Amor e dor se fundem, na forja do coração feminino

O hermafrodita no centro do mundo

No boca a boca, o fogo se alastra. Assim tem sido com “Incêndios” (Incendies, 2010), filme do canadense Dennis Villeneuve e candidato “perdedor” na categoria Filme Estrangeiro do último Oscar. Depois de assistir aos grandes vencedores em cartaz, a gente começa a comer pelas beiradas. E essa é a melhor parte: imprevisível, nutritiva e saborosa, embora, por vezes, de um sabor que oscila entre o delicioso e o intragável. No caso deste filme magnífico, as beiradas continuam sapecando nossa língua por algum tempo, graças ao calor do prato de ferro incandescente onde ele nos é servido. Um conselho: vá preparado e bem acompanhado (de gente inquieta e sensível).  “Incêndios” não é uma experiência para incautos à procura de distração ligeira. Não é o tipo de filme que ganha Oscar, ah, não é mesmo, de jeito nenhum. Aliás o cartaz de divulgação deveria trazer um aviso: “Desaconselhável para desavisados; pense bem antes ou terá de pensar muito depois”. Seria mais honesto da parte dos distribuidores. Ou não seria. Os desavisados bem que merecem levar esse susto. Eu era um deles na matinê de domingo passado, enquanto esperava o filme começar, mascando ingênuas jujubas no saguão no meu querido Cine Lumiére, por cuja sobrevivência, sempre ameaçada, rezo pelo menos duas vezes por semana. Entro, sento, assisto aos trailers e… perplexidade: acho que estou no filme errado. Sem letreiros de abertura, uma sequência longa mostra uma paisagem verde meio calcinada. Dela passamos ao interior de um casebre arruinado, onde tipos que me parecem soldados de uma milícia tosquiam um grupo de meninos morenos, descalços, obedientes. Um rito iniciático cru, bruto, cujo sentido escapa completamente ao expectador. Enquanto a tosquia prossegue, um dos meninos olha diretamente para mim, que estou sentada na poltrona, com olhos indiferentes e trágicos. Engasgo com uma jujuba. Enquanto me refaço, a câmera revela que esse menino tem três pontinhos pretos idênticos, simetricamente tatuados no calcanhar. Três é o número desta história. Corta. Um grande título aparece na tela: “Os gêmeos”. Devo ter entrado no filme errado, coisa que já me aconteceu no Lumiére, devido à complexidade de ter de escolher entre duas salas. Pouco a pouco fica claro que entrei mesmo no filme errado. Eu, que apenas procurava uma distração razoavelmente inteligente para a tarde garoenta de um deprimente domingo. Mesmo estando no filme errado, caio no enredo feito uma mosca tonta na teia da aranha. Não vai dar para trocar de filme agora. Quero saber aonde vai dar essa história que começa com a morte de uma mulher misteriosa. Amo histórias narradas de trás para frente. Na tela, um casal de irmãos gêmeos, adultos jovens, senta-se diante de um tabelião competente e afável para ouvir a leitura do testamento da mãe. O texto soa (para nós e para eles) como um soco no estômago. A filha fica chocada com as exigências da mãe, mas as acolhe. Seu irmão, contudo, reage contrariado, afirmando que se a mãe não soube ser normal em vida, terá de ser, ao menos, um defunto normal. A filha quer ouvir até o fim. O filho sai da sala, consternado. O mediador, arquetípico, negocia pacientemente. Além de algumas exigências estapafúrdias, a defunta deixa-lhes um “mapa do tesouro” às avessas como herança. Movida pela compaixão, a moça, uma matemática de formação, decide desvendar essa mãe incógnita. Inicia-se então uma jornada épica entre o Canadá e o Líbano, ao longo da qual ela seguirá os rastros meio apagados de uma história da qual também é personagem principal. Relutante a princípio, o filho termina por aderir ao projeto. Nesse momento, os dois viram um: indivíduos polares e complementares, os gêmeos encarnam o arquétipo do hermafrodita, passando assim a alternar suas naturezas e competências, fundindo-se para encontrar, enfim, a verdade terrível e redentora para todos, vivos e mortos. Com essas informações truncadas, caro leitor, eu não pretendo macular sua ignorância, mas apenas instigá-lo a arriscá-la. Você está mal e porcamente preparado para viver uma experiência atordoante. Não posso lhe prometer imunidade, o que, na verdade, é sorte sua. Também não posso me meter a escolher seu acompanhante, mas repito: não vá sozinho, muito menos “mal” acompanhado. “Incêndios” é um filme que implora por uma conversa que acalme o incêndio que campeia dentro de nós, quando as luzes da sala se acendem. Uma conversa que dome as chamas. Para tentar compreender as chamas. Para acariciar as chamas e saber que elas tanto podem destruir o mundo quanto forjá-lo de novo. O choque do final estupendo depende de você ser, como eu, um não iniciado. Na forja do coração dilacerado de uma mulher, o ferro da violência que retalha pessoas, famílias e nações será integrado e transformado, a seu tempo – ao menos nessa metáfora -, por um feminino inundado de amor. Vocês entendem porque, quanto sinto vontade de ir à igreja, vou ao cinema.

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Lourdinha
    mar 24, 2011 @ 19:21:37

    Acabei de chegar do filme. Ainda estou sentindo o soco no estômago. Amei seu texto, como sempre, da jujuba ao incêndio interior.

    A Jeanne do filme, que está tendo sua primeira chance de se experimentar ou se descobrir “loba”, vai com tudo para dentro da floresta, né? Corajosa, curiosa, intuitiva, lá vai ela à procura da sombra para aprender a conviver com ela. E ainda carrega o irmão junto. Que bela personagem para termos entre nós da matilha!

    Beijo.

    Responder

  2. Cristiane Marino
    mar 30, 2011 @ 18:50:57

    Olá Eliana!
    Nossa que filme hein!
    Acho que você gostará do sul coreano “Poesia”, é belíssimo, mas também não é para incautos. Só a atuação da protagonista, já vale o flme.
    Bjs
    Cris

    Responder

  3. rubens osorio
    abr 12, 2011 @ 17:45:40

    O duro é que aqui – no interiorrrr – um filme assim não chega nunca. Resta ve-lo em DVD…

    Responder

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