Mulheres de A a Z

"Bacia da alma", colagem do meu caderno pessoal

“Bacia da alma”, colagem do meu caderno pessoal

PRELIMINARES

“Será que é trote?”, nos perguntamos, simultaneamente, eu e Fabi. Ela estava excitada, mas um tanto incrédula. A pessoa tinha ligado para ela no celular, em meio ao trânsito. Uma voz feminina com sotaque argentino e um convite para participar de um TED. Um TED, com aquelas palestras superincríveis transmitidas pela Internet e que muita gente usa para incrementar as aulas de inglês, aonde vão falar divindades como a Jane Fonda e a Isabel Allende. Então tinha tudo para ser trote. Mais que tudo, porém, tinha a escuta da Fabi, minha irmã gêmea mequetrefe, do outro lado da linha. Nós, da família Mequetrefe, nunca achamos que essas coisas acontecem com a gente. Mas daí a pessoa tornou a ligar e tudo indicava que trote não era. A interlocutora da Fabi soava como se fosse uma pessoa de verdade. Contou que o evento reuniria, no auditório da Abril, um grupo de mulheres que tinham coisas importantes a dizer. Seria um TED X Women, ela revelou, seja lá o que isso quisesse dizer. Minha gêmea logo deu um jeito de me botar no meio, que é para isso que serve a família. Fomos à primeira reunião com a coordenadora, numa casa bonita, acolhedora, protegida por uma coleção de impressionantes bonecas peruanas, com prateleiras de livros de receitas na cozinha. Bati o olho e logo vi um terreno baldio bárbaro (no sentido comum e no figurado) nos fundos, remanescente da demolição de uma edícula e clamando para virar um jardim. Elena nos recebeu calorosamente e logo fazíamos um pacto de chá com biscoitos, enquanto ela nos explicava o que era e nos perguntava sobre o que queríamos falar. Não, não era trote. Fabi ia contar uma história que logo se apresentou para ela. Eu queria falar sobre nossas matilhas de grupos de mulheres que correm com os lobos, jogam tarô, encarnam as deusas maduras e por aí vai. Depois vieram duas semanas ralando em cima do que queríamos dizer, até que as palavras se sincronizassem com nossos ritmos cardíacos. Eu falaria dos meus grupos de corpo e alma. Quando o bebê finalmente nasceu, de fórceps, levei-o para as lobas abençoarem. Elas uivaram positivamente e assim me autorizaram a contar nossa fabulosa experiência, intensamente vivida, com minhas pobres palavrinhas que não dão conta de descrever um pé de arruda. A Fabi logo se pegou com a história do John, o mascate de Swafham, e de lá derivou para recuperar a conexão com sua linhagem de comerciantes. Sim, ela É uma mascate de histórias. Seu sonho a tornou real, como a gerência de uma joalheria não tinha sido capaz de fazer. Mas essas coisas são assim: tudo ao mesmo tempo agora. Na véspera do tal TED X, eu iria fechar uma Mostra da Secretaria de Educação de Guarulhos, convocada pela Rita, uma ex-aluna (isso existe, por acaso?) maravilhosa, que anda reencantando o mundo por lá. E ela queria logo uma conferência, chique, formal, com 90 minutos de duração e mais meia hora para perguntas da plateia, uma cerimônia de fechamento de um evento grande e importante. Eu não digo não para alunas como a Rita, de jeito nenhum. Botei minha cara nada verossímil de conferencista e me mandei para Guarulhos na tarde de quinta. Cheguei e logo fui capturada pelo clima da mostra. Uma coisa viva, intensa, carregada de energia amorosa, de pessoas legais, nada de burocratas de cara amarrada, só gente cálida e abraçadeira. Foi uma noite de gala. Me deram um palco com uma enorme boca de cena e uma auditório ao qual a Madonna certamente se renderia. Falei do que sei, do que acredito, do que gosto, do que procuro viver. Ganhei um ramalhete de boas perguntas e uma plateia atenta, que ficou até o fim. Vim para casa fluindo no privilégio de me sentir inteira, uma pessoa com um propósito e ciente dele. Tinha lua cheia no céu e o pé de dama da noite do vizinho me recebeu com um perfume arrebatador.

NA REAL

Uma coisa que temos em comum, eu e a Fabi, é que somos CDF. Somadas, fazemos soar estridentes badaladas cada vez que nos sentamos numa cadeira dura, tal é a têmpera da coisa toda. Era para chegar cedo? Então nós chegamos antes de todo mundo. Depois soubemos que a Jane tinha chegado ainda mais cedo, mas ela não tinha carro. Chegamos tão cedo que o pessoal da recepção do estacionamento do Abril ainda não tinha recebido a lista com as chapas dos carros das palestrantes do TED. Nem mesmo o carro-vagão do circo da Fabi foi capaz de convencer o pessoal de que fazíamos parte da trupe. E lá fomos nós, camelar atrás de um estacionamento em plena marginal, nós, da família Mequetrefe, que não sabemos dar carteirada. O estacionamento apareceu, de fato, como o guarda da recepção da Abril tinha dito, mas só aceitava dinheiro ou cheque e nós duas tínhamos nos esquecido e provisionar as carteiras. Juntamos as migalhas (meu marido que saiba!) e a mariscada de moedas deu uma diária: R$ 13,00 justos. Daí para a frente, as coisas andaram normalmente. Ou quase. Fomos recebidas por algumas criaturas fofas da casa, o auditório era uma graça, os meninos da técnica eram verdadeiros smurfs, as convidadas foram chegando, a tarde foi avançando. Não, não parecia trote. A certa altura, fui com a Fabi buscar o carro, porque a coisa iria longe e o tal estacionamento que levou nossas economias fecharia às oito. Sim, agora tínhamos uma autorização em nome da família Mequetrefe esperando por nós na recepção da Abril. Idas e vindas, gente que entrava e saia, uma ansiedade gostosa no ar. Finalmente a hora de começar chegou.

DA MATILHA

Nem preciso dizer que o TED entrou pela porta certa, quando a Elena escolheu a Fabi para abri-lo com uma história. Porque é isso mesmo que as histórias fazem. As histórias abrem. A chave da Fabi abriu um encontro emocionado e divertido, no qual conheci mulheres que nasceram minhas amigas mas que, por puro acidente, eu ainda não tinha tido a felicidade de encontrar pessoalmente. Conheci Graziela e Jane, mães unidas por histórias fortes, mulheres elegantes a mais não poder, cada qual do seu jeito. A primeira, densa, e a segunda, irônica, ambas tirando diamantes da mina mais escura e profunda do mundo. Conheci a Erika, mineira linda e gozada como só as mineiras sabem ser, criativa e doida, contadeira de causos e ganhadora de prêmios, além de ongueira juramentada a serviço da beleza e da alegria no mundo. Conheci a Marta, que se equilibra sobre asas de aviões antigos fazendo uma coisa chamada “wingwalking”, meus deuses, como não se encantar com uma bela senhora de tubinho preto que fica dependurada de cabeça para baixo, enquanto o avião faz um looping? E a Maria Cândida, a apresentadora que viajou por 12 países entrevistando mulheres mais que interessantes, para depois poder contar suas histórias? E a Juliana, bióloga que dedica a vida à lutar contra o  tráfico de animais silvestres e que contou coisas impressionantes sobre a delicada tarefa de reintegrá-los à natureza? E a Brenda, que nos contou uma história um pouco melancólica (pelo menos eu achei), só que em forma de estatística, sobre o que esperam e o que espera as garotas da geração Y? Passava das oito e meia quando chegou a minha vez. A Fabi me entregou a chave e eu fechei o evento, falando sobre nossas matilhas, os grupos de corpo e alma do ateliê, e sobre como é esse desejo de reaprender a ficar que nos motiva a nos juntarmos, toda semana, religiosamente de verdade, para convocar, no microcosmo, as mudanças que os poderosos não têm interesse algum de fazer. Por sorte, fui precedida pela Erika, com seu senso de humor incontrolável feito um macaco que, de repente, escapa da jaula do zoológico e vem pular no meio da sala de estar. Entrei no clima certo. Todo mundo estava cansado, eu inclusive, mas de repente os ouvidos se reaprumaram, as pessoas tornaram a se abrir, a energia rolou mais uma vez. Terminamos entre beijos, abraços e fotos em grupo, unidas pelo desejo profundo de fazer peso para o lado da mudança, nem que seja comendo mais pão de queijo, né mesmo Erika?

À ESPERA

Ainda não recebemos o link do evento para repassar aos fãs alucinados, que esmurram a porta e mandam SMS ameaçadores. Calma, pessoal. Quando o link chegar, teremos certeza de que não foi trote. Por enquanto, só temos a realidade, cada vez mais desacreditada, para provar que não foi mais um episódio de “Twilight zone”. Ainda bem que a gente estava junta, eu e a Fabi. Senão podiam dizer que tinha sido uma alucinação causada por consumo de florais em quantidades abissais, o que de fato aconteceu. Mas, como eu pinguei gotinhas da minha fórmula na boca de todo mundo que estava ansioso antes do evento começar, então tratou-se de uma alucinação coletiva, coisa de que estamos a precisar, como dizem os portugueses. Já que a objetividade racional está fazendo tanta merda no mundo, quem sabe não está na hora de mais gente alucinar deliberada e conscientemente?

P. S. – O link para o TED X já está disponível na lista de links do blog. Vá lá xeretar. Beijos.

 

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8 Comentários (+adicionar seu?)

  1. maria de lourdes peres heredia
    dez 03, 2012 @ 18:31:17

    Minha professora, amiga, irmã, que talento você tem para contar o que quer que seja, que maga das palavras! Hoje é um relato, e, ainda que não seja qualquer relato, eu deveria ler e ficar sabendo. Mas não, eu leio seu blog e fico assim parada, cismando, e agradecendo a deus/à deusa por ter um dia “aterrissado” no ateliê.

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  2. Maria Cecília
    dez 03, 2012 @ 18:33:40

    Maravilha Eli! Só discordo de uma coisa: da sua afirmação de que as suas pobres palavrinhas não dão conta de descrever um pé de arruda. Com já disse várias vezes, você tem o dom de escarafunchar as profundezas da alma e descrever os seus achados com uma leveza e lindeza incríveis. Um exemplo é esse achado precioso do ficar. Adorei.

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  3. bkk
    dez 03, 2012 @ 18:56:04

    que belezura! grandes garotas!beijos

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  4. Mari Palhares
    dez 03, 2012 @ 20:16:16

    Adorei tudo! E sim estou ansiosa para ver o vídeo e conhecer todas essas histórias!!!

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  5. Fabiana
    dez 04, 2012 @ 10:28:13

    Eli!!
    Estou rolando de rir com a sua novela. Isso mesmo, novela!
    Você colocou Pero Vaz de Caminha no chinelo e coloriu essa aventura com cores da paleta da alma. Que delícia!!! E eu, que me descobri mascate, agora me dei conta que guio um carro-vagão do circo! Uau!!! Isso é bom demais, mana mequetrefe!!
    Que bom olhar ao redor e ver que não estamos sozinhas nessa viagem, muitas lobas de todos os lugares seguindo em caravana, trazendo um pouco mais de vida pra esse mundo deixar de ser desalmado.
    Muito obrigada, querida!!
    Beijos com todo Amor,
    Fabi

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  6. Ana Cris
    dez 05, 2012 @ 12:42:12

    Pura emoção verdadeira, daquelas legítimas, sem ser piegas.
    Constatei que somos mesmo seres fora da curva nesse mundo árido, graças à deusa!!
    Só me resta agradecer ao meu amigo mexicano José Emílio, velhinho de corpo, mas com uma ânima inteirinha, jovem, divertida!! Sem ele, eu não teria voltado pro Brasil com a missão de inventar o nosso ateliê!!
    Bs pra Fabi e pra Eli que foram dividir com as pessoas a comida da alma que compartilhamos em cd um dos nosso encontros, haja o que houver, faça chuva ou faça sol, vente forte ou não, faça calor ou frio,tenha trânsito ou não…
    Obrigada pra vcs, foi um presente ouvir cd história daquelas mulheres em forma de mosaico, restaurando a vida, reinventando sentidos, fazendo conexões aparentemente impossíveis…
    Anacris

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  7. Cristiane
    dez 07, 2012 @ 21:35:18

    Oi Eli, desculpe a ausência, mas quando cheguei da Itália o consultório estava cheio e tinha o último encontro do ano do Mulheres em Círculo, onde fechamos o Ciclo Eros-Psiquê. Foi lindo, emocionante, fechamos com chave de ouro, mas deu um trabalhão… Depois vieram os grupos de estudos, registrar tudo no blog… Agora as coisas estão acalmando.
    Menina, que aventura hein…. Parabéns pela participação no TED.
    Que experiência incrível, não vejo a hora de assistir!
    Pelo que parece agora as coisas estão bem por aí.
    Fico feliz.
    Super beijo

    Resposta

  8. Glaucia
    dez 08, 2012 @ 19:49:49

    Eli, é sempre uma delícia ler o que vc posta, tanto pelas suas experiências inusitadas (vc falando no TED!!!), como a forma como vc conta. Que bom que vc é CDF, que bom que é movida por desafios, que bom que está sempre antenada nos apresentando velhos e novos autores, personagens fictícios e também os reais. beijos, amiga!

    Resposta

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