Como matar sua alma: pequenas lições práticas

Alma de Egon

“Uma vida não examinada não merece ser vivida.”  Sócrates

“Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou.” Jung

Ficou fácil. E está ficando cada dia mais fácil. Basta tomar um remedinho para fazê-la parar de doer. Ou deixá-la doer em silêncio, amordaçada. Uma bolinha, uma carreira, algumas doses, uma picada… É o alívio. O limbo redentor da estupefação. Faça qualquer coisa para não ter de haver com ela. E vamos logo combinar: ter ou não ter alma é, ao fim e ao fundo, uma questão bioquímica, farmacológica. Pois se a medicina científica nem mesmo acredita na existência dela, por que temos nós de aturar uma coisa que nos incomoda tanto? Faça como os médicos: não acredite na (sua) alma. Para garantir a segurança do vazio, neutralize-a. Afinal ela pesa. Ela mergulha. Ela deprime. Ela recorda. Ela sente. Ela imagina demais, essa delirante. Ela insiste em afirmar que existe sim, contra todas as argumentações lógicas. Pior: ela inflitra as blindagens de aço e concreto do seu ego e as corrói de dentro. Ela se vinga do modo como você a destrata, a ignora, a esnoba. Ela é uma sabotadora que precisa ser presa e exilada. Investir num vaso que a contenha e lhe dê forma dá trabalho, dá despesa, às vezes mais trabalho que despesa. E dói pra burro. Você não é burro. Você é sapiens. Racionalize. A razão instrumental salva mais do que Jesus, embora Jesus também seja frequentemente usado para fazer calar a alma dos fiéis, essa questionadora revoltosa, essa perigosa sonhadora. Acredite no poder da razão soberana. Não é preciso coragem para matar sua alma. O mercado vem oferecendo estratégias cada vez mais indolores e eficazes de fazê-lo. Quanto mais miseráveis forem as almas dos consumidores, mais o mercado haverá de bombar. Vá ao shopping e compre tudo o que conseguir carregar. Detone o seu cartão de crédito. Sua alma vai entorpecer legal, pelo menos até chegar a fatura. Às vezes o efeito só dura até você chegar em casa e concluir que não precisava de nada do que comprou. Que a sua alma insaciável não queria aquele relógio, muito menos aquela bolsa.  Que o buraco se aprofundou e ainda por cima afetou sua conta bancária. Enfim foram duas ou três horas de alívio. Não valeu a pena? Você não quer saber, mas ela insiste em querer que você saiba. E viaja para o outro lado, aonde você não quer entrar. E traz de lá assuntos com os quais você não quer lidar, de que não você não quer nem saber. Embora o outro lado seja a sua própria face obscura e esses assuntos sejam, eles também, os seus assuntos. Um jeito, digamos, mais produtivo, de matar sua alma é malhar compulsivamente. Seu cérebro vai secretar uma quantidade espantosa de endorfinas e você vai se sentir o último biscoito do pacote. O prazo de validade dessa sensação é curto. Então você malha mais. O efeito colateral é que seu corpo vai ficar magro e musculoso, como mandam a opinião pública e as mídias especializadas. OK, seu corpo também adoecerá, mais dia menos dia, até porque a saúde dele depende de sua relação com a alma, sua companheira inseparável, com quem ele forma uma totalidade dual, dinâmica, indivisível. Mas a gente divide, porque dividir é a nossa praia, a especialidade da razão instrumental. Nada de misturar as coisas. Quem mistura as coisas é a alma, essa sem-noção. Um pouco de esquizofrenia pragmática e pronto. Tudo resolvido. Observe, por exemplo, como as doenças psicossomáticas não convencem. A medicina científica continua a suspeitar delas. OK, não dá para ignorar as disfunções de autoimagem, os distúrbios alimentares, as aneroxias e vigorexias e bumilias, as doenças de um corpo que é obrigado a sobreviver quase sem alma, da mão para a boca. São todas doenças-metáfora: do corpo que, movido pela razão insaciável, luta para avassalar a alma, do corpo que espelha a miséria na qual a alma vive. Mas a ciência não crê em metáforas. A religião literaliza e esgota as metáforas. A metáfora é uma coisa que só serve aos vestibulandos e poetas. Não perca tempo e sono com a alma. Durma bem e, por favor, não sonhe. Qualquer farmácia vende esse pacote por alguns trocados. Enfim escolha logo a ocasião, o comparsa, o método, o veneno, a arma. Tem para todos os gostos e estilos. Já matamos a alma do mundo mesmo, por que, afinal, teimar em preservar a nossa?

P.S. – Em tempo, a revista Piauí 59, de agosto de 2011, traz um artigo reproduzido do New York Review of Books que se chama “A epidemia de  doença mental”, escrito por Marcia Angell.  Se você ainda tem alma, não deixe de ler. Você vai tremer de medo.

 

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14 Comentários (+adicionar seu?)

  1. rubens osorio
    ago 12, 2011 @ 10:18:36

    Minina, minha alma se assustou, se alegrou, se revoltou, concordou, conspirou, suspirou com tudo o que vc disse…
    Não tem jeito, vou ter que reproduzi-lo no meu blog… odeio essa coisa de copia e cola, até parece que a gente não tem ideias próprias. E é verdade! Então eu copio e colo aquilo que os outros – como vc – expressam tal como eu gostaria de expressar. Ou contrariar.
    Bjs

    Responder

  2. Alysson Amorim
    ago 12, 2011 @ 20:11:24

    Isso é vertiginoso. Só fico sem saber se devo lhe agradecer ou se devo lhe processar por essa de cutucar a minha alma e fazê-la lembrar que, enfim, ela dói, e portanto existe.

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  3. designifica
    ago 14, 2011 @ 22:20:53

    Fez a voz do ‘povo’ hipermoderno!
    Parabéns!
    Tá tudo aí no texto, não faltou nada. Universal.

    Voltarei mais vezes no seu blog!

    Abraço!!

    Responder

  4. Marcio Rocha Pereira
    ago 15, 2011 @ 07:45:47

    “Acredite no poder da razão. Detone o seu cartão de crédito.” –> em que dimensão isso faz sentido?

    “OK, seu corpo também adoecerá, porque a saúde dele depende de sua relação com a alma, sua companheira inseparável. Ambos formam uma totalidade dual, dinâmica, indivisível. Mas a gente divide, porque dividir é a nossa praia.” –> e ainda assim, me resta uma impressão de que, apesar de estar objetivamente criticando a dualidade corpo|mente, raiz última de todos os problemas da nossa pobre filosofia contemporânea, você a reproduz…

    O seu texto é bonito. Parabéns, sei lá. Mas me parece vazio.

    Responder

  5. Cris Bonna
    ago 15, 2011 @ 13:59:43

    UUUUUUUUU!!! Esse é meu uivo pro seu texto maravilhoso. Senti minha alma pulando aqui dentro feliz, afinal alguem está prestando atenção nesse absurdo todo que as pessoas chamam” falta de tempo pra nós mesmas”.
    Beijos minha loba mestra e continue sempre botando a boca no trombone.
    Cris

    Responder

  6. Cecilia Rocco
    ago 15, 2011 @ 14:53:36

    Puxa, Eli !!! Que desabafo, hein ? Adorei ! Irónico e raivoso, de vazio não tem nada !!! O importante nesse momento crítico ( Planetário ) é aceitar que cada um lida como pode com a ALMA . Já fui usuária e consegui sair, hoje tô limpa ! Doe muito, mas também passa e é aí que vc se fortalece. É dificil, VER, que as pessoas queridas, as vezes bem próximas, se entorpecem . Aceitar é necessário, e alertar também … faz parte da sua missão !
    Bjus
    Ciça

    Responder

  7. claudia lopez de freitas
    ago 15, 2011 @ 15:23:17

    Se vc tivesse feito como eu, que fucei até achar a garrafa do suco de uva Superbom na salinha da secretária do pastor, e depois de achar tomava até me acabar, teria sido abençoada pelo suquinho gostoso, e não teria sua alma perturbada a ponto de arremessar pela janela nosso disquinho.

    Responder

  8. Lourdinha
    ago 16, 2011 @ 09:06:16

    Credo, atacada você estava, hein?! Espetáculo!

    Responder

  9. Fabiana Corrêa Prando
    ago 16, 2011 @ 11:53:52

    Queria que esse post saísse na 1ª página dos jornais.
    Até quando vamos assistir passivamente ao entorpecimento da alma?!
    Bota pra quebrar, Eli!
    E conte com a matilha de lobas que estão com você com unhas, dentes, razão, alma e coração.
    Amei o subtítulo do blog: cultivo da alma na rede.
    Uuuuhuuuu!!!!
    Beijos,
    Fabi

    Responder

  10. marcus
    ago 19, 2011 @ 00:13:42

    Querida Loba,

    Se pelo menos pudessemos redescobrir que a alma não se esconde de nós, mas que, pelo contrário, ela está no olho que poetiza, na mão que suaviza, na plavra que faz metáfora, na imagem grávida de sentidos, enfim, está aqui, ali, e cá entre nós.
    Resistir, resistir e repetir, repetir, até repetir diferente.

    Bjos do Legionário e parabéns pelas letras de Alma.

    Responder

  11. Malu
    ago 20, 2011 @ 14:48:24

    Minha busca é não atrapalhar mais a minha alma. Eu quero ouví-la e fazer o que me dita. Será que eu consigo? Estou tentando.

    Responder

    • elianaatihe
      ago 22, 2011 @ 10:02:55

      Querida, a gente começa atrapalhando mesmo. Depois atrapalha mais um pouco. Um dia, se tiver muita sorte, começa a parar de atrapalhar. No momento, quem tem de aprender com vc sou eu, vc é minha mestra e iniciadora. Me dê umas canjas de vez em quando e siga firme no sentido da sua individuação, que eu estou logo atrás, nos seus calcanhares. Bjs.

      Responder

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