Pedro, o alquimista, ou uma questão de pele

O corvo (aquarela sobre papel)

Em “A pele que habito”, estamos às voltas com o arquétipo do hermafrodito, revisitado por uma ciência médica que nos seduz com promessas de perfeição e eternidade, nossas modalidades favoritas de hybris. No princípio, porém, antes mesmo de Hermafrodito nascer, eram os gêmeos polares. De um lado, Apolo: belo, culto e frio, tão eficiente no manejo da razão instrumental quanto incapaz de lidar com os próprios sentimentos.  Impermeável, seco, contundente como os afiados instrumentos cirúrgicos que maneja com maestria. Por outro lado, e já que se trata de Apolo, irremediavelmente mal sucedido com as mulheres. Seu projeto é movido, a princípio, por uma adoração a um feminino idealizado, posto que, com o feminino real, ele não consegue estabelecer uma relação de intimidade, sendo continuamente rejeitado. A oportunidade surge e ele a agarra, a fim de levar a cabo um duplo acerto de contas. Apolo decide então reunir o melhor das finadas mulheres de sua vida numa mesma criatura, o resultado esplendoroso de uma visão de mundo muito particular. Numa história em que apenas a aparência importa, nada é, contudo, o que parece, mesmo porque, quando se trata da retorta alquímica de Pedro Almodovar, forma e conteúdo nunca estão dissociados. Temos, pois, até aqui: (1) um Frankenstein comme il faut, mas também às avessas, porque mortalmente atraído por sua criatura monstruosa-deslumbrante; (2) um Barba-Azul sedutor-retalhador, cujo estigma (a loucura) está muito bem escondido dos olhos, ao contrário do que acontece com a personagem dos contos de fadas; (3) um Pigmalião narcisista e sua ambígua Galateia tecnológica; (4) um dândi psicopata, na melhor tradição do dr. Hannibal Lecter, reforçada ainda pela imagem da mulher-borboleta, cuja forma evolui misteriosamente no interior do macacão-casulo; (5) um Goya pós-moderno, às voltas com a minuciosa e obsessiva construção de sua deslumbrante maja desnuda, cuja versão digital, viva, estampa a parede de seu quarto (o que ainda me remete a “Janela indiscreta”, de Hitchcock).  Para honrar seus estereótipos favoritos, Pedro acrescenta a essa mistura explosiva uma figura de mãe que, presumo eu, deve ter muito em comum com a sua própria: assistente, guarda-costas, governanta, cozinheira, irredutível na lealdade cúmplice de quem se sabe responsável pela loucura do filho. Na verdade, loucura da prole, de que também faz parte El Tigre, um oposto complementar dionisíaco do irmão de sangue aristocrático e filho de patrão. El Tigre, o proscrito, a besta fera, é filho bastardo de um empregado. Sua natureza é animalesca, brutal, sem limites, inclinada ao lado obscuro. Como Pedro e Agustín, os filhos da senhora Almodovar, os filhos dessa mãe fictícia estão unidos pela sombra. No primeiro caso, a alquimia de Pedro cuida de transformar matéria sombria, a prima materia suja e corrompida, numa arte das mais criativas e originais. No segundo, será a mãe que, por excesso de amor e de sombra, levará sua prole à ruína. Retomando El Tigre: as mulheres -“todas umas vagabundas”, como dizia a Vaní de “Os normais”-, amam o monstro, atraídas que são por sua alteridade, por sua perversidade instintiva. Mais do que isso: entregam-se temerariamente a ele, deixam-se penetrar por ele, seguem-no até o fim. Em contrapartida, ele as liberta de suas gaiolas douradas, ainda que para destruí-las em nome de uma verdade íntima que elas temem e desejam conhecer. Retomando nossa lista de referências: (6) A Bela (Vera, que de verdadeira não tem nada) e a Fera (El Tigre, mais explícito impossível,  ainda por cima com sotaque brasileiro); (7) Jeckill e Hyde, o médico e o monstro; (8) o mito de Prometeu, sobreposto ao de Epimeteu e Pandora. No laboratório de Pedro, o alquimista, os opostos guerreiam, deixam-se fascinar um pelo outro, atraem-se tragicamente até fundir-se ou destruir-se mutuamente. Por isso é tão bom ter um novo filme de Almodovar para amar e odiar. Um filme do homem-oxímoro: coroinha e capetinha, conservador e revolucionário, chique e cafona, totalmente independente e filhinho da mamãe, lírico e épico, cômico e trágico, Vera e Vicente, El Tigre e Robert, inconsciente e ego, fantasista e pragmático.  Por esse motivo, com Pedro e seu cinema na parada, fica quase impossível polarizar. O espectador que detesta sabe que, lá no fundo, foi fisgado pela história delirante e incômoda. O espectador que ama sabe também que, lá no fundo, detestou enxergar suas micro-perversidades reveladas no espelho da tela. Em “A pele que habito”, para encanto da mulherada, Pedro Almodovar finalmente faz as pazes com Antonio Banderas, o alterego masculino que lhe cai melhor. Um evento assim, tão auspicioso, merecia mesmo uma história à altura.

 

Anúncios

5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Fabiana
    dez 06, 2011 @ 09:14:42

    Que saudades da Mulher-Esqueleto!!
    E que sorte encontrá-la na pele do Almodovar…
    Saí do cinema gestando a experiência, reunindo as partes do mosaico que me foi oferecido e, claro, com as cores do filme passeando pela memória, tons de azul e vermelho em especial.
    E agora a Mulher-Esqueleto estende sua mão ossuda e costureira, desembaraçando os nós e atando as pontas dessa trama tão impactante e atual.
    Adorei!!
    Beijos e beijos.
    Fabi

    Resposta

  2. patricia
    dez 06, 2011 @ 17:45:58

    e ainda : a canção que norma canta é brasileira, o tigre criança desce a favela do rio, a mãe sente “saudades” do cigarral e vera é vera cruz – brasil, afinal! será acaso? beijinho, pat

    Resposta

  3. Denise
    dez 08, 2011 @ 20:19:57

    Não sei por quê, mas seu texto evocou O outro tigre… beijos, Dê

    O outro tigre
    “And the craft createth a semblance”
    Morris, Sigurd the volsung, 1879

    Penso num tigre. A meia-luz exalta
    A vasta biblioteca laboriosa
    E parece afastar as prateleiras;
    Forte, inocente, ensangüentado e novo,
    Ele irá por sua selva e sua manhã
    E marcará seu rasto na limosa
    Margem de um rio cujo nome ignora
    (Não há em seu mundo nomes nem passado,
    E nem porvir, só um instante certo)
    E salvará as bárbaras distâncias,
    Farejará no hirsuto labirinto
    De todos os odores o da alba
    E mais o deleitoso odor do cervo.
    Em meio às raias do bambu decifro
    As suas e pressinto a ossatura
    Por sob s pele esplêndida que vibra.
    Debalde se entremetem os convexos
    Mares e os desertos do planeta;
    E desta casa de um remoto porto
    Da América do Sul, eu te acompanho
    E sonho, ó tigre marginal do Ganges.

    Corre a tarde em minh’alma e conjecturo
    Que o tigre vocativo do meu verso
    É um tigre de símbolos e sombras,
    Uma série de tropos literários
    E de recordações da enciclopédia,
    Não o tigre fatal, a aziaga jóia
    Que, sob o sol ou a diversa lua,
    Vai cumprindo em Samatra ou em Bengala
    Sua rotina de ócio amor e morte.
    A esse tigre dos símbolos opus
    O verdadeiro, o de ardoroso sangue,
    O que dizima a multidão dos búfalos
    E a 3 de agosto de 59,
    (Hoje), alonga no prado uma pausada
    Sombra, mas já o fato de nomeá-lo
    E de conjecturar-lhe a circunstância
    Da arte o faz ficção, não criatura
    Vivente, dessas que andam pela Terra.

    Procuraremos um terceiro tigre.
    Este, como os demais, será uma forma
    De meu sonho, um sistema de palavras
    Humanas, não o tigre vertebrado
    Que, para além das vãs mitologias,
    Percorre a Terra. Bem o sei, mas algo
    Me impõe esta aventura indefinida,
    Antiga e insensata, e persevero
    Pelo tempo da tarde na procura
    Do outro tigre, o que não está no verso.

    Jorge Luis Borges. O Fazedor. São Paulo: Difel, 1984. p. 68-9.

    Resposta

    • elianaatihe
      dez 09, 2011 @ 19:29:17

      Esse tigre de Borges é Pedro Almodovar, entre outros que não vêm ao caso agora.
      O Gilbert Durand dizia que nossa alma é tigrada. Não é lindo? Obrigada, minha amiga querida, Dê, que faz a roça parecer mais bela.

      Resposta

  4. anacris
    maio 04, 2012 @ 19:59:07

    Os filmes do Almodóvar a gente nunca assiste uma vez só e cada vez que os revemos mergulhamos mais profundamente dentro de nós mesmos e do universo singular dele.
    Assistir Pedro Almodóvar é visitar as profundezas da nossa própria alma, mesmo que aparentemente não tenhamos nada a ver com a história, sempre temos algo que desperta em nós o desejo de dar um passo além…
    Ou seja, não é pra quaquer um, somente os iniciados é que ousam amá-lo…
    Eu amo…

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: