Onde está o herói?

Espelho encantado com a diferença

Aquelas revistas Manchete e Fatos & Fotos eram do mês anterior, mas a gente nem ligava. Pelo menos uma quinzena depois de terem saído nas bancas, elas aportavam lá em casa, dádivas requentadas oferecidas em terceira mão por uma prima, casada com publicitário. Primeiro iam para a casa da mãe dela, minha tia. De lá, derivavam para nossa casa, ainda muito inteiras, diga-se em favor de nossa “sócia” de reciclagem. Demorava um pouco, mas a gente aprendia a esperar com gosto. As revistas chegavam em casa e relaxavam, porque sabiam que, agora, durariam meses, quiçá anos. Da sala de estar, passariam ao quarto e do quarto, ao banheiro, onde ficariam até mofar ou se molhar em algum acidente com o chuveirinho. Ou  virar colagens, ter as modelos maquiadas com canetinha, as páginas centrais destacadas para encapar livros e cadernos, as fotos de ídolos fixadas com durex na porta do guarda-roupa… Na nossa casa, as revistas eram como os “animais úteis” de uma disciplina escolar  surreal, chamada Conhecimentos Gerais: tudo se aproveitava, carne, gordura, pele, ossos, dentes, unhas… E afinal, a dança cósmica de Shiva ainda não era tão frenética naqueles anos 1960-70. O prazo de validade de coisas, pessoas e relacionamentos tendia à longevidade. Tinha lá suas desvantagens, claro, mas, no geral, era bom ver o tempo passar e não ser atropelada por ele. Uma semana durava uma semana e não três dias. Dava para esperar cinco minutos sem surtar. Uma revista mensal resumia os eventos e durava, pelo menos, o mês inteiro. Perto de Caras e Veja, aliás, Manchete e Fatos & Fotos eram quase revistas Qualis. Heróis e vilões amadureciam, engajados na batalha do bem contra o mal. O Super-Boy teve tempo para ganhar experiência e se transformar no Super-Homem. Já os meus heróis brazucas favoritos e suas aventuras saiam em quase todos os números das nossas fabulosas revistas recicladas, tão exóticos e  familiares quanto as trincas de príncipes dos contos de fadas e das mil e uma noites que eu tanto gostava de ler. Na verdade, foram mais dois príncipes que três, porque Leonardo já tinha sido expurgado quando tomei consciência do quão interessante era seguir aquela aventura em eletrizantes capítulos mensais. Meu imaginário absorveu aqueles fatos e fotos como faz uma esponjinha nova. E nunca mais os esqueceu. Orlando cabeludo feito um hippie, barba de monge, óculos de fundo de garrafa, dançando, em fluxo, no meio dos índios. Cláudio, comedido e composto, quase um funcionário público de carreira que, no meio da tormenta, e tal qual o Super-Homem, entrava numa maloca, sacava fora a roupa cáqui sempre amassada e saía transformado no Super-Branco-Índio: o cabelo cortado de tigela, a pele riscada de urucum, a máscara de negro jenipapo no lugar dos óculos de aro grosso. Era o máximo. Eles eram o máximo. Os índios eram o máximo. Em meio a reportagens bestíssimas (até a gente, que era criança, desconfiava de tanto ufanismo) sobre o Brasil Grande e o avanço da gloriosa Transamazônica, que já então profetizavam o Novo Código Florestal e outros terrores desenvolvimentistas, os três apareciam às voltas com seu cotidiano que, para mim, era mágico: armando varais de quinquilharias, entrando, destemidos, no coração da floresta, oferecendo aos índios seus espelhos rendidos ao mistério da diferença, metidos em pajelanças, respeitosos nos rituais e animados nas festas, afetuosos, tão sistemáticos quanto amalucados no seu projeto de desvendar brasileiros ancestrais a brasileiros modernos. Todos três expressavam, cada um a seu modo e principalmente quando reunidos na formidável fraternidade chamada “irmãos Villas Boas”, o daimon do herói genuíno, o servidor do coletivo, protetor das culturas, mediador das passagens, mestre-aprendiz, guardião dos limites, que sacrifica sua vida pessoal por amor ao outro. Sempre haverá babacas para dizer que eles estavam alinhados com os militares. Porém, para compreender a missão dos heróis Villas Boas é preciso recuperar o arquétipo e abandonar os estereótipos, os ideológicos em especial. Para quem se refugia da complexidade do real em teorias, doutrinas e dogmas reducionistas de toda sorte, os Villas Boas são, de fato, impenetráveis em sua ambiguidade, irredutíveis como os mais irredutíveis gauleses de aldeia de Asterix, conquanto feitos de carne e osso e contradições. Por isso, achei da hora a ideia de Fernando Meirelles e Cao Hamburger de apresentar o trio a gerações que sequer imaginam que eles existiram, formada, em sua maioria, por tolinhos tão pretensiosos quanto órfãos de heróis que prestem, e brasileiros, anda por cima. Porque a nossa escola inútil não faz isso, ah, mas não mesmo… Afinal a odisseia dos Villas Boas não cai no vestibular. Aliás, com essa escola e nossa cultura com Alzheimer, a moçada anda mesmo precisando de quem se disponha a ajudá-la a conscientizar o arquétipo do herói, por meio de imagens poderosas e transformadoras como as do filme “Xingu”. Quem sabe se, expostos a elas, nossos jovens consigam escapar de uma existência vivida na sombra do herói, onde se tornam vítimas dos poderes defensivos e (auto)destrutivos do arquétipo. Numa cultura árida, materialista e rasa, filmes como “Xingu” funcionam como iniciadores dos cada vez mais frágeis egos jovens, aos potenciais criativos do arquétipo. Por fim, de todas essas imagens instauradoras (um antônimo para “redutoras”), a que ficou gravada mais fundo na minha memória foi a mesma da cena que encerra o filme de Hamburger: do lado de lá do varal de presentes vazio, a figura imóvel, ao mesmo tempo curiosa, tímida e ameaçadora, do gigante krenakarore todo pintado de negro. Uma visão numinosa, um relance do mistério daqueles que marcam a alma da gente para toda a vida.

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. anacris
    abr 25, 2012 @ 21:51:27

    Eu fazia parte dessa família que recebia as revistas recicladas. Como eu tinha apenas 4, 5 anos me limitava a pintar as figuras em preto e branco das revistas.
    O que estava escrito não me interessava, ninguém me contava muita coisa, as conversas eu ouvia e não entendia muito bem. Mais tarde com 6, 7 anos fui entender quem eram esses heróis Villas Boas. Continuava colorindo as revistas e gravando na memória as fotografias intrigantes. Na minha história ficaram as imagens, que me acompanham desde sempre, por isso sou uma artedeseducadora!!!!!

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  2. rubens osorio
    abr 26, 2012 @ 17:00:40

    Eliana, que filme, não? Podia ser melhor? Podia! Podia ser uma merda? Claro! Mas veio em boa hora, em boa medida, com boa arte e sensibilidade. Escoteiro do grupo Camaiurá (tribo albergada no Xingu) tive o privilégio de ver, ouvir, tocar e até almoçar com Orlando na minha casa(!!!) certa vez. Leio hoje notícia sobre a agruras de um grupo indígena no Maranhão e penso: não houvesse “irmãos Villas Boas” e talvez o problema não existisse, porque os índios já não mais existiriam. E agradeço a Deus por eles (irmãos e índios).

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    • elianaatihe
      abr 26, 2012 @ 18:43:47

      Gente como eles, destemida em todos os sentidos, faz muita falta neste Brasil aguado da esquerda vendida. Eu tb agradeço a deus, à deusa, mulher dele, e aos deuses da floresta, amigos dele. E peço que, por favor, os Villas Boas reencarnem logo e bem. Bjs.

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