Moda e sacrifícios humanos

Deusa adormecida, estatua encontrada no interior do Hipogeu,  ilha de Malta

“O nosso objetivo como seres individuais corporificados é manifestar o processo somático como uma experiência mítica. Ao perdermos a realidade somática, tornamo-nos habitantes de uma terra de ninguém: o mito do corpo abandonado. Preencher-se novamente é o Graal.”                                                                                                                                                                   Stanley Kelleman

Não era uma Lua nova. Era uma Lua cheia em eclipse total. Era uma Lua cheia completamente obscurecida pela sombra da Terra. Com uma imagem dessas rondando a minha cabeça altamente impressionável, lá fui eu ao primeiro desfile da minha vida (sem contar os que a gente fazia no quintal de casa, em criança, onde a boneca Suzie era a top-model). Era uma noite de Lua cheia totalmente encoberta pela sombra de Gaia. E a Lua, como se sabe, é um símbolo do feminino e da feminilidade. Um símbolo que, segundo o historiador Jean Markale, nós, mulheres, recebemos como prêmio de consolação dos homens, no período neolítico, quando eles finalmente descobriram (sendo, afinal, meio lentinhos para essas coisas) que participavam do milagre da reprodução. Porque parece que, antes disso, o Sol era nosso, já que éramos exclusivamente nós, as misteriosas e dadivosas divindades capazes de gerar a continuidade da vida e do mundo. Perdemos o Sol para os machos fecundadores e ganhamos a Lua, o que já significava uma razoável repressão das nossas qualidades para a noite e a escuridão. Sem ressentimentos, porém, já que a Lua é infinitamente mais acessível, no sentido próprio, como no figurado: ela recebe e acolhe, com tolerante suavidade, nossas mais queridas projeções e fantasias. Gosto do Sol, é claro, mas a Lua é muito mais minha praia. Talvez porque eu tenha nascido à meia-noite e meia e meu meio do céu seja escuro e profundo. Mas estou divagando ao sabor da Lua. Fui a um desfile do São Paulo Fashion Week porque sou curiosa como Eva e Pandora e gosto de olhar miticamente certas experiências que o coletivo consagra. Encerradas as preliminares, começou o desfile propriamente dito, já que o que as pessoas mais fazem nesse evento, pelo que percebi, é desfilar. Sentada sobre os meus ísquios, lá na arquibancada, eu vi uma procissão de virgens e nem tanto caminhando lentamente para o sacrifício. Mais ou menos como acontecia na cidade tolteca de Chichen-Itza, no velho México. Esquálidas, inexpressivas, anêmicas, andróginas, o olhar vazio do transe que precede a queda no poço, jovens muito jovens caminhavam em fila sobre uma passadeira branca, estranhamente rígidas e inclinadas para trás, num bizarro passo de ganso antes do fígado virar patê. Depois desapareciam na escuridão de uma passagem estreita, mas não eram empurradas para o fundo do poço. Não literalmente. Reapareciam trajando roupas diferentes. Isso durou uns parcos quinze ou vinte minutos, quando então todas entraram e se postaram diante da plateia, esboçando tímidos sorrisos de triunfo. Saí cismando para a noite iluminada do parque do Ibirapuera, pensando na conversa entre Stanley Kelleman e Joseph Campbell, publicada no livro “Mito e corpo”, de onde retirei a epígrafe desde post. A perda da realidade somática do feminino de que fala Kelleman está estampada em tantas imagens por aí que só mesmo os cegos não conseguem vê-la: a mulher eunuco pós-feminista, a mulher fálica que não se percebe uma perpétua subalterna no mundo dos homens, a mulher cuja cisão interna continua a servir o patriarcado contemporâneo, com seu discurso complacente mas não menos calhorda, a anoréxica e a bulímica, a mulher que troca valores atemporais por quinquilharias descartáveis, a mãe que não é mãe, a companheira que só sabe ser antagonista, a furiosa messalina infantilizada e carente, o paradoxo do corpo feminino, tão abandonado em sua inteireza quanto supervalorizado em sua exterioridade… No mundo do exigente deus Moda, uma divindade de segunda classe submetida às leis do grande deus Mercado, a encenação desses arremedos do feminino chega ao paroxismo. Esgotado, ridicularizado, uniformizado, exilado de si mesmo, doentio como a Lua cheia eclipsada pela sombra de uma Gaia arrasada, o feminino continua, de corpo e alma, subserviente e leal ao velho patriarcado, ocultado sob novas, múltiplas e supreendentes máscaras. Infelizmente não puder ver o desfile de Ronaldo Fraga, esse valete da Deusa que é também um vírus criativo e transgressivo, inoculado na Matrix da moda. Hoje quem vai ajudar a preencher o meu Graal é Woody Allen, com seu novo filme “Meia-noite em Paris”. Aliás, meia-noite e meia, com Lua cheia!

P.S. – Me esqueci de falar sobre o polêmico desfile em que as modelos desfilaram manietadas e / ou encabrestadas. Não ouvi nenhuma crítica que valesse a pena sobre o tema. Tudo muito maniqueísta e superficial, porque ninguém pareceu enxergar o símbolo por baixo da óbvia intenção de chocar e aparecer. Nem gente inteligente, como Glorinha Kalil, nem mesmo o estilista, que funcionou apenas como uma espécie de medium para o inconsciente coletivo. Mas ele estava lá, o símbolo, pondo a nu a realidade que o mundinho fashion quer encobrir sob camadas e camadas de tecido e discurso: mulheres que, de poderosas, não têm nada, longe disso. Bem amarradinhas e caladinhas em seus glamurosos looks de festa, elas me lembraram a Maria Antonieta de Sophia Coppola: literalmente uma vítima da moda.

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6 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Sueli Tomaz
    jun 18, 2011 @ 14:32:28

    Muito, muito bom!
    Adorei!

    Resposta

  2. ana letícia
    jun 19, 2011 @ 16:23:19

    A lucidez sempre afiada.

    Resposta

  3. Fabiana Corrêa Prando
    jun 20, 2011 @ 08:30:53

    Obrigada, Mulher-Esqueleto!
    Precisamos muito do seu olhar atento e de sua sensibilidade profunda.
    Nossa alma agradece!
    Beijos,
    Fabi

    Resposta

  4. rubens osorio
    jul 06, 2011 @ 15:18:16

    Enquanto houver mulheres que pensem como vc – mesmo que seja só vc! – ainda existe esperança de um mundo melhor, ou, pelo menos, menos pior…

    Resposta

  5. Cristiane Marino
    jul 31, 2011 @ 15:56:44

    Olá Eli!

    Estou voltando de férias e encontro seu texto afiado. Adorei!

    Sabe uma coisa que me chamou atenção em Paris?
    Embora seja teoricamente o Templo da Moda, a vida cotidiana é bem diferente. Há um respeito pela mulher como Ser, que não encontrei aqui. Lá a mulher é considerada um ser pensante! Não há essa cultura do corpo perfeito, de ginásticas e dietas e etc, Academia de ginástica é coisa estranha por lá. Há algumas de Pilates, Yoga e alguns Ginásios Poli-Esportivos. As mulheres mais velhas não tem o hábito de tingir os cabelos como aqui. Os outdoors nas ruas e nos metrôs mostram apenas a imagem do produto e o slogan, raramente se vê um rosto acompanhando o produto. Nas bancas de jornais você não vê centenas de revistas com mulheres na capa muito menos de biquinis e roupinhas coladas tentando vender a imagem do corpo perfeito . Nas revistas de teatro e cinema a grande maioria das fotos de atrizes é SEM fotoshop, com todas as rugas e manchas de pele, lindas!
    Houve uma revista que colocou a foto da Juliete Binoche com um pequeno retoque das rugas dos olhos e houve um protesto generalizado! Você imagina isso aqui? Eu adorei Paris!

    Bjs

    Resposta

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