De matilhas a alcateias: dois anos lendo, juntas, “Mulheres que correm com os lobos”

Porta de lojinha em Lourmarin, na Provence

Talvez este devesse ter sido o derradeiro post de 2010. Agora será o primeiro de 2011. A agonia do ano velho costuma ser atropelada por uma ansiedade que inviabiliza os dias do mês de dezembro para as revisões, ao menos as que valem a pena. As que pedem quilômetros de caminhada sem rumo, horas de conversa fiada, noites bem sonhadas, páginas de livros preguiçosamente lidas, cenas de filmes assistidas e comentadas na companhia de gente de quem se gosta, uns tantos litros de caipirinha, eventuais rodadas de buraco, se possível um ou dois crepúsculos daqueles bem alaranjados… Revisões assim levam tempo para baixar, geralmente tempo de férias, palmilhado em sandálias havaianas, vivido na taba, gloriosamente desperdiçado. Uma combinação imprevista de trapalhadas de fim de ano com recordações de deuses e flores me livrou da tentação de escrever uma retrospectiva com padrão globo de qualidade. Hoje, na agonia das férias de verão, quero revisitar (e convidar outras pessoas a revisitarem) a estupenda experiência de ler em grupo, ao longo de dois anos, “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés. Começamos em 2009, no ateliê Ocuili recém-nascido, com meia dúzia de mulheres inquietas, novidadeiras, porretas. Era a primeira de três matilhas, todas formadas por cachorrinhas bem adestradas, leitoras leais, sonhadoras sem medo, amigas velhas, novas e recém-descobertas. Almas nada básicas, todas vivendo limiares, trocando de pele, liberando filhos, tentando renovar votos, escrevendo teses, reinventando-se, encerrando histórias, estreando temporadas, desencavando dons… A gente não sabia no que ia dar, se ia pegar, se ia durar, como ia ser. Logo, porém, éramos três matilhas em marcha, nascidas para virar alcateias. Teve gente que caiu fora e a gente acha que foi de medo. Não somos falsas modestas. Dá muito medo mesmo chegar perto do coração da mulher selvagem. Não é para qualquer um. Só Vassilissas arretadas seguram essa onda. O primeiro grupo encerrou a leitura de “Mulheres” em dezembro e já começa 2011 comprometido com mais dois livros: “A ciranda das mulheres sábias”, da mesma Clarissa, nossa fêmea-alfa de plantão, seguido de “O código do ser”, de James Hillman, cuja leitura deve começar somente depois do carnaval. O segundo grupo segue na trilha da mulher-esqueleto, conto-tema deste blog e do capítulo 5 de “Mulheres”. O terceiro grupo, que era quinzenal, torna-se semanal em 2011, para poder caminhar mais depressa pela floresta lado a lado com Vassilissa, a heroína do capítulo 3. Nosso método é o do prazer. Nosso vínculo é o da amizade entre mulheres: ruidosa, bifurcada e bipolar, adubada com lágrimas e risadas, chá e biscoitinhos. Nosso ritmo é o do feminino: lento, circular, repetitivo, criador, com direito a ciclos de penumbra e umidade. Nosso tempo é dado: largamos tudo o que estamos fazendo e vamos desperdiçá-lo juntas, muito coerentemente, com certas coisas que o senso comum considera inúteis, mas que, para nós, são essenciais. Nossa rede de conexões é uma teia embaraçada com filmes, outros livros, baralhos de tarô, sonhos, viagens, amplificações em todas as direções, imagens e mais imagens. E prosseguimos, contra todos os vaticínios pragmáticos. Noite adentro, floresta adentro, alma adentro, despertando nossa intuição soterrada e aprendendo a devorar casinhas de chocolate, para fazer amizade com as bruxas que moram nelas. Como diz a Clarissa: jovens enquanto velhas, velhas enquanto jovens. Evoé, garotas!  Para cima com a viga em 2011!

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9 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Ana Luísa Lacombe
    jan 14, 2011 @ 22:31:40

    Que nossas matilhas circulem por florestas escuras, clareiras, relva florida, ou noite escura… Mas que este mundo nos ajude a entender, viver e estar na vida. Parceiras e cúmplices destas histórias…
    Boa jornada para nós!
    Beijos
    Analú

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  2. Malu Borghi
    jan 15, 2011 @ 09:40:20

    Eli,

    estou muito ansiosa para iniciar as novas leituras. Espero que Saturno me deixe em paz para poder desfrutar dos momentos de reflexão, que foram engolidos em 2010.
    Beijos e até breve

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  3. Vanessa Meriqui
    jan 18, 2011 @ 13:10:53

    Lobas queridas, bem diz a Eli “não é para qualquer um”. E não é mesmo. Mas nós somos nós e queremos mais, muito mais. Em volta de uma mesa, com biscoitos ou frutas; em volta de uma fogueira, com espíritos do fogo; em volta de nós mesmas, acompanhadas de nossas emoções, indagações, buscas e muita coragem. Sim, 2011 será maravilhoso para que todas nós possamos continuar nossa jornada.
    beijos a todas. Até mais.

    Resposta

  4. Mariluza Abrahao
    jan 19, 2011 @ 17:05:23

    Eli. relembrando os nossos encontros com a leitura desta tua matéria, mal posso segurar a ansiedade de recomeçarmos estes momentos tão ricos e tão gratificantes das tardes de 3as feiras. Bjs

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  5. Fabiana Prando
    jan 19, 2011 @ 19:54:20

    Lobas queridas!!!
    Que privilegio fazer parte dessa matilha, percorrer com vocês o caminho de volta a natureza selvagem.
    Hoje sonhei com uma velha espevitada que me olhava nos olhos e molhava a saia rodada de pano gasto pra contar historias. Acordei emocionada e saudosa das nossas rodas semanais, anotei o sonho pra contar pra Eli e celebrar a preciosidade dos momentos que vivemos e partilhamos juntas. Viva a matilha!!!

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  6. claudia lopez de freitas
    jan 20, 2011 @ 09:03:25

    É sempre tão bom ler e relembrar de alguns poucos momentos que eu estive aí.
    Agradeço a vc, sua irmã, e todas as outras meninas que fazem parte do grupo. Sempre que eu estou perto desse tipo de coisa (aí, e no resto da vida, em algumas situações), saio renovada e feliz porque percebo que minha boa loucura é cercada de cúmplices. Basta um olhar mais atento. Obrigada de coração. Bj!

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  7. Maria Cecília Sanchez Teixeira
    jan 20, 2011 @ 16:51:02

    Você tem toda razão sobre a necessidade do recolhimento para que se possa bem compreender todo o processo do que se passou nas matilhas. E ai está este texto, maravilhos como sempre, marcando os nosso “progressos”, o nosso envolvimento, a nossa busca, num ritmo que vai na contramão de tudo o que nos exige a sociedade.
    E isso não é fácil. Com certeza estamos ouvindo o chamado do daimon como diria Hillman.
    Cecília

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  8. Lourdinha
    jan 20, 2011 @ 21:04:09

    Que bom fazer parte disso!!!!!!!!

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