Um mestre das metamorfoses

Durão suave: um mediador de opostos

Se você ainda não entendeu o que é metanoia, a grande virada que a gente dá no meio do caminho da vida a fim de não virar estátua de sal, é só seguir a pista das histórias que esse homem conta. Começou encarnando, por anos a fio, um tipo cínico, vingativo e misantropo, de arma cronicamente engatilhada, poucas palavras, pouquíssimos amigos. Quando já parecia congelado, ele renegou e humilhou o estereótipo que lhe deu fama e fortuna (Os imperdoáveis). Depois se apaixonou por uma gordinha de meia idade, com quem co-estrelou uma história de amor de mulherzinha (As pontes de Madison). Daí retomou e reinventou o tipo durão, encarnando um treinador-demiurgo, rigoroso e paternal, que praticava eutanásia em sua adorada criatura (Menina de ouro). Ambivalente, polêmico, revisitou a Segunda Guerra com olhos orientais (Cartas de Iwo Jima) e ocidentais (A conquista da honra). Em Gran Torino, recuperou, pelo avesso, o campeão da democracia americana, um velho reaça e impotente, crucificando-o para salvar um bando de imigrantes orientais. Depois de adaptar com competência o bacanérrimo Sobre meninos e lobos, romance noir de Dennis Lehane, ele retomou o tema dos predadores em A troca, filme em que conseguiu a façanha de enquadrar Angelina Jolie no papel de mãe coragem. Não contente, armou um enredo político-esportivo em que puer e sênex se juntam numa complexa parceria de antagonismos e complementaridades, para tentar unir seu país dilacerado (Invictus). O arquétipo puer-senex, aliás, foi magnificamente explorado por ele, não apenas em Invictus, como também em Menina de ouro e Gran Torino, filmes sobre a dura e bela tarefa de integrar a alteridade, envelhecer e tornar-se sábio. Melhor aos oitenta que aos quarenta, agora fascinado pelo derradeiro mistério que se avizinha, ele nos olha de esguelha com seus olhos azuis sem idade, dá uma cusparada irônica e muda de pele, mais uma vez. Diante do arquétipo da morte, esse mediador de opostos resolve falar aos vivos sobre a vida que há para viver. No próximo post, leia minhas impressões sobre Além da vida, o mais recente filme do camaleão Clint Eastwood, atualmente em cartaz na cidade.

Anúncios

3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Mariluza Abrahao
    jan 19, 2011 @ 15:40:46

    Passei pelo teu site e encontrei como sempre,postagens maravilhosas. Realmente um mestre das metamorfose este Clinton. Parabéns Eli. Bjs

    Responder

  2. Gabriel M. Santucci
    jan 29, 2011 @ 12:33:00

    Gostei muito desde post.
    Ando um pouco desatualizado de Clint, mas também achei muito inteligente o ‘Changeling’. Realmente ele tirou a atriz de dentro da Jolie.
    ‘Invictus’ , ‘Grand Torino’, e outros estao aqui na videoteka do meu computer e nao consegui assistir ainda.

    Bjs e obrigado por mais excelentes sugestões,

    Gabriel.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: