Oaxaca

Dançarinas na Guelaguetsa

Na iminência da chegada do dias dos mortos, costumo me lembrar de Oaxaca. Oaxaca colorida e efervescente. Oaxaca misteriosa e solene. Oaxaca para onde algum dia ainda vou voltar, nem que seja só para me certificar de que ela existe. Ou para continuar duvidando. Ontem à noite, me lembrei de minha primeira noite em Oaxaca, caminhando pela rua em meio à Guelaguetsa, uma festa antiga e pagã, ou melhor, sincrética na melhor tradição mexicana, em que o catolicismo hispânico, cruel, brutal e avassalador das diferenças, acabou sendo canibalizado por uma centena de microculturas, cada uma delas fruto de uma diferente etnia que fala uma língua singular, cria um artesanato singular, adora divindades singulares, tem uma tradição culinária singular… Ainda não tenho certeza de ter vivido essa experiência porque, sempre que me lembro dela, Oaxaca aparece em meio a uma névoa de sonho, uma cidade numa tela de Rodolfo Morales, que só podia ser oaxaquenho. Naquela primeira noite, os paralelepípedos gastos das velhas ruas vibravam com milhares de pessoas que caminhavam e dançavam, carregavam andores de santos católicos e bonecos gigantes de personagens lendários, cantavam e tocavam nas bandas típicas e nos grupos folclóricos, comiam flores de alcabaza empanadas, pedaços de abacaxi salpicados de chili vermelho e canudinhos de papel recheados de chapulines (grilinhos torrados) … Eram turistas como nós, atordoados de uma tal beleza transgressiva dos cânones , eram autóctones em fluxo, as famílias inteiras vestidas para ver Deus (literalmente). Eram ricos e pobres misturados numa espécie de procissão de procissões que entupia os becos e se derramava nas praças, para desembocar, de repente, no grande zócalo com seus amplos canteiros de agave, arranjados diante da imponente catedral. Eram levas de peregrinos movidos por  “uma sustança sustentada por um sopro divino”, como canta o Gil, mas que não vinha do céu: vinha “debaixo do barro do chão”.  A Guelaguetsa, me explicava, no dia seguinte, um distinto senhor zapoteca que vendia lindos bordados no mercado, é um jeito de reunir todos as etnias que compartilham o território da extensa província de Oaxaca (cuja capital se chama Oaxaca de Juarez) na arena das culturas,  onde os muitos povos oaxaquenhos competem entre si exibindo o melhor de sua riqueza: o canto, a dança, os trajes deslumbrantes, os rituais, os passos e ritmos, os jovens que passam adiante o próprio legado ancestral.

Altar enfeitado para a festa do dia dos mortos

Amigos que estiveram lá na época do dia dos mortos, me contam que, em Oaxaca, essa festa é mesmo do grande caralho. Vou voltar para conferir se Oaxaca existe perto desse feriado tão mexicano. Quero ir ao cemitério engalanado, cheio de gente, de mariaches, de oferendas de comida e bebida, onde milhares de velas acesas alumiam túmulos enfeitados com guirlandas de dálias amarelas. Quero rever os voladores e seu improvável balé suspenso no pálio, de cabeça para baixo. Quero tornar a provar o chocolate denso e negro, rústico e delicioso, feito a base de água, e que mudou muito pouco desde que foi oferecido pela primeira vez pelo aturdido Moctezuma ao confiante Hernan Cortez. Quero comer, nas barraquinhas das vendedoras de rua, aqueles deliciosos canoles crocantes, enchilladas de recheios variados, caules de copal cozido, huevos rancheros… Quero retornar a Mitla e a Monte Albán, com suas ruínas fabulosas, onde deuses ferozes, que toparam com um deus igualmente feroz, continuam a perambular, aturdidos com a derrota que sofreram. Quero ir ao restaurante Los Danzantes à noite, onde o teto é o céu estrelado, o perfume dos jasmins satura o ambiente e a margarita é a melhor entre as melhores. Quero também comprar um buquezinho de jasmins das floristas com suas grande cestas fragrantes. Quero voltar à Mitla dos burricos que pastam o capim da sarjeta, e me sentar na grande sala fresca e cheirosa da casa-restaurante das três irmãs zapotecas, agradáveis senhoras gorditas, de longas tranças entrelaçadas com fitas de cetim, maravilhosas anfitriãs e cozinheiras. Lá vou beber um xote de tequila com gusano, intercalado com pitadinhas de sal temperado com chapulines secos moídos. Depois vou me acabar de comer flores de abóbora empanadas e feijão com carne e chili enrolado em tortillas macias e quentinhas. Oaxaca foi uma dessas experiências intraduzíveis, retidas num lugar da memória onde se guardam as recordações em movimento. De tão impactantes e vívidas, elas nunca se fixam completamente, nunca viram souvenires, são irredutíveis aos relatos, às fotos e aos filmes. Nesse meu compartimento também guardei Delfos, para onde voltarei com a mesma intenção de lhe conferir a existência, porém insegura de que isso seja, afinal, possível.

A serpente emplumada Quetzacoatl. em madeira pintada

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Lourdinha Heredia
    out 29, 2012 @ 17:00:54

    Ai, como eu queria estar na frente dessa igreja e desfrutando dessas delícias! Quanta cor, sabor, perfume!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Quanta cor, sabor, perfume na sua narrativa, Eli. Show de bola total!!!!!!!!!!!!!!! Transporte!!!!!!!!!!
    Também dei uma viajadinha até a lua no seu relato. Como é que uma pessoa consegue trasnformar tudo em poesia, até a estadia no hospital?????????????????

    Responder

  2. Lourdinha Heredia
    out 07, 2013 @ 15:45:08

    Ui !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Ainda bem que estou indo para Oaxaca com você!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Que show de luz e cor e sabor e tudo mais!

    Responder

  3. Fabiana
    out 11, 2013 @ 18:14:14

    Que presente viver Oaxaca com vocês!!!!
    Beijos na alegria da espera…
    Fabi

    Responder

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