No jardim

Aprendendo com a horta

Em grande parte das mitologias que conheço, o Mundo começou num jardim. Nada mais natural. Nada mais cultural. No jardim, a ordem está inapelavelmente submetida à desordem. E vice-versa, se houver um jardineiro por perto. Um jardim ensina que Caos e Cosmos, desordem e ordem, são faces inseparáveis da mesma realidade, a totalidade bipolar da qual decorrem todas as dualidades que conhecemos e experimentamos: sombra e luz, amor e indiferença, consciência e inconsciente, bem e mal, beleza e feiúra, natureza e cultura, animal e humano, humano e divino etc etc etc… Nossa vida é fruto desse movimento pendular que a tece e destece, ao sabor da perpétua oscilação entre infinitos pares de opostos. A imagem do jardim serve, pois, para figurar o mundo objetivo tanto quanto nosso mundo interior e, nesse sentido, somos todos um jardim e seu jardineiro, simultaneamente sujeito e objeto de um cultivo e de um desleixo. Um jardim neoclássico é uma tentativa pretensiosa e rígida (para não dizer fracassada) de submeter Caos às leis de Cosmos. Um jardim abandonado é uma prova inconteste da supremacia de Caos sobre Cosmos. Um jardim zen budista é um diálogo tenso e sutil entre esses esses gêmeos opostos-complementares, a quem os gregos também chamaram de Eros e Tánatos, o Amor e a Morte,  as forças de coesão e dispersão que se alternam, se combatem e se entrelaçam na faina de urdir o mundo. Os antigos gregos, com sua excepcional competência para transformar percepções em imagens (e, mais tarde, também em conceitos), os nomearam mais de uma vez. Caos e Cosmos são os “nomes” inventados por esse povo que pariu nosso imaginário muito antes de Cristo, para designar as potestades indiferenciadas, primais, devastadoramente criativas, que se engalfinham pela eternidade afora, envolvidas em sucessivas batalhas e negociações pela posse do mundo e da alma humana. Por um momento, Zeus e seus irmãos olímpicos aprisionaram as forças de Caos nas profundezas da Terra e declararam a vitória de Cosmos. Embora fosse o próprio sr. Fodêncio, Zeus tinha uma grande sabedoria intuitiva e uma invejável verve diplomática, as quais conquistou, aliás, depois de ter engolido sua esposa Métis, preocupado que estava com o fato de ela ser muito mais inteligente do que ele. Sim, ele podia ser vaidoso e prepotente, mas sabia que não reinava sozinho. Sempre esteve ciente de que Caos continuaria a invadir intermitentemente, por imprevisíveis e invisíveis fissuras, aquele mundo recém-faxinado de monstros e vilões que ele fizera tanto gosto em arrumar.  Sempre esteve ciente, inclusive, de que a energia básica e incontrolável de Caos era a origem e a nutriz de  Cosmos, caso este quisesse se manter fecundo e criativo. Cercado por divindades mais antigas do que ele, por sinal, quase todas femininas, Zeus pragmaticamente concedeu espaço e status inalienáveis às forças da desordem. Para se sentir um pouco como Zeus, é só ter um jardinzinho em casa, ainda que sejam uma mini-horta de temperos, quatro ou cinco vasos de samambaias. A faina interminável de arrancar o mato, atacar as pragas, fazer mudas, podar na época propícia, reconhecer e retirar os cadáveres, regar cada planta conforme sua necessidade, adubar, rastelar folhas secas ou arrancar folhas amareladas, perseguir e desentocar lagartas famintas… Fazer isso é experimentar-se um pouco no papel de demiurgo. No jardim, a ordem é alimentada pela desordem, pela matéria orgânica em decomposição, pela força descomunal da vida que não foi convidada, pela resistência dos microvilões que fortalecem a quem não matam e nos convocam a sermos ainda mais resistentes do que eles… No jardim, a desordem se submete à ordem dos ciclos naturais, das chuvas sazonais, dos desafios naturais e artificiais que as plantas precisam vencer para vingar de verdade… Um olhar menos tosco, uma mente menos literal podem aprender muito sobre a existência humana, sobre finitude e eternidade, sobre equilibração ou homeostase, sobre economia psíquica, educação, física e metafísica, simplesmente cuidando de um pequenino jardim. O aprendizado pode parar no nível mais primário, do corpo ancorado no mundo e de uma educação dos sentidos. Se ficar aí, já está de ótimo tamanho – e quanto perdem os estudantes de todos os níveis porque essa escola sem alma e sem utilidade lhes rouba o tempo de aprender a viver plantando e cuidando de um jardim! O aprendizado do jardim também pode desenvolver-se em muitas etapas, cada vez mais profundas (literal e metaforicamente falando). No jardim, Caos e Cosmos, Eros e Tánatos são nosso mestres, mestres da vida e da morte, disputando nossa atenção, construindo nosso conhecimento na experiência, propondo conteúdos sempre muito significativos, obrigando-nos a sujar as mãos, obsessivamente desinfetadas com álcool gel, com a substância primeva da vida: o barro. Nos últimos dias de minha mãe, comprei um livro para ler em voz alta para ela, chamado “O poder do jardim”, nem sei de que autor, porque na espiral de dispersão convocada por Tánatos quando ela se foi, ele se perdeu por aí. Eu o li para ela e para mim mesma, naquele lugar sem jardim que é um quarto de hospital, onde a alma precisa ser bajulada e afagada o tempo todo para não fugir espavorida ou não ficar anoréxica. Foi um tempo de leituras delicado e suave, instalado em meio à névoa que sempre envolve os limiares de nossa vida. O jardim lido deu prazer e conforto a minha mãe e me ajudou a atravessar aquele território pantanoso e escorregadio como o mangue de Lerna, onde vivia a hidra que Héracles eliminou, a serviço de Zeus, seu pai devoto de Cosmos. Que a gente não se engane: a última cabeça da hidra era imortal e o herói só pôde enterrá-la bem fundo e colocar uma pedra em cima, como Zeus fez com os gigantes e os titãs que venceu. Caos deve ter gargalhado dessa estratégia copiada do papai poderoso. Penso que, frequentemente, em nossa vida, essa cabeça medonha, representante da desordem, ressurge à flor da terra para nos assombrar e desorganizar, mas também para nos desafiar e estimular a crescer. Gosto mais do gesto de Perseu, que também precisa enterrar a cabeça imortal da górgona Medusa e, para isso, cava um buraco bem fundo, que cuida de forrar e amaciar com delicadas algas marinhas. Por fim, ele coloca, com delicadeza, a face terrível do monstro voltada para esse berço de algas. Na mesma hora, petrificadas pelo olhar da Medusa, as algas transformam-se em corais. Não é lindo isso? O olhar de Caos a incitar o gesto delicado de um Cosmos compassivo, a um só tempo cuidadoso e destemido, numa palavra: integrador?

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9 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Fabiana
    fev 09, 2012 @ 16:40:54

    Eli!!
    Que linda imagem do jardim…
    Tão verdadeira que não cansamos de visitá-la e de reiterar que sim, cultivamos a alma, semeamos histórias, colhemos e saboreamos os frutos…
    Obrigada pelo alento no caos…
    Beijos,
    Fabi

    Resposta

  2. Mateus Franco
    fev 09, 2012 @ 17:34:01

    Samwise Gangee era, antes de tudo, um jardineiro. Muito faltava a Sam para ser um grande heroi, “desses que vemos nas grandes histórias”, mas ele, com seu jeito tosco e desajeitado, sempre lutava para vencer o deserto, para que a vida – essa dialética entre caos e ordem – pudesse medrar nas terras áridas de Mordor, nas dúvidas e nos medos de um hobbit carregando um fardo por demais pesado. O mito do heroi estou tentando superar, mas o mundo do Cristo continuo tentando integrar ao meu, descolorido. Jardinemos!

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    • elianaatihe
      fev 10, 2012 @ 06:00:07

      Querido Mateus,
      Mais herói que Cristo, impossível. Vá ler um pouco de Joseph Campbell. Vai te fazer bem e juro que vc não vai virar herege. Se virar, pode ser divertido. A heresia é o que reaviva e tonifica a ortodoxia. Não se engane, Mateus: vc mal começou a viver o seu mito do herói ainda. Outra coisa: não há dialética em meu texto. Não acredito que haja síntese entre cosmos e caos; acredito em lógica recursiva. Edgar Morin te ensina isso. Vá viver primeiro, meu lindo, travar a tua própria guerra com os parentes e amigos, como fez Arjuna,que vc deveria conhecer tb. Daqui há alguns anos, conversamos sobre o mito do herói e a falência das dialéticas. Bjs e obrigada.

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      • Mateus Franco
        fev 10, 2012 @ 20:06:44

        “Tentei fundar uma heresia só minha; e quando lhe dei o último acabamento descobri que era a ortodoxia.” Gilbert Keith Chesterton. Tentarei ler esses autores sugeridos. Obrigado.

      • elianaatihe
        fev 13, 2012 @ 18:50:16

        Isso mesmo; lindinho. Só quem se arrisca a perder cresce. Quem tem medo de perguntar não merece uma boa resposta. Bjs e seja feliz.

  3. glaucia
    fev 09, 2012 @ 22:32:06

    Eli, somos todos um jardim e seu jardineiro, simultaneamente sujeito e objeto de um cultivo e um desleixo… que frase mágica! Algo que eu procuro em mim é espaço para desleixo. Li também o texto sobre Tiadelaide, que conheci, e filme do Tatit, que adoro assistir. Também naquele texto tem algo do desleixo. Vou dormir com essa idéia. beijos!

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  4. Malu
    fev 10, 2012 @ 09:51:13

    A imagem do jardim alivia a alma. O cultivo, o cuidado permanente nos leva a uma conexão com a mãe natureza. É por isso que os árabes levam para o interior de suas casas os tapetes maravilhosos representando o jardim de Allah. Obrigada por essa imagem tão bem pintada.
    Bjs

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  5. Cristiane Marino
    fev 10, 2012 @ 19:46:24

    Oi Eli, quero só te deixar um grande abraço e o meu carinho em meio a este turbilhão causado por Tánatos.

    Resposta

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