Viagem tiética de Chico a Caetano

Aos dez anos de idade, eu amava Chico loucamente. Não surpreende: chispantes olhos verdes, dentes proeminentes de colegial, smoking alugado de moço de boa família em bailinho de clube. Já de Caetano, eu gostava e não gostava. O cabelo, demasiado parecido com o meu, portanto suspeito. O sorriso: grande demais para a cara miúda de mestiço. Aliás, moreno demais. O terno, nunca um terno de verdade. As canções: belas, mas estranhas, meio incompreensíveis para uma menina de dez anos. Caetano não se encaixava. Era um elemento que perturbava o mundinho tcháp-tchura da Jovem Guarda em que eu vivia mergulhada. Aos dez anos de idade, A Banda ressoava em mim muito mais do que Alegria, alegria. Torci por ela no festival em que Chico levou um prêmio duvidoso. Mas Caetano também ganhava todas as edições de um programa da TV Record que adorávamos assistir em família. Chamava-se Esta noite se improvisa e os participantes tinham de cantar uma canção em que aparecesse a palavra sorteada pelo apresentador. Caetano era imbatível. Não tinha para ninguém, quando ele estava presente. Tangos, boleros, ranchos, guarânias, marchinhas de carnaval… As palavras mais esdrúxulas… Ele se lembrava de tudo, cantava tudo de improviso (e sempre muito bem). Os outros convidados não tinham nem tempo de apertar o botão. Quando, décadas mais tarde, ouvi Jenipapo absoluto, entendi afinal. Era dona Canô, uma divindade ginecolátrica, espécie de Gaia-Mnemosine que acionava a competência de Caetano naqueles concursos como ainda faz hoje, de outras maneiras.  A prodigiosa memória afetivo-musical do menino ao pé da mãe fizera dele um competidor sem concorrentes. Desde sempre, Caetano foi, para mim, uma mistura de “tanino e mel”, como na metáfora que ele mesmo usa para caracterizar seu pai: doce-pungente, emoção filtrada pela peneira de uma razão completamente impregnada, ela também, de emoção. Mas vieram os anos de chumbo. Em meu coração adolescente, que não entendia bem o que se passava, Chico vencia Caetano por várias cabeças. Chico era Apolo, mesmo quando se fazia passar por Dioniso. No mito, as moçoilas amavam a imagem radiante de Apolo mas, em matéria de pegada, ele não fazia grande sucesso. Já Caetano era Dioniso e ponto. Ambivalente, polêmico, andrógino, inventivo, recusando os engajamentos óbvios impostos por aqueles tempos esquisitos… Chico não tinha ambiguidades: era um macho de esquerda. Caetano era uma metamorfose ambulante. Lembro de ter ido com uma prima mais velha ao centro da cidade e de lá ter comprado, num impulso, o LP recém-lançado que ele gravara no exílio em Londres. Museu do Disco. A capa me assustou e atraiu. Comprei e me arrependi na hora. A foto evocava e afrontava as fotos das capas dos LPs de Chico: sempre o close do moço bem apessoado em pose de estúdio fotográfico, foco nos olhos cujo verde se espalhava pela minha plantação. O rosto de Caetano, estampado na capa, era uma máscara de sofrimento. Os caracóis haviam crescido a ponto de virarem uma espessa juba ameaçadora. Uma barba incipiente, de adolescente, manchava o rosto abatido, emaciado, sem retoques de maquiagem. Um casaco branco peludo arrematava uma figura ao mesmo tempo vencida e provocativa. Cheguei em casa, botei o disco na vitrola portátil e ouvi pela primeira vez duas canções que até hoje me arrepiam quando escuto ou toco no violão: London, London e Maria Betânia. Também ouvi, pela enésima e primeira vez, Asa Branca ser cantada daquele jeito desgostoso, arrastado, denso, que é o jeito como eu mesma gosto de cantá-la, feito cego de feira. O verde que Caetano espalhava pela plantação era trágico: verde de gafanhotos, de inundação. O LP gravado em Londres por Caetano foi um marco no meu gosto musical. Tanto que logo me arrependi de ter me arrependido de tê-lo comprado. Chico passou. Caetano passou. Eu passei. E continuei comprando religiosamente, Natal após Natal, todos os LPs de Chico. Vez por outra, também comprava um de Caetano de que demorava a gostar, ao contrário do que acontecia com os discos de Chico, que eu sempre amava de primeira. Quando Caetano e Chico saiu finalmente (hoje sei disso), Apolo e Dioniso afinal se congraçaram e calibraram mutuamente. Mais tempo. Décadas. Nós três envelhecendo e envilecendo, como dizia o Rubem Braga. Chico ficando meio neurastênico e amargo, como todo marxista que ainda não levou a providencial tijolada do muro de Berlim na cabeça. Fazendo uns acordos mal ajambrados com o poder, passando procurações duvidosas… Em termos existenciais-musicais, Chico mudou pouco, penso eu. Já Caetano mudou tudo: afiando o senso de humor, rindo muito de si mesmo, encarando as maiores saias justas com estóica elegância, ainda recusando os reducionismos de qualquer natureza, experimentando-se em outras personas… Quando se deixou dilacerar, sem frescuras, pelas bacantes do Zé Celso no Teatro Oficina, entendi finalmente qual arquétipo Caetano encarna e com que precisa sutileza ele o faz, metamorfoseando-se em tudo sem, contudo, perder a essência de sua caetanice irrevogável. Olho agora para os dois, Caetano e Chico, quase a mesma idade, mesmíssima geração, experiências tão similares. Acho Chico acabado, sombrio. Acho Caetano lindo, vital. Ok. Ninguém ressoa, como Chico, as vozes do feminino; não sem temê-lo, é claro, e com toda razão. Todavia poucos homens sabem encarnar o feminino com a naturalidade de Caetano. Escuto, no estúdio de minha ruidosa cabeça, A Banda e depois Alegria, Alegria. Sei que a diferença entre ambos estava lá, desde sempre. Cheguei “em” Chico depressa demais. Demorei décadas para chegar “em” Caetano e ainda não estou lá. Chico está no controle de sua persona poética. Caetano não. Ele não teme o medo de se derramar, submeter, soar brega, cantar Coração materno, ser careta, incoerente e reacionário (uma palavra bestíssima, aliás, que não quer mais dizer rigorosamente nada). Caetano é um trovador no sentido original, provençal, do termo (não confundir com aquela cafonice plana do Oswaldo Montenegro, por favor). Se Chico é uma caixa de ressonância do coração feminino, Caetano é um servidor da vaca profana em tempo integral. Um cavalo da deusa, tataraneto da Senhora das Feras, bisneto de Cibele. Como Dioniso, Caetano atua pelo feminino e seu verbo é uma mulher, igual à protagonista de “Uma fábula sobre a fábula”, o conto de Malba Tahan: às vezes nua, às vezes coberta de peles rústicas, às vezes vestida como uma perua mítica. Voltando à maravilha que é Jenipapo absoluto, eu diria que, se Chico sabe, como poucos poetas, reunir o signo à rosa, Caetano põe o signo sob a rosa, o que, para mim, começa a fazer toda a diferença. O que não quer dizer que, na próxima semana, Chico não tenha recuperado a hegemonia.

Anúncios

12 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Fabiana Corrêa Prando
    abr 11, 2011 @ 12:27:06

    Lindo, lindo post, Eli!
    “Rapte-me camaleoa…” Só mesmo um servidor absoluto do feminino para fazer um convite assim. Salve, Caetano! Confesso que sou sua devota.
    Essa mulher-esqueleto está cada vez melhor!!!
    Beijos,
    Fabi

    Responder

  2. Lourdinha
    abr 11, 2011 @ 21:28:42

    Fcico pensando, pensando, pensando … Falamos no excesso de formalismo do Chico outro dia. Isso é fato. Mas ele também sabe dizer coisas como “[meu coração} é um pote até aqui de mágoa” e isso é poético, é genial, é visual, é uma tirada de mestre, não é? Ou “te perdoo (na ortografia nova é assim?) por te trair”, que faz a gente pensar … e pensar … pensar …

    Pra mim, Caetano chega mais depressa, com menos pensar e mais sentir, com mais coragem de se expor e expor sua carne viva, mais dengoso, mais humano, mais doce, mais chameguento.

    Sabe o que é o melhor de tudo isso? Não ter que escolher.

    Lourdinha

    Responder

    • elianaatihe
      abr 13, 2011 @ 08:53:03

      Isso mesmo! É quem vez que eu pendo mais pra um, tem outra vez que eu pendo mais pra outro.
      E vc escolheu logo uma das minhas favoritas do Chico, supergenial (Te perdoo por te trair). Assim é covardia!

      Responder

  3. rubens osorio
    abr 12, 2011 @ 17:41:35

    Vc é doida… adorei!

    Responder

  4. marcus
    abr 17, 2011 @ 20:25:04

    Querida Loba,
    Que bela Ode ao Belo Caetano.
    Pois é, a vida é real e de viés e quantas ciladas estão por vir.
    Compartilho contigo um texto que escrevi, sincronicamente, no dia em fui ver “As Bacantes” do Zé Celso e o nosso Caetano foi devorado, furiosamente, pelas mênades absortas em seus desejoslascívios espirituais.
    Acho que comungamos algo neste momento.
    Se quiser, passa lá:
    http://grupohimma.blogspot.com/2010/11/o-dia-em-que-caetano-convidou-um-homem.html
    Bjos,
    …Legionário…..

    Responder

  5. Tania Bernucci
    abr 21, 2011 @ 00:26:09

    Eli, acho que o esqueleto do Caetano encontrou a cabeleira, hoje ele reúne tudo o que resta quando a carne fenece. Já o Chico é irresistível, puro filé mignon (mesmo mal passado). Olhos verdes de felino e aquele mistério que Caetano não faz questão de ser. “Não diremos nada, nada aconteceu, apenas seguirei como encantado ao lado teu”. Amamos os dois, fazer o quê?
    Adorei seu texto (o da Páscoa também), beijo querida.

    Responder

  6. claudia lopez de freitas
    abr 24, 2011 @ 07:06:27

    Isso mesmo Rubens.
    Doida, e uma doida que eu gosto demais!
    Lindo, lindo e lindo o que vc escreveu.
    Uau.
    Bj, querida!

    Responder

  7. Tereza
    abr 27, 2011 @ 02:24:19

    Se eu fosse o Chico escreveria isso…kkkk…

    ‘Te perdôo
    Por fazeres mil perguntas
    Que em vidas que andam juntas
    Ninguém faz
    Te perdôo
    Por pedires perdão
    Por me amares demais

    Te perdôo
    Te perdôo por ligares
    Pra todos os lugares
    De onde eu vim
    Te perdôo
    Por ergueres a mão
    Por bateres em mim

    Te perdôo
    Quando anseio pelo instante de sair
    E rodar exuberante
    E me perder de ti
    Te perdôo
    Por quereres me ver
    Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)

    Te perdôo
    Por contares minhas horas
    Nas minhas demoras por aí
    Te perdôo
    Te perdôo porque choras
    Quando eu choro de rir
    Te perdôo
    Por te trair”

    Responder

  8. andrea albernaz
    set 14, 2011 @ 20:51:50

    Essas duas feras entraram na minha vida ainda menina,influencia de primos mais velhos. Me lembro que para ouvir Chico tinha que ser escondido,pois minha mãe não permitia que a gente escutasse ” aquelas músicas com letras sujas, subversivo,do cara que não tinha religião”hahaha,me lembrei disso…mas Caetano era bem vindo. Vai entender?rs Mas apesar da repressão, eles me acompanharam até hoje. São dois caras com estilos diferentes e com letras e músicas que são verdadeiras obras primas.
    Caetano …”e quando eu tiver saído para fora do teu círculo,Tempo, Tempo,não serei nem terás sido, Tempo,Tempo,mas ainda assim acredito,ser possível reunirmos-nos num outro nível de vínculo Tempo,Tempo……”
    Chico … ” como se nos amamos feito dois pagãos, teus seios ainda estão nas minhas mãos me explica com que cara eu vou sair, como se na desordem do armário embutido, meu paletó enlaça o seu vestido e o meu sapato ainda pisa no seu…” Enquanto lia o seu texto,jorrava as músicas na minha cabeça e me peguei cantarolando essas. Adorei seu texto. Agora vou desenterrar um LP do Caetano e escutar na minha vitrola em homenagem a voce.
    Beijos

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: