Floradas tardias

Algum escrevinhador ignoto de minirresenhas de cinema descreveu, numa revista da semana passada, que não sei e não quero saber qual é, o filme “O exótico hotel Marigold”, em cartaz na cidade, como um “Comer, rezar, amar” para velhos. O preconceito contra os velhos, ainda que estejamos todos a caminho de sê-lo mais cedo ou mais tarde, fica patente num comentário desse tipo, de alguém que está morrendo de medo de ficar velho, se trai no discurso e reage matando o mensageiro. Um excelente mensageiro, por sinal. O medo mal disfarçado, expresso por um desdém tão sintético e ácido, pode comprometer a trajetória de um filme que cai feito bálsamo refrescante no panorama de nossa cultura da juventude encruada, do botão congelado impedido de desabrochar. Bonito, bem dirigido, profundo, despretensioso, com bom roteiro, estrelado por atores, quase todos decanos, um melhor do que o outro, “O exótico hotel Marigold” não merecia que esse pentelho o tivesse contaminado com sua opinião mal formada, arrogante e defensiva. Como muitos leitores da tal revista também sofrem de medo pânico de ficar velho, logo se puseram em guarda contra o filme (Um filme romântico de velhos? Argh!). Então vamos começar aqui desfazendo esse mal entendido, mesmo porque um cara que diz uma besteira dessas não entendeu porra nenhuma do filme. Para começar, “Comer, rezar, amar” é ruim pra caramba, pelo menos na opinião de quem leu o livro, como eu. “O exótico hotel Marigold”, ao contrário, é muito bom, mas simples, linear, destituído de exercícios estéticos e filosóficos. Ele se propõe a contar (e conta muito bem) uma bela história de morte e renascimento, num momento da vida em que a morte literal parece ser a única próxima alternativa. Em segundo lugar, as duas histórias têm em comum apenas uma parte do cenário (a Índia) e um grupo de pessoas que, surpreendidos por crises em meio à aposentadoria, são praticamente forçadas a mudar (também de lugar) e acabam fazendo algumas descobertas interessantes, numa época da vida em que se espera que não haja mais espaço e tempo para fazer descobertas. Inúmeros filmes abordam o tema das passagens e transformações da vida adulta mas, como não se passam na Índia, escaparam da constrangedora confusão mental do minirresenhista. Eu, porém, não pretendo contar mais nada. Sim, os dois filmes falam das tais floradas tardias, mas “O exótico hotel Marigold”, entre outras coisas, abre mão dos pancakes e sessões de botox. Afinal é um filme inglês, o que faz toda a diferença. Quero apenas reiterar que um filme com Judy Dench, Maggie Smith, Tom Wilkinson e outras feras mereceria ser visto, ainda que fosse um mero “Comer, rezar, amar” para velhos, o que está longe de acontecer. Então delete o que leu na tal revista, vá ver o filme e forme você sua opinião. Pode ir sem medo de ficar com medo. Aberto, você acabará fazendo suas próprias descobertas.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Darci Lopes
    jun 05, 2012 @ 19:23:09

    Perfeito Eli. Concordo em gênero, número e grau. O babaquinha não entendeu nada mesmo. E é assim que somos vistos pela maioria dos debiloides giovanotos…Tinha de haver um protesto nacional contra a não aceitação de que a juventude tem cura prá todos, vivendo mau ou não. bjs

    Resposta

  2. Lourdinha Heredia
    jun 19, 2012 @ 11:13:27

    Matou a pau, Eli. O filme é realmente ótimo!

    Resposta

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