De novo, Oaxaca

Dançarinas na Guelaguetsa

Na iminência da chegada do dias dos mortos, espero ansiosa a hora de retornar a Oaxaca. A colorida e fervilhante. A misteriosa e solene. A universal e singular. Oaxaca para onde volto de modo a me certificar de que ela existe. Ou continuar duvidando. Minha primeira noite nela, faz mais de dez anos: caminhando pela rua em meio à Guelaguetsa, festival na melhor tradição mexicana, com o catolicismo hispânico, cruel, brutal e avassalador das diferenças sendo devorado por uma centena de micro-religiões, qual uma barata comida por formigas. Cada cultura, uma etnia. Cada etnia, uma língua. E um artesanato particularíssimo, divindades singulares, tradição culinária singular… Oaxaca dos deuses surdos e indiferentes substituídos pelos mortos familiares e atenciosos. Sempre que me lembro dela, é a cidade numa tela de Rodolfo Morales, com cachorrinhos pelados e alados que flutuam no céu, anjos guardiões e guias para o submundo. Rodolfo Morales, muito melhor que Frida Kahlo, um oaxaquenho da gema. Naquela primeira noite, as pedras gastas vibravam com milhares de passos que caminhavam e dançavam, passos de gente carregando bebês, cestos de flores, andores de santos católicos e bonecos gigantes de personagens mitológicos, gente cantando e tocando em bandas típicas e grupos folclóricos, tudo misturado numa cacofonia deslumbrante. Podiam ser turistas como nós, atordoados com aquela beleza violenta. Podiam ser autóctones em fluxo, vestidos para ver Deus ou os deuses (literalmente), ricos e pobres, crianças e adultos misturados numa procissão de procissões que entupia os becos e se derramava nas praças, para desembocar, de repente, no zócalo com seus amplos canteiros de agave, geometricamente arranjados diante da imponente catedral de San Domingo. Éramos levas de peregrinos movidos por uma energia que nos chegava de “debaixo do barro do chão”.  A Guelaguetsa, me explicava, no dia seguinte, um distinto senhor zapoteca que vendia lindos bordados no mercado, é um jeito de reunir todos as etnias que compartilham o território da extensa província de Oaxaca (cuja capital se chama Oaxaca de Juarez) na arena das culturas, onde os muitos povos oaxaquenhos exibem o melhor de sua riqueza: o canto, a dança, os trajes, os rituais, os passos e ritmos, os velhos que passam aos jovens e mostram ao mundo o próprio legado ancestral.

,Altar enfeitado para a festa do dia dos mortos

Pela terceira vez vou voltar a Oaxaca. E desta vez volto para viver a festa, a protagonista. É a ela que prestarei homenagem. É a ela que quero dedicar meu tempo e meu espaço. Seremos nove mulheres em Oaxaca entretidas em viver a cidade e sua mística incomparável. Iremos ao Xoxo, o cemitério engalanado, animado por Catrinas e mariaches. Quero ver as tumbas arranjadas com oferendas de comida e bebida, enfeitadas com guirlandas de dálias amarelas e repolhudos cravos vermelhos. Essas tumbas serão, por algumas noites, as mesas onde famílias irão se reunir para jantar à luz de milhares de velas. Vamos provar o chocolate denso e negro, rústico e delicioso, diluído em água fervente, e que mudou muito pouco desde que foi oferecido pela primeira vez pelo aturdido Moctezuma ao confiante Hernan Cortez. Vamos comer, nas barraquinhas de rua, flores empanadas de alcabaza e talhos de frutas salpicados com chili… Quem sabe se retornaremos a Mitla e Monte Albán, onde deuses continuam a perambular. Já reservamos uma mesa no Los Danzantes, onde o teto é o céu estrelado e a margarita é a melhor entre as melhores. Na saída, meio altas, vamos comprar buquês de jasmins das floristas da rua, para deixar perfumando os quartos do hotel. Vamos perambular no mercado central e comprar bandeirolas, pimentas, mescal, oferendas, alebrijes, lindas e estranhas miudezas. Havemos de acompanhar o desfile das coloridas senhoritas de tranças, com imensos cestos de flores equilibrados na cabeça e a bandinha estúrdia atrás, desafinada e estridente. Com sorte, veremos burricos pastando o mato que cresce nas sarjetas. Vamos beber xotes de mescal alternados com sal de chapulines na casa de Miguel Ángel, diante de altar de muertos da família dele. Vamos sair (sim, vamos perder nosso precioso tempo!!!!) numa animada comparsa, de preferência fantasiadas e maquiadas para a ocasião. Oaxaca foi e continua a ser uma dessas experiências urbanas intraduzíveis, retidas no lugar da memória onde se guardam as recordações em movimento, que disparam dentro de nós como se fossem filmes antigos.  De tão vívidas, elas nunca se fixam completamente, nunca viram souvenires, são irredutíveis aos relatos, às fotos, às redes sociais. Nessa mesma gaveta também guardei Delfos, para onde também hei de voltar com igual intenção de lhe conferir a existência, porém insegura de que isso seja, afinal, possível, ou mesmo desejável. Da última vez que fui a Oaxaca, a produtividade do evento me impediu de desfrutá-la com a devida reverência e alegria. Não cometerei mais esse equívoco.

A serpente emplumada Quetzacoatl. em madeira pintada

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Lourdinha Heredia
    out 29, 2012 @ 17:00:54

    Ai, como eu queria estar na frente dessa igreja e desfrutando dessas delícias! Quanta cor, sabor, perfume!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Quanta cor, sabor, perfume na sua narrativa, Eli. Show de bola total!!!!!!!!!!!!!!! Transporte!!!!!!!!!!
    Também dei uma viajadinha até a lua no seu relato. Como é que uma pessoa consegue trasnformar tudo em poesia, até a estadia no hospital?????????????????

    Responder

  2. Lourdinha Heredia
    out 07, 2013 @ 15:45:08

    Ui !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Ainda bem que estou indo para Oaxaca com você!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Que show de luz e cor e sabor e tudo mais!

    Responder

  3. Fabiana
    out 11, 2013 @ 18:14:14

    Que presente viver Oaxaca com vocês!!!!
    Beijos na alegria da espera…
    Fabi

    Responder

  4. elianaatihe
    out 19, 2017 @ 08:38:10

    Republicou isso em Mulher-Esqueleto.

    Responder

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