Cabelo

Um amigo meu costumava dizer que toda conversa de mulher, sobre qualquer tema e sob qualquer clima, invariavelmente terminaria em cabelo. E ele tinha razão. Ainda que não estejamos falando necessariamente SOBRE cabelo, ainda que aparentemos absoluto envolvimento com nossas conversas multifocais, nós, mulheres, estaremos sempre reparando nos cabelos umas das outras e fazendo íntimas e silenciosas observações sobre cortes bem ou mal sucedidos, colorações vencidas etc etc etc. Cabelo é, sim, uma poderosa metáfora obsessiva do feminino, esse conjunto de atributos que mulheres e homens partilham, em diferentes dosagens, ou Ike Batista não se orgulharia de ostentar aquele medonho arranjo capilar como se fosse a própria coroa de cachos de Zeus. Ontem mesmo fui tricotar e fazer tricotomia com meu querido cabeleireiro Renato e hoje acordei renovada pela mágica da sua tesoura. Adorei o resultado, que me deixou remotamente parecida com a Peppy Miller do filme “O artista”, só que trinta anos depois. Entre outros temas fascinantes, conversamos, eu e Renato, sobre o sumiço dos produtos para cabelos cacheados como os meus e ele me contou que a mulherada (e alguns homens também, claro) só quer saber de cabelo escorrido, o que nos lança mais uma vez, a nós, portadoras de cachos e ondas, no limbo da moda e do mercado. Como eu mesma, meus cabelos estão muito bem adaptados a esse limbo… onde sentem-se em casa. Em meados dos anos 1970, aliás, quando a moda era mais acolhedora às diferenças individuais, fui redimida da sina de submeter meus cachos a traumáticos puxões de escova e meu courinho cabeludo a queimaduras e outras agressões suportadas em nome de alguma coisa que não sou nem nunca serei. Depois de passar quase toda a adolescência dormindo (mal) de touca-alisa, libertei meus cabelos para nunca mais tratá-los com nada que não sejam produtos amigáveis e estimulantes, mais recentemente sem sal e orgânicos. Em suma: meus cabelos adiantaram-se trinta e poucos anos ao restante de mim, em matéria de expressão autêntica. Eles abriram caminho para a possibilidade de eu ser quem verdadeiramente sou, foram minha comissão de frente e eu venho tentando evoluir atrás deles, nem sempre com a mesma desenvoltura. Somos assim mesmo, nós, seres humanos: partes de nós se desenvolvem primeiro, mais destemidas e dispostas a correr o risco de assumir-se. Outras partes ficam retidas por mais ou menos tempo (às vezes, por toda a vida) na dimensão das expectativas que os outros têm de nós. São prisioneiras das projeções do coletivo, do espírito da época que vivemos e que nos ilude e manipula, fazendo-se passar por eterno e imprescindível quando, na verdade, é transitório e descartável. Nosso corpo, ancorado no único mundo que verdadeiramente conhecemos, frequentemente é mestre de nosso espírito, que segue atrás, tentando desesperadamente adaptar-se às transformações inevitáveis da vida ou simplesmente negando-as e se recusando a aprender com elas. Cabelos não são uma coisa banal, não mesmo, ou não teríamos tantos mitos que exploram imagens capilares para nos falar sobre nossa energia vital, aquela que flui do pacto de nossa alma com seu daimon. Que o digam personagens como Sansão, Rapunzel, a Medusa, até mesmo Héracles que, como mestre Jonas, saiu careca de dentro do ventre da baleia, onde também ficou preso por três dias, preparando-se para a verdadeira aventura… Penteados elaborados ocupam espaço demais no imaginário humano para não terem nada a dizer sobre nós. Pensem no Egito antigo, na etnia massai e nas cortes européias do século 18, só para citar alguns exemplos gritantes. A perda ou o corte ritual dos cabelos marca ritos de passagens em muitas culturas, em diferentes épocas e lugares, assim como marca a travessia pelo limiar entre vida e morte de alguém que enfrenta, por exemplo, o inferno de uma quimioterapia. Cabelos são, pois, imagens tão superficiais quanto profundas, ao mesmo tempo banais e sagradas. São, numa palavra, símbolos e, por isso, merecem ser observados com um olhar simbólico. Cabelos escorridos, compridos, se possível louros, para todas. Você já pensou, alguma vez, no que isto significa?

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7 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Anna
    mar 11, 2012 @ 21:38:00

    Li, cortei o meu na sexta! rs
    E eu em pleno modismo de escova progressiva, todo mundo com a “mesma cara”, fui fazer permanente! Acredita?
    Amiga, agora escreva, por obséquio, “Como ficar careca com dignidade”.
    bjs Anna

    Responder

  2. claudia
    mar 13, 2012 @ 08:21:43

    “Cabelos escorridos, compridos, se possível louros, para todas. Você já pensou, alguma vez, no que isto significa?”
    Sim. Após muitos anos vendo meus cabelos aos poucos ficando brancos, fiquei uns 3 anos pensando: Pinto… não pinto. Faço progressiva… não faço.
    Chutei o balde, cheguei no cabeleireiro (que é o barbeiro de meu marido – escolhido de propósito para não ouvir depois: “Viu? eu disse que esse seu cabeleireiro não prestava!” – ou seja – cortei pela raíz qualquer comentário posterior) e disse: “Amigo… Sim. Estou envelhecendo, chegando aos 50, e resolvi que meu cabelo terá a mesma idade que tenho.”
    Levei algumas fotos que eu gostava, ele olhou, olhou, e cortou meu cabelo. Eu usava o mesmo corte há 30 anos. Saí de lá feliz da vida. Agora assumo meus cabelos lisos porém rebeldes à umidade (quando o tempo está úmido ele “infla” – e eu não tô nem aí. Boto um batom vermelho vivo, e saio com cara de louca). E tb assumo meus cabelos brancos, que aos poucos estão virando mexas. É isso.
    Amei o texto (como sempre).
    Bj amiga!

    Responder

  3. Fabiana
    mar 14, 2012 @ 10:12:20

    Eli!
    Você mais uma vez fazendo a minha cabeça… amei o texto!
    “Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada!!”
    Os cabelos têm mesmo uma ligação direta com nosso estado emocional, já reparou que em momentos críticos da nossa vida procuramos alívio na tesoura, tintas, penteados e tais? Talvez seja o desejo de uma transformação imediata…
    Aproveitei o post pra marcar uma hora no cabeleireiro, há tempos que os coitadinhos precisam de um trato e a dona deles também…
    Beijos e obrigada,
    Fabi

    Responder

  4. Lourdinha
    abr 02, 2012 @ 19:00:29

    Eli, querida, só você pra falar com propriedade e seriedade sobre cabelo. Genial!

    Beijo,

    Lourdinha

    Responder

  5. darci
    abr 26, 2012 @ 14:33:53

    Eli, tu tá linda de cetim azul e o cabelo tá ótimo.
    Desde que deixei de tingir os meus (e topei aturar a reação das pessoas na boa), tenho chamado atenção por onde passo por diferentes razões: Algumas mulheres ficam escandalizadas ao ver uma “colega” que não os esconde (ah, resolveu assumir é?! Costuma ser o comentário) e ainda usa camiseta com a boca ícone dos Roling Stones (quer parecer jovem é?). Que heresia!
    Segundo a chic Gloria Kalil, não tingir cabelos brancos significa “desistir” do jogo da sedução. Eu já diria que percebo na prática que depende da paginação, do lay-out total da criatura e não apenas dos cabelos. Muitas senhôras tingem os cabelos e vestem-se como as Dilma Roussefes da vida. Aí não há tintura que rejuvenesça, né amiga! Outras ficam enfurecidas por ver que é possível ficar bem de cabelo branco (que irritante!) com um corte bacana e até uma mecha vermelha ou roxa como usei uns tempos atrás. Outras mais saudaveis me dizem que fiquei ótima de cabeça branca, já que tenho a pele morena dos meus ancestrais indios e negros (na Inglaterra eu seria negra, como de fato somos). Mas o melhor de tudo é perceber que “ainda” (odeio essa palavra) atraio os olhares masculinos, inclusive dos jovens rapazes e moças.
    O auge desta fase grisalhissima foi 15 dias atrás quando me sentei ao lado de um senhor da minha geração no filme Habemmus Papan, que assim do nada, parabenizou-me pelos cabelos brancos e completou dizendo que acha muito feio mulheres maduras com cabelo tingido. Ganhei meu dia.
    Ainda bem que v achou um cabeleileiro bacana. Eu tenho horror desse tipo de ambiente, então comprei uma tesoura profissa e resolvo eu mesma a questão do corte, além de economizar. E tb tem feito sucesso. bjjsssssss

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    • elianaatihe
      abr 26, 2012 @ 18:35:27

      Meu cabeleireiro não tem ambiente, colega. É só elezinho na sua sobreloja na Pamplona, um luxo de rapaz. E sempre teremos a Christine Lagarde presidente (e não denta) do FMI para nos servir de apoio. Ainda vou deixar os meus, quando a henna desistir da sua mesopotâmica missão de cobri-los. Bjs

      Responder

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