Senhor da Dança

Shiva

Conheço um físico, o Edu, que trabalha no acelerador de partículas do CERN (European Organization for Nuclear Research), na fronteira da Suíça com a França. Outro dia, ele me contou que o acelerador é muito parecido com aquela imagem clássica de Shiva, o deus da trimurte indiana responsável pela dissolução das formas da realidade. Shiva é parceiro do Brahma, o Criador, e de Vishnu, o Mantenedor. Se Shiva não faz sua parte, Brahma e Vishnu não dão conta de fazer as deles. Pelo que entendi, conversando com o Edu, cada vez mais a ciência confirma a metáfora do mito. O chavão “nada se cria, tudo se transforma” de Lavoisier já era porque, segundo ele, na dimensão incomensurável das partículas, tudo se destrói para virar nada e tudo se cria a partir do nada. A função de Shiva é demolir as formas vazias e esclerosadas, deixando assim o terreno limpo para as formas futuras. Nesse sentido, a energia que ele representa é muito parecida com a do Dioniso grego (que os gregos consideravam um deus estrangeiro), o padroeiro das metamorfoses. Ambos intervêm na realidade para suprimir aquilo que já perdeu o significado, abrindo espaço para que o novo possa nascer. Há quem diga até que Dioniso foi criado à imagem e semelhança de Shiva. No início, uma divindade andrógina, originária do noroeste da Índia, onde vicejava a cultura dravidiana, de agricultores sedentários e devotos de uma religião ginecolátrica, Shiva foi posteriormente  assimilado pelos agressivos conquistadores árias, guerreiros que o adaptaram a sua própria religião patriarcal.  Além de Dioniso, Jesus Cristo, com sua pregação transgressiva do status quo e confrontadora da hipocrisia da religião oficial, está alinhado com Shiva. Não custa lembrar aqui de suas provocações aos “sepulcros caiados”, como ele chamava os sacerdotes, ou de seu magnífico “piti” contra a transformação do templo de Jerusalém num shopping multimarcas. É claro que Cristo e sua mensagem demolidora também foram devidamente assimilados e desfigurados para legitimar os mais podres poderes, mas OK, esse não é nosso tema aqui. Fato é que ele emerge do mesmo arquétipo de que se originam Dioniso e Shiva: o do destruidor das formas esgotadas, ressequidas, estéreis. Essa imagem criativa no sentido amplo, simultaneamente negativa e positiva, aparece devidamente eufemizada para nosso limitado bico, até porque, para engolir os aspectos mais indigestos da vida, só mesmo tomando umas metáforas. Na representação clássica de Shiva, o destruidor é também o senhor da dança cósmica, lindamente instalado em meio a um círculo enfeitado por pequenas línguas de fogo, muito semelhantes, salvo engano meu, aos prótons no acelerador. Equilibrado numa postura tão complicada quanto natural para o iogue que é, Shiva mantém um pé erguido no ar e o outro, apoiado sobre o dorso de um sujeito estatelado, que representa, no entender do Edu, os cientistas, no meu, o mundo material, e, em última instância, todos nós. Seus quatro braços modulam-se em gestos delicados e expressivos, formando uma postura de odissi, aquela maravilhosa dança indiana tradicional. Duas de suas mãos seguram, cada uma, um objeto, e tocam os limites da roda, dos dois lados. Vejam que não se trata de um brucutu que sai dando porrada por aí, desbaratando os infiéis e os descrentes. Crentes e fiéis são parte da realidade que precisa ser destruída por Shiva e sua dança, segundo os Vedas, tende a se tornar cada vez mais acelerada nesta nossa Idade do Ferro, a Kali Yuga, marcada pela velocidade, o materialismo, a degradação objetiva e subjetiva da realidade. Minha descrição de Shiva baseia-se numa estatueta dele que mora aqui em casa. Coloco-a ao lado do meu MAC e gosto da composição. Na mão direita, ele segura uma urna (de cinzas?) e na outra, uma língua de fogo. Se você souber mais sobre esses objetos misteriosos, pode me ajudar a desvendá-los, por favor. As outras duas mãos movem-se em direções opostas, descrevendo um gesto que sintetiza a dualidade essencial de nosso mundo: uma aponta o céu e outra, a terra. Seu quadril ondula graciosamente, talvez recordando o tempo em que seu corpo ainda era andrógino. Em tudo, ele lembra mesmo uma concentrada dançarina de odissi. Um magnífico cocar de línguas de fogo rodeia sua cabeça. Na minha estatueta, as pontas de uma faixa apertada em torno de sua cintura estendem-se para tocar os dois lados do círculo que envolve sua figura. Shiva é paradoxal: ao mesmo tempo, um deus apaixonado e sensual, e um asceta. No hinduísmo, isso não é um problema. Edu me contou que o governo indiano presenteou o CERN com uma estátua enorme de Shiva. Se você achou que os cientistas a guardaram no porão, debaixo de um lençol, enganou-se. Segundo o Edu, ela ocupa uma posição de destaque, num hall onde todos passam, diante de uma grande porta que dá para um jardim. Assim, a luz natural o ilumina por trás, intensamente. À noite, a luz das lâmpadas projeta a sombra de Shiva sobre a parede do prédio do laboratório. E o símbolo está constelado: Shiva e o acelerador de partículas são duas metades completamente diversas da mesma realidade. Opostas e complementares, porque uma não é capaz de fazer o que a outra faz. Os cientistas do CERN parecem ter, de algum modo, entendido isso. Melhor para eles. Se eu pudesse, daria uma modesta e nada original sugestão aos poderosos devotos de Santo Estevão Trabalhos (a tradução do meu filho para “Steve Jobs”) que inventaram a tal Universidade da Singularidade, no Vale do Silício. Instalem um Shiva três vezes maior do que o do CERN (para ganhar dos europeus, é claro) num espaço de destaque da sua instituição. Seria uma tentativa de moderar, ainda que somente pela intervenção da imagem, tanta megalomania. Afinal a gente sabe que o ego só precisa de ar para ficar enorme. E Shiva só precisa de  um alfinete para transformar esse bonecão inflado e vazio em pó.

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9 Comentários (+adicionar seu?)

  1. anale
    maio 11, 2012 @ 10:07:25

    Ôba, além do show delicioso de ontem à noite, degustei este texto em meu café da manhã. Eli, pensei em propor pra você editar um livro sobre seu blog. Beijos…

    Resposta

  2. Fabiana
    maio 12, 2012 @ 12:10:11

    Amei a proposta do livro… Manda ver, Eli!!
    Beijos,
    Fabi

    Resposta

  3. claudia
    maio 13, 2012 @ 12:26:20

    Uma vez, num almoço de família, fiz a grande bobagem de citar o tal “piti” que Jesus teve na feirinha do templo (inclusive usei esse termo – piti). Quase apanhei. Ótimo texto! E grande aula!

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  4. Lourdinha
    maio 14, 2012 @ 21:37:45

    Delicioso, Eli. Seu senso de humor esta cada vez mais afiado!

    Resposta

  5. Lourdinha
    maio 14, 2012 @ 21:40:16

    Delicioso, Eli. Seu senso de humor esta cada vez mais afiado!
    Lourdinha

    Resposta

  6. Eduardo Darshi
    jun 05, 2012 @ 18:59:04

    Eliana: Hoje recebi seu texto de Shiva de uma amiga. Adorei os paralelos ! ! !
    Gostei tanto que vim conhecer seu blog. Entretanto há um pequeno equívoco que, justamente pela qualidade do texto, merece ser apontado: A estatueta mais antiga de Shiva, que é inclusive apelidada de proto-shiva, foi encontrata nas escavações das cidades Dravidianas de Mohenjo Daro e Harapa. Acontece que essas cidades, assim como a cultura Dravidiana se encontram na região noroeste da India, onde hoje está o Paquistão e não no sul como apontado no texto. Alguns autores menos atentos mencionam a respeito dessa cultura no sul pelo fato de, ao serem invadidos pelos Arianos, eles terem começo fugir para o sul e, assim, os últimos resquícios deles estarem no sul. Por exemplo: Se você vai na India hoje, os indianos de pele mais escura que são os decendentes mais diretos dos autóctones estão no sul, mas já é pacífico que isso ocorre pelo que foi mencionado acima.
    Desculpe a intromissão. Espero que seja bem recebida.
    Obrigado

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  7. Eduardo Darshi
    jun 06, 2012 @ 20:38:44

    Obrigado pela receptividade, assim vou acabar viciado em entrar todo dia aqui. Já que você está me dando corda…… O objeto que o Senhor da Dança segura na mão direita é justamente um pequeno tambor em formato quase de uma ampulieta. É um instrumento muito comum até hoje entre os músicos e dançarinos tradicionais indianos. Esse tambor é tocado girando o punho e, com ele, Shiva está marcando o rítmo da própria dança e consequentemente do universo. Legal né?
    Ah, ia esquecendo; para mim o “sujeito estatelado” representa a ilusão, a ignorância.

    Resposta

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