Bipolar 1

Bipolares somos todos, vamos combinar. Quer um exemplo que emudece os contra-argumentos? Dois hemisférios cerebrais, lobo esquerdo e direito, com funções e atributos opostos-complementares e um corpo caloso instalado entre ambos, fazendo as mediações para que a gente funcione como a totalidade dual que de fato somos, melhor ainda: uma unidade múltipla (a unitas multiplex, de Edgar Morin). Ninguém ensina isso na escola, claro, a menos que você faça algum curso que tenha anatomia entre as disciplinas, mas daí que seu aprendizado ficará limitado pelo reducionismo científico, que se contenta em escarafunchar o hardware. É muito pouco. Quase nada. A igreja ensina o contrário disso: afirme um lado, renegue o outro e vá para o céu (a metade renegada, claro, segue direto para o inferno). As mídias em geral apenas usam essa complexidade para nos condicionar a escolher certos produtos na gôndola. Mas o fato é que somos bipolares por natureza e isso é ótimo, ou deveria ser. Às vezes, porém, travamos num polo, por exemplo, o da euforia, que está super na moda. Na nossa cultura de aparência, ninguém quer deprimir. É preciso parecer sociável-animado-produtivo-jovial-inspirado 100% do tempo. Tanta mania, contudo, se não receber o tempero calibrador de uma saudável depressão, pode evoluir num crescente, até se tornar compulsão: pelo prazer, a boa forma, a assertividade (que palavra mais babaca!), o sucesso, o poder, a inspiração… Ninguém quer ser looser, muito embora todo mundo o seja, de algum modo, em alguma dimensão da vida, mesmo que a mais secreta. Com o botão do ego “encantado”  na posição EUFORIA,  uma vasta sombra expande-se às nossas costas, um subproduto do brilho da imagem que esse ego quer projetar  no mundo. Desse modo, a DISFORIA, tão necessária para nos moderar em meio à complexa experiência de viver, é pretensamente descartada por esse ego que se quer triunfante em tempo integral. Ao negar uma das metades de nossa integridade psíquica inata, contudo, ele a transforma, inadvertidamente, numa célula terrorista. Sem possibilidade de alternar mania e depressão, de combinar uma e outra, de fluir ao sabor das modulações de um corpo caloso eficiente e eficaz, a depressão sombria subjuga esse ego que não sabe desacelerar, que é incapaz de introverter, refletir, escutar, entristecer, regredir, devanear, entregar-se. Seco, defensivo e impermeável como é, ele terá de submergir e, muitas vezes, até mesmo de se dissolver na diferença, antes de encontrar outra forma para si. Uma espécie de colateral ou fogo amigo, como diriam os senhores da guerra.O polo reprimido arrebentou a comporta precária que separava dois estados emocionais indissociáveis, conquanto diversos. Inundados por uma depressão que é, essa sim, doentia, costumamos responsabilizar os outros por um processo psíquico que deveria ser vivido como nosso, pois se trata, ao fim e ao fundo, de um acerto de contas, amargo porque indefinidamente adiado, do jogador  mantido à margem do jogo por aquele que deveria ter agido como seu parceiro. Por outro lado, há também os que parecem transitar com mais desenvoltura entre os polos, ou melhor ainda, os que conseguem, não sem grande esforço, promover encontros, debates, colóquios e, sempre que possível, apaixonadas cópulas entre parâmetros que, além de competitivos, são também cooperativos. Na opinião auto-complacente do nosso eguinho se-achão, tendemos a acreditar que pertencemos, todos, à segunda categoria. Ledo engano. O tempo e a experiência nos trarão, se o permitirmos, a consciência de que não pertencemos. Mas de que também pertencemos. No contexto da nossa cultura dualista e heróica, temerosa e excludente da diferença, a competência para transitar, com elegância e flexibilidade, entre os opostos é um desafio nada básico, que exige a prática diária da alteridade, ou seja, da integração daquilo que, por natureza, não somos. Criativo, disse Jung, mas criativo de verdade, é o homem cuja consciência se faz permeável ao inconsciente, e não o diretor de arte da agência de publicidade cuja campanha de salgadinhos ganhou o último festival de Cannes.

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6 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Soraia
    maio 03, 2012 @ 16:34:04

    Profi, eterna profi. Adorei este texto. Muito bom! Como você escreve bem! Espero que não pare nunca de escrever. beijos! Soraia

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  2. patricia
    maio 11, 2012 @ 13:39:04

    Delícia! Eu sou, no mínimo, tetrapolar. Bi é pouco… Nesse mundo “politicamente correto”, tratar tristeza como doença é mais um “não pode” imbecil que nos recomendam engolir junto com rivotril. Obrigada, querida. Beijinho, Pat

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  3. darci
    maio 11, 2012 @ 22:27:13

    Adorei. Até o planeta Terra é bi-polar, sô!

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  4. Fabiana
    maio 12, 2012 @ 11:57:04

    Bom demais, principalmente o desfecho de ouro: “Criativo, disse Jung, mas criativo de verdade, é o homem cuja consciência se faz permeável ao inconsciente, e não o diretor de arte da agência de publicidade cuja campanha de salgadinhos ganhou o último festival de Cannes.”
    Beijos e muito obrigada, querida!!

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  5. darci
    maio 13, 2012 @ 11:48:36

    O patético é que os publicitarios (com raras exceções) se creem “artistas”! Por outro lado, existem criadores de verdade como Fernando Meirelles entre outros, que precisam ganhar a sobrevivencia emprestando o fiofó p/ a propaganda.

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  6. claudia
    maio 13, 2012 @ 12:35:04

    “…costumamos responsabilizar os outros por um processo psíquico que deveria ser vivido como nosso…” uau!
    Que venha o Bipolar 2, 3, 4…
    Bj sua linda!

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