Minha milonga (Parte 1)

Em Palermo Soho, arco-íris na garoa

Analú Lacombe me mandou trechos do diário portenho do irmão dela, como uma espécie de preparação para minha visita a Buenos Aires, na semana passada. Afinal meu imaginário da cidade tinha contra si um hiato de pelo menos dez anos. E dez anos passam rápido e mudam tudo, minha cintura que o diga! Então ainda ontem, na minha recordação de brasileira que detesta futebol, Buenos Aires era a cidade charmosa, uma Paris latino-americana, boêmia, de avenidas largas e calçadas feitas para caminhar, cenário de tantos filmes que adoro (melhor ainda se estrelados por Ricardo Darín), das livrarias movimentadas e dos machos que se beijam efusivamente ao se encontrarem na rua, a metrópole bailadeira dos velhinhos elegantes e das senhoras almodovarianas, onde vi, pela primeira vez na vida, passeadores de cachorros conduzindo suas matilhas. Para rasurar delicadamente essa imagem, decerto nublada pelas boas lembranças, assisti recentemente a dois filmes argentinos: “Medianeiras” e “Abutres”, o primeiro, melancólico e claustrofóbico, e o segundo, definitivamente punk (recomendo vivamente os dois, como dizia o pastor da igreja da minha infância). O irmão da Analú é um flaneur olho-vivo, cheio de verve  e com um senso de humor trágico, por sinal muy porteño. Ele me  preparou para o pior, em termos poéticos, digamos assim, diferentemente da colega italiana do pilates que, sendo italiana, tende a julgar tudo com muito rigor (à exceção dela mesma, claro, mas isso não é defeito, é traço étnico). Viajei na maionese ácida do irmão da Analú e calculei os noves fora da italiana demolidora, sem me esquecer que os argentinos devem ao sangue italiano grande boa parte de seu encanto e do mau gênio que o fertiliza. Cheguei no sábado e vou, na cola do irmão da Analú, reproduzir aqui o meu diário portenho, minha milonga de glorieta em defesa de Buenos Aires, tão bela e decadente quanto deve ser uma cidade que vale a viagem. E como vale.

Conversadeiras rojas do Sans, na Plaza Julio Cortazar

GAROA PORTEÑA

Fim de tarde de domingo em Buenos Aires. Saímos de Sampa em meio a um calor estapafúrdio, mas nossa anfitriã nos recebeu com garoa e um delicioso friozinho  à paulista. Vai entender. O motorista do hotel que nos apanha no aeroporto é um gentleman porteño da melhor cepa, bem informado, politizado, muy amabile, enfim, como dizem eles por lá. Damos corda só para ouvir aquela delícia do melopeia (e o vos que substitui usted, uma graça). Ganhamos em troca uma enfiada de dicas de restaurantes, shows e passeios. Seu Osvaldo sabe tudo porque conversa muito com os clientes.  Acha os paulistanos os mais elegantes entre os brasileiros que colonizam sua cidade. Chegamos ao hotel e a Recoleta continua a mesma, gracias a Dios. Se esse barrio for o último refúgio portenho para turistas, uma ilha entre barricadas de lixo, hordas de peronistas descompensados e quadrilhas de gauchos da frontera completamente borrachos, já estou mais que contenta.

Suplicante no cemitério de La Recoleta

GLORIETA NA RECOLETA

O articulista da revista de turismo traduziu glorieta como coreto. E indicou as tais milongas da glorieta que fica em Barrancas de Belgrano como “o lugar” para ver bailarinos amadores dançando o genuíno tango para si mesmos, não para os turistas, ao custo de duas corridas de taxi, ida-e-volta. Testemunhamos esse fenômeno lá em Puebla, no México, onde o povo vai à glorieta aos domingos somente para passear e dançar, as mulheres arrumadíssimas, os homens  esbanjando charme viril, uma cena de vida urbana intensa, colorida, calorosa de que nunca me esquecerei. E como dançam, como rodopiam música após música, ao som da orquestra ao vivo, os casais sem idade, os velhos com suas camisas guaiaberas imaculadas, muito mais experientes do que os jovens nos passos complicados, dando um espetáculo de graça e leveza que vence o tempo e a artrite. Eu, que tinha visto a salsa na glorieta de Puebla, agora queria ver o tango em Belgrano. Mas garoava e a gente não conseguia descobrir se as milongas, além de animadas, também eram impermeáveis. Acabamos nos acovardando e trocando as Barrancas  pelas ruas da Recoleta, prateadas de garoa. As  milongas ficaram para a próxima, que não vai demorar outros dez anos.

Um jardim secreto em Palermo

BAGAGEM LITERÁRIA

Tenho o costume de chegar numa cidade e já comprar um livro, se possível, de um autor nativo, escrito na língua mãe dele. Claro que não fiz isso em Praga, Budapeste e Amsterdam, mas em Buenos Aires, conto os minutos para começar minha viagem dentro da viagem. Em Palermo Soho, na segunda-feira que prossegue garoenta, um feriado ignoto que ninguém sabe explicar o que comemora, a livraria Prometheo é a primeira loja a abrir. Entro e circulo entre as bancadas e estantes, farejando um companheiro de papel para minha temporada porteña. Tudo me atrai, o que significa que nada me captura. Me disperso na loja anexa, a Miles, onde um balconista sisudo, especializado e metódico vende CDs, LPs e DVDs. A Miles tem uma exposição de vinis de MPB onde Baby Consuelo, Simone, Gonzaguinha e Fagner, entre outros, desfilam seus penteados eriçados e suas roupas muticoloridas, para minha diversão nostálgica de quem testemunhou e usou a horrenda moda dos anos 1980. Acabo sendo capturada pela música e me esqueço da literatura. Saio com Kevin Johansen e Jorge Drexler metidos na sacola, direto para a movimentação da praça Julio Cortazar, onde se monta, entre intermináveis negociações dos barraqueiros literais, a deliciosa feirinha de moda e design domingueira, cuja reprise se deve ao tal feriado, salve ele, seja qual for o santo! As ruas de Palermo estão sujas, há lixo acumulado em torno de conteineres abarrotados, revoadas de moscas remetem a uma cidade do Sudão. Tudo isso, porém, só faz contrastar com as lindas lojinhas, as micro-boutiques charmosas, as vitrinas encantadoras, os bistrozinhos instalados nas casas antigas, as surpresas, os bequinhos, os mercadinhos de orgânicos, enfim, os mil encantamentos do consumo local. Nesse dia, quase perdoei Sua Majestade, a Rainha Doña Cristina, pelos embargos impostos às importações, que estão obrigando as grandes marcas globais a fecharem suas lojas nas vizinhanças mais chiques da cidade. Seria ingênuo demais pensar que as marquinhas singulares de Palermo Soho ocupariam o espaço deixado por Ralph Lauren e Salvatore Ferragamo, que a Rainha Doña Cristina certamente usa e provavelmente compra direto em Paris, para desfrute das massas peronistas que deveriam se chamar “peruístas”, já que envolvem uma devoção especial a megaperuas. A Rainha Doña Cristina cumpre sua missão de Evita 2.0, vira queridinha do ogro Chavez e o povo ulula diante de seus ouros tilintantes e repuxos embotocados. Ainda assim, me dou ao desfrute de fluir na fantasia de filiais das lojinhas de Palermo abrindo na Alvear, enquanto flano, turista muito leve, pelas ruas do velho bairro jovem de B.A.. Penso: sendo Borges um esnobe pomposo, aprovaria ele essa feira instalada justamente na saída da rua com seu nome ? Provavelmente não. Mas, como já demoliram a casa onde ele viveu com sua formidável mamãe, aqui em Palermo, seu fantasma deve estar arrastando correntes pelo cemitério da Recoleta ou jejuando trancado num armário embutido da casa da Maria Kodama. Por falar nela, a segunda japonesa mais odiada do Ocidente (depois de Yoko Ono), saiu uma entrevista no Clarin em que a aluna-esposa-empresária-leoa-de-chácara de Borges empastela o recém-publicado diário de Adolfo Bioy-Casares, amigo do escritor e que o descreve como o esnobe pomposo que ele realmente foi, à parte sua obra maravilhosa. Na entrevista, Kodama afirma que Borges é dela, sempre foi dela e sempre será, até o dia do juízo-final. Dizem que os japoneses são fissurados por tango e parece que a incendiária paixão latina contaminou o mood original da Kodama, mais composto e objetivo. Eu, por outro lado, não tenho a menor vontade  de ler o diário de dandy de Bioy e continuo procurando por meu livro. Do CD do Kevin, o divertido Sur no sur, a canção Puerto Madero já virou minha trilha sonora da viagem, em especial quando ele canta que “todo mundo que chega aqui quer ficar, todo mundo que mora aqui quer se mandar”(tradução  minha).

O descanso de Prometheo

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. darci
    out 17, 2012 @ 21:11:37

    Gostei muito de Medianeras. Abutre tem sangue demais pro meu gosto e aquela maravilha do Ricardo Darin. Tem um filme novo em que ele faz um padre chamado Elefante Branco. Eu vou virar beata!

    Resposta

  2. Lourdinha Heredia
    out 18, 2012 @ 18:32:02

    Eli, minha frô, você enfeitiça as palavras, só pode ser isso! Como você sabe brincar com elas para criar significados mais ricos, mais coloridos, mais divertidos, mais tudo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Resposta

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