Vida na Lua

Minha lebre castanha no prado onde ela mora quando não está na Lua

Escrevo um dia depois do meu retorno da Lua, onde estive refugiada por 4 dias com minha mais recente amiga, uma lebre que deveria ser branca, mas acabou ficando marrom-perolado, por uma questão de falta de linha. A Lua é silenciosa e macia, arenosa, mas muito acolhedora, um pouco fria, mas repleta de cobertores e almofadas, inodora, porém não insípida: ela tem um leve sabor de amêndoas. Para quem achar que, agora sim, pirei de vez, vou fornecer algumas explicações que correm o risco de soar ainda mais alucinadas. Como fui parar na Lua, depois de passar uma semana em Buenos Aires, é justamente a história que vou contar aqui. Vamos a ela. No gargalo do ano que ora se encerra, chegam as três tradicionais provações de outubro. Batem na porta, as velhacas que sempre espero que passem direto por mim. Me faço de morta mas, como tias inoportunas, elas acabam dando um jeito de me  fazer uma visitinha. Este ano, elas chegaram no rebote da minha viagem, tal como chegaram de outras vezes, ou seja, depois de uma temporada prazerosa e irresponsável, dessas que a gente acha que nem merece, de tão boas. A primeira foi um herpes na coxa, bem no lugar onde o meu nervo ciático incomoda, às vezes, o que me fez pensar que o dito tinha rebentado ou dado um nó ou apodrecido de vez, tal era a dor que eu sentia. Fiquei encalhada no estaleiro por cinco longos dias consecutivos, logo eu, que tenho bicho-carpinteiro, mato a cobra e mostro o pau, faço em vez de mandar. Primeira etapa da viagem à Lua: lentidão (devido à ausência de gravidade). Quando a perna parou de doer, então a segunda se revelou: uma laringite que me deixou muda feito um criado-mudo em questão de duas horas. Segunda etapa da viagem à Lua: silêncio. E então, quando achei que ia enfim sair da cápsula e retomar a vida na Terra, veio a terceira: uma dor  medonha no coração, que me fez ser atendida em tempo recorde no PS e deixou como rastro uma suspeita de pericardite. Chegada à Lua: um coração ferido. No dia da minha alunissagem, ainda um pouco perturbada com a diferença de fuso, mas tentando colocar os acontecimentos em perspectiva, tirei uma carta no meu tarô diário da Deusa: Chang O, uma distinta e elegante divindade chinesa. Sua carta e meu bordado ilustram este post que escrevo, entre ontem e  hoje, enquanto esperava por meu salvo-conduto, que acabou chegando e me permitindo embarcar de volta à Terra. Esperei, contudo sem esperar: lendo, desenhando, bordando, recebendo amigas, escrevendo, assistindo a filmes ligeiros, tal como fazia a mãe da Scarlet O’Hara antes da guerra civil chegar para estragar suas cortinas. Em resumo: retida no polo passivo-receptivo, para onde  a gente vai à força, se não tem sabedoria para escolhê-lo, quando está precisando dele. Chang O mora na Lua e há duas versões para ela ter escolhido esse domicílio. Uma, muito patriarcal, bem óbvia na sua intenção de caluniar as mulheres, essas intrometidas traiçoeiras incuráveis. A outra, bem feminista, é a que vou contar aqui. Chang O é a guardiã do elixir da imortalidade, que o marido, com ciúmes, tentou surrupiar (rá! isso sim é mudança de paradigma!). Enfurecida, Chang O largou o marido e resolveu ir morar na Lua. De lá, diz-se que ela cuida das mulheres, para que estas não deixem seus maridos roubarem seu poder. Tá bom para vocês? Para não ficar sozinha, Chang O levou consigo uma linda lebre branca. Eu não tinha linha branca na minha caixa de bordado, mas tinha uma linda linha marrom clara, meio perolada, nova em folha, com a qual bordei a nova amiga que passou estes dias preguiçosos e criativos incubando comigo na Lua. Agora que acabo de saber que meu coração está OK de novo, posso soltar minha lebre castanha no prado florido que bordei para ela (suspeito que a lebre seja o meu gato Carlinhos, que me fez muita companhia, porque sabe viver na Lua). Agora toca voltar para a correnteza. Mas vou sentir saudades da Lua, para onde pretendo retornar mais vezes, voluntariamente.

A carta IX: Chang O, Contemplação

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Fabiana
    out 27, 2012 @ 16:20:40

    Que post mais lindo!!!
    Ainda bem que existe o refúgio da lua, a companhia da lebre que pode ter toda e qualquer cor, as amigas e a imortalidade que permanece nas imagens que você borda e escreve.
    Beijos com todo carinho nesse seu coração novinho, novinho!
    Fabi

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  2. Cristiane
    out 28, 2012 @ 00:34:12

    Oi Eli,

    Fico feliz em saber que está melhor, pois já está até postando.
    Foi uma surpresa descobrir seu talento no bordado. Parabéns! Está lindo!
    Adorei.
    Bjs

    Resposta

  3. Teresa
    out 29, 2012 @ 12:42:51

    Melhoras, Eli.
    Adorei seu bordado assim como tudo o que vc faz. Tem alguma área que vc não tenha talento, garota?! Beijos

    Resposta

  4. darci
    nov 02, 2012 @ 00:44:55

    Ontem tive um sonho gostoso e meio doido contigo e como tô sentindo sua falta no fakebook, vim aqui saber que papo era esse de fui à Lua. Bom saber que o tsunami passou! Uma graça o bordado e a Ateneu é mesmo um escândalo! Preciso voltar à BsAs num mes não muito quente, hospedando-me novamente no El Bulin (o puteiro) na Palermo Holywood e depois tomar de novo o buquebus p/ voltar àquela belezinha do outro lado do Rio da Prata chamada Colonia Del Sacramento. É a Paraty do vizinho Uruguai, pais mais progressista da A.Latina . bj grande em ti e no Carlinhos.

    Resposta

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