome de lixo, de entulho, de venenos para a alma, muito parecida com a fome que eles mesmos carregam consigo. As imagens que reverberavam dentro de mim fluíam de todo lugar, das cantigas de minha mãe, das histórias, das imagens que meu lápis produzia incessantemente, dos quintais da minha rua, dos bichos, dos banheiros que eu visitava… É que, na minha cabeça, todo banheiro em que eu entrava pela primeira vez tinha um segredo escondido, um segredo que eu precisava descobrir. Honra seja feita ao banheiro da casa da dona Carmen, amiga rica de minha mãe, um cômodo vasto, com piso e parede verdes e peças feitas de louça preta. Puro mistério que devo ter desvendado, mas não me lembro mais qual era. Sim, o mundo concreto tinha sua própria luz e emitia essa luz para mim, como fez com os neoplatônicos e os alquimistas. O mundo era sagrado em si mesmo, um lugar “animado”, habitado por deuses, demônios, ninfas. Através daquela velha canção, a Anima Mundi se comunicava com minha alminha que, igual a de Zeca Baleiro, tinha (e ainda tem) muito que aprender. Ao escrever sobre a qualidade divina, orgânica, concreta e feminina que tem a matéria do mundo, Marion Woodman revestiu minha experiência com uma interpretação que não a violou, ao contrário, me esclareceu a ponto de fazê-la aflorar neste post. No último 2 de fevereiro, data em que se comemora Iemanjá, imagem afrobrasileira da Deusa, fez um ano que minha mãe passou para o outro lado. Há três meses, resolvi reformar o sobradinho que ela amava, literalmente vandalizado por um horda de inquilinos abjetos (se fosse por uma vara de porcos, eu até entenderia…). Esta semana, terminamos a reforma. Fiz questão de deixar a casinha do jeito que minha mãe gostava, com janelas e portões pintados de verde colonial, limpa e arrumada, luminosa e acolhedora. Hoje entendi que essa foi uma reparação que fiz àquela “Casinha Pequenina” da canção de minha infância, mas também à alma de minha mãe ou à sua ninfa, ou ainda a Héstia, a modesta e imprescindível deusa grega da lareira, que minha mãe encarnou muito bem. Ou a todas elas. O fato é que há uma porção da alma de minha mãe cuja luz a casinha real ainda irradia. Preciso contrastar essa luz recuperada com a boa morte que se anuncia para minha querida tia-madrinha Teresa, a quem minha mãe há de ajudar a fazer a travessia. As duas se gostavam muito, mas também se odiavam um pouco. Pobre mesmo é quem não tem metáforas.

Crianças na casinha

Crianças na casinha

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9 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Isa Guará
    fev 10, 2013 @ 16:02:14

    A mulher esqueleto sempre me brinda com textos epifanicos! Eu também fui encantada por estas musicas simples, dolentes e melancólicas em minha infância. Aos 8 anos cantei na TV Alterosa de BH num programa infantil um musica latina que aprendi de um disco que meu avô tinha.

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  2. Mariluza Abrahao
    fev 10, 2013 @ 19:41:27

    Delicia de leitura para esta tarde chuvosa neste domingo de carnaval. Recordação de uma cantiga que minha mãe tb desafinada , cantava para mim, era uma música em espanhol, chamada Cara susia, que ela dizia que só cantava qd. estava melancolica e eu achava tudo muito lindo.

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  3. Cristiane
    fev 10, 2013 @ 20:06:12

    OI Eli,

    Que texto lindo, profundo e cheio de poesia.
    Que forma linda você escolheu para elaborar a passagem de sua mãe.
    Sabe que na foto ela parece fisicamente com você?
    Que lembranças lindas…você realmente teve uma infância rica.
    Bjs

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    • elianaatihe
      fev 11, 2013 @ 10:54:51

      Querida Cris, rica é uma boa palavra para descrever a minha infância, no sentido de que foi,sim, uma infância complexa, com tudo o que se tem direito. Hoje, à distância, reflito e percebo que não poderia ter sido diferente… Bjs

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  4. Ana Cris
    fev 11, 2013 @ 10:31:50

    Lembranças para chorar…
    Kix

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  5. Marilda
    fev 13, 2013 @ 11:58:14

    Engraçado como as histórias de sua mãe repercutem em meu consciente…adorei ler este post lindo…saudades.

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  6. rubens osorio
    fev 20, 2013 @ 21:18:34

    Eu me lembro de “casinhas pequeninas” da minha infância. Lembrar é bom, ter vivido, melhor ainda!

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  7. duboc9
    mar 10, 2013 @ 11:48:45

    Linda crnica (, ainda acredito no cinrcunflexo). Que seja feliz na tua Casinha Pequenina. Que Hstia nos proteja. Grande abrao. Gostaria que lhe mandar um beijo, mas seria m educao com sua sensibilidade que no conheo pessoalmente. Grande abrao, que vale beijo. Luiz

    Date: Sun, 10 Feb 2013 14:27:22 +0000 To: duboc9@hotmail.com

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