Entre Carnaval e Quaresma: sabotando uma educação iconoclasta

Do meu book de infância

Cenário OK. Fantasia não.

Quando criança, eu não podia pular carnaval, porque minha mãe era batista e o carnaval era uma festa do diabo. Meu pai, que pertencia a uma modalidade insegura de livre pensador, tentava compensar nossa frustração. Apesar de não pretender instaurar uma guerra santa dentro de casa (já havia guerras demais rolando por lá), ele nos comprava espirradeiras de plástico e sacos de confete e serpentina, como prêmio de consolação para quem não podia se divertir na matinê do clube enquanto esperava a hora de morrer e ir para o céu (onde, lamento dizer, dificilmente haveria baile de carnaval). Eventualmente a gente também ganhava umas máscaras de papelão com uns buracos para os olhos, que não se encaixavam direito. Figuras de pesadelo: piratas, palhaços, princesas, bailarinas (como a gente sabia disso, se elas só tinham cabeça?), todos deformados, medonhos e ainda por cima com aqueles olhos vazados… Havia também as máscaras de diabo (mas essas meu pai não comprava, porque sabia que iriam direto para a lata do lixo). Naquela época, eu daria um dedo mindinho para usar uma genuína fantasia de havaiana, com saia de fiapos de papel, bustiê, colares, pulseiras e tornozeleiras enfeitadas com grandes flores de plástico colorido. Fantasia, porém, nem pensar. Minha mãe só admitia que a gente se fantasiasse nos teatrinhos da igreja. Neles fui o anjo do natal, Chapeuzinho Vermelho, a fada madrinha da Cinderela etc, o que já estava muito bom. Melhor, aliás, do que a maioria das minhas amigas que podiam pular, mas que, como fantasia, conseguiam, no máximo, um sarongue feito com lenços da tia. Eu me vingava de não poder me fantasiar no carnaval jogando maldosamente sangue de diabo nos carros que passavam em frente à minha casa. Sangue de diabo caseiro. Numa época de vidros sempre abertos, movidos a lentas manivelas, minha diabólica vingança surtia um bom efeito. Na infância, minha paixão pelas imagens nutriu-se – e muito – desses interditos maternos. Outra situação interessante acontecia na casa da minha professora de piano, uma moça casadoira e muito católica, devota de uma infinidade de santos que pareciam saltar de todos os lugares para onde a gente olhava. Estampas de santos ficavam encaixadas nas beiradas da janela, em cima das portas, deitadas no encosto do sofá-cama onde ela dormia… De seus postos, eles assistiam, mudos e um pouco atarantados, minhas impiedosas investidas contra o teclado. Pousada sobre o armário do piano, me fitava, de cima, uma formidável imagem de Nossa Senhora Aparecida, vestida com uma capa recoberta de vidrilhos azuis. Eu estudava as insuportáveis escalas do Hannon, os malfadados exercícios do Czerny, mal conseguindo desgrudar os olhos daquela estranha deusa negra e azul. Ela, por sua vez, me olhava com ar compungido, talvez pensando: “Pobre garotinha sem talento…”. Algumas daquelas imagens proibidas me fascinavam a ponto de eu chegar a surrupiar estampas de santinhos da minha professora (pecado que deve dar aí uns trinta anos de purgatório, imagino eu). Por algum tempo, mantive um baralho de santos roubados, muito bem escondido numa caixinha trancada a chave. Imagino que minha professora fizesse vista grossa aos meus rearranjos para disfarçar os espaços vazios nas fileiras de implacáveis guardiões de sua virgindade. No meu caso, o resultado de tanta repressão foi que fiquei viciada em imagens, frustrando totalmente os planos iconoclastas de minha mãe de me tornar uma protestante empedernida. Na adolescência, colecionei a série Mitologia da Editora Abril e forrei as paredes do meu quarto com fotos das capas dos fascículos: imagens de deuses gregos. A essas alturas do campeonato, minha mãe já tinha tirado parte do seu time monoteísta de campo. E o mal, convenhamos, já estava feito. Até tentei por algum tempo, mas minha natureza politeísta acabou vencendo.

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14 Comentários (+adicionar seu?)

  1. anale
    mar 09, 2011 @ 22:40:51

    Que texto delicioso!!! Beijos e saudades…

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  2. Maria Cecília Sanchez Teixeira
    mar 10, 2011 @ 17:12:47

    Pelo visto você deixou mesmo a preguiça de lado, pois já produziu tantos textos! Este sobre as proibições do carnaval me trouxe muitas lembranças. Meus pais não eram tão rigorosos, eu só não podia ir ao clube, mas tinha direito à lança perfume, serpentina, confete, sangue de diabo, máscaras. Fantasia também não. Talvez seja por isso que sempre tive vontade de ir a um baile de máscaras.
    Bjs,
    Cecília

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  3. claudia lopez de freitas
    mar 10, 2011 @ 22:00:14

    Caramba! Eu não sabia que vc tinha estudado piano! Que legal!
    Mas… Hannon e Czerny sob a vigilância da santa negona ninguém merece, hein?
    Coitadinha de vc! Ainda bem que poucos anos depois eu surgi em sua vida com todo o meu bom gosto, incentivando-a a lançar o tal compacto!
    Com certeza, o mundo ficou melhor depois disso! kkkkkkkkkk!!!!!!!!!!!!!
    Amei seu texto!

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    • elianaatihe
      mar 11, 2011 @ 17:26:17

      Seu bom gosto musical me influenciou muitíssimo, colega. Aquele trio calafrio boliviano que vc e minha irmã escutavam em casa promoveu experiências genuinamente viscerais em mim. Será que alguém pensou que era um disco voador?

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  4. Fabiana Corrêa Prando
    mar 12, 2011 @ 09:12:17

    Lindo, Eli!
    Seu relato é a prova inconteste da força do daimon…
    E que foto fofa!!!
    Obrigada por abrir o baú das heranças familiares.
    Beijos,
    Fabi

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  5. Mariluza Abrahao
    mar 12, 2011 @ 13:35:24

    Que gostoso de ler. Lembranças de infância, isso é muito bom. Quero depois esclarecer que história é essa de lançar um compacto… Mais uma qualidade tua que desconheço. Bjs mariluza

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  6. Sergio Paulo Sider
    mar 14, 2011 @ 20:49:20

    Oi Eliana,
    Legal… lembranças da infância.
    Infelizmente, Hannon e Czerny, eram tortura para mim. A maior alegria da semana era quando a “véia” (apelido da professora) tinha que faltar. O eventual telefonema era mais esperado do que os presentes debaixo da árvore.
    Sete anos de estudo e sei tocar o bife. Segundo a “véia”, eu tinha talento… mas tudo imposto para mim teve o efeito contrário.
    Sobre a educação iconoclasta, no meu caso incluia mais: música e letra. Jesus Cristo do Roberto Carlos feria o terceiro mandamento.

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    • elianaatihe
      mar 15, 2011 @ 10:33:13

      Ah! Uma aula de piano cancelada era mesmo uma alegria! O fato é que o que vc é hoje (uma pessoa um bocado interessante) é o resultado de toda essa alquimia, seus venenos e seus bálsamos. Bjs

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  7. Lourdinha
    mar 15, 2011 @ 17:00:43

    Pra gente ver que se se aperta de um lado, explode do outro!

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  8. Ana Lucia
    mar 18, 2011 @ 10:20:01

    Eliana, Menina, Mulher, Sagrado Aspecto Feminino.
    Foi naquele Carnaval que passou……
    (sic. Vó Cecilia) – Aristides (pai, militar) “Não deixa a Lúcia ir pro Carnaval, pq o diabo está solto em cada esquina!”.
    sic: Minhas Primas): Deixa Tio!!!!! A mãe e o pai vai levar-nos ao clube.
    sic(eu). Deixa, pai… Deixa…. Eu vou…Fui.! Eram 4 noites e matinês!
    Foi a época mais saudável da minha Vida. Pq. qdo chegou o ciclo (29 anos), Casei e estava pronta p/ o trabalho interno de reeducação familiar. Viva a Alegria! Abraço Carinhoso. Anita. Conheça meu Blog KI-TUTES MÃE FARINHA, na página seguidores da Cristiane.

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    • elianaatihe
      mar 18, 2011 @ 18:38:27

      Anita! Que bom te conhecer! Adorei seu comentário! Vou visitar seu blog, claro! Seja bem vinda ao da Mulher-Esqueleto! Apareça sempre que puder, pra tomar um cafezinho digital. Bjs

      Resposta

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