Minha milonga (parte 2)

El Ateneo, um templo das ficções que curam

NA CATEDRAL

Se o espaço onde funcionaram, num passado glorioso, o teatro, o cinema e a rádio Gran Splendid estivesse localizado numa grande cidade do Brasil, talvez já tivesse virado uma igreja evangélica. Como está em Buenos Aires, cujos fundamentalismos limitam-se a peronismo e futebol, o lugar salvou-se desse ingrato destino. A editora El Ateneo alugou o prédio magnífico e o transformou na segunda livraria mais linda do mundo, de acordo com o ranking do jornal britânico The Guardian. Para mim, a mais linda de todas, mesmo porque não conheço a campeã, ironicamente instalada numa antiga igreja, na cidade holandesa de Maastricht. A Gran Esplendid El Ateneo transformou-se numa espécie de catedral, plantada em meio ao frenesi de gente da avenida Santa Fé. Para lá seguem peregrinos devotos dos livros que, como eu, estão de passagem pela cidade. Fui numa terça feira de manhã e a Gran Splendid estava cheia de leitores e afins esparramados nas poltronas e sofás, xeretando as estantes sem serem incomodados por vendedores pressurosos, tomando café com jornal e medialunas no palco (onde está instalado o salão de chá agradabilíssimo). Tudo em meio àquela serenidade concentrada que a presença dos livros mobiliza e que costuma impor uma certa compostura às pessoas que, por exemplo, acham normal gritar ao celular. Uma livraria também é um templo a seu modo, e na Gran Splendid isso fica claro. Um templo mais profano do que uma biblioteca, concordo, esse modelo atemporal de comunismo bem sucedido (o único que conheço, aliás). Circulando sem pressa, como quem adia mais um pouco a experiência de estar presente nesse lugar, prossigo entre as frisas onde os espectadores foram substituídos pelos livros tentadores e silenciosos. Então a divindade deles, seja qual for, me concede a graça de encontrar o amigo literário da temporada. Escondido sob a capa modesta de uma edição popular, colocado bem ao lado do caixa, como se fosse uma espécie de encalhe, ele pisca para mim, entre molesquines e vales-presente.

Uma pequena jóia modesta: “Cuentos de mujeres por mujeres”

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Cristiane
    out 19, 2012 @ 20:38:53

    Oi Eli,
    Não conheço Buenos Aires, mas com uma livraria dessas….. já estou me imaginando lá.
    Concordo com você: bibliotecas e livrarias são templos, e as bibliotecas também têm um apelo mais sagrado para mim.
    Bjs

    Responder

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