Macaca de auditório

Comprei o último CD do Arnaldo Antunes, “Ao vivo lá em casa”. Renovei minha assinatura de macaca de auditório. Há 25 ou 30 anos, eu fazia isso todo fim de ano com o LP do Chico. Não que a gente precise ser persuadida a cada novo lançamento de que o cara é o cara. Mas faz bem saber que ele continua sendo o cara e que vale a pena continuar sendo sua macaca de auditório, apesar dos constrangimentos inerentes à função. Minha entrada nessa categoria do Arnaldo já tem uns 10 anos. Confesso que gostei quando ele resolveu promover uma titanomaquia e inaugurou carreira solo.  Ficou Arnaldo concentrado: uma gota em 10 litros de água para renovar o velho e envelhecer o novo, para aplicar vida na veia da poesia e vice-versa. Esses dias, “Qualquer” grudou nas minhas sinapses e eu fiquei cantando, cantarolando, assobiando aquela melodia mais linda, estilo oriental de desenho animado, inventando pedaços da letra de que eu me esquecia … Passei o vírus para o meu filho, que também saiu assobiando, cantando, cantarolando… Arnaldo é assim: faixa etária não é com ele. O grude já era um aviso: hora de comprar o último CD. Até o próximo sair, esse será o meu predileto do Arnaldo, que está na minha lista das 50 melhores coisas do mundo. Por falar em 50, se você tem 50 ou mais, escute “Envelhecer”, para entender, agradecer e cantar bem alto no chuveiro: “Velho gagá, á-á-á!!”. No penúltimo CD, o arqueo-Arnaldo já tinha retirado algumas preciosidades do fundo da mina desabada do ié-ié-ié. Neste, ele faz um baile de fundo de quintal literal, com roquinhos falsamente toscos, arranjos engraçados, algumas letras ótimas ou que ele faz ficarem ótimas (ouça “Quando você decidir”, de Odair José, e “Vou festejar”, de Jorge Aragão, pra rolar de rir). Também convida uns dinossauros majestosos pra cantar junto (Erasmo e Jorge Benjor, sem falar em Adoniran, desencarnado, com quem ele fecha o CD). Arnaldo sabe fazer aquela reciclagem em que porcaria vira coisa boa e que caracteriza um jeito de ser e de fazer música que é inteligente por natureza, sem precisar posar de semiótico-pernóstico (e não estou me referindo ao Caetano, que pode ser pernóstico e não faz questão nenhuma de ser semiótico). ´”Órguinho”, bateria de garagem, backing vocals hilariantes: se você sabe o que foi o ié-ié-ié, vai se divertir. Se não sabe, vai aprender. Um aparte para a minha favorita:  “As melhores coisas”. Para ouvir rezando, relembrando, sorrindo-e-chorando. Arnaldoooooooooooooo!!! Lindooooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. claudia lopez de freitas
    dez 15, 2010 @ 23:58:11

    Que decepção… Depois de um texto tão gostoso sobre os seriadinhos, leio vc amando esse tal de Arnaldo, esquecendo completamente da melhor música de todos os tempos… aquela que realmente mexeu com sua alma da maneira mais profunda e poética, a ponto de vc abrir a janela enlouquecida de alegria no real sentido da palavra, e fazer o “lançamento” do melhor disco (aquele compacto maravilhoso) para a rua Vieira de Moraes e para o mundo!
    “ILUMINA-ME, EDIFICA-ME SENHORRRRRRRRRRRR!!!!!!!!!!”
    Isso sim que era música. Esse tal de Arnaldo não tá com nada.

    Resposta

    • elianaatihe
      dez 16, 2010 @ 10:17:53

      Ainda bem que tenho vc para me iluminar, irmã Claudia. Entrei pelo caminho fácil da perdição e me esqueci do que é a verdadeira qualidade musical. Essa melodia maviosa marcou a minha vida, em especial aquele momento edificando em que arremessei o compacto simples pela janela do 16o andar do edifício (por isso foi edificante), lembra? Inspiradora a sua mensagem… Bjs

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      • claudia lopez de freitas
        dez 16, 2010 @ 23:09:49

        Edifício edificante… mensagem melódica inspiradora de um passado alucinante… chilique de tpm com direito a janela aberta e lançamento de compacto simples e simplesmente estonteante… é isso! só poesia… só filé… Isso sim esse tal de Arnaldo deveria conhecer!

      • elianaatihe
        dez 17, 2010 @ 19:03:32

        Mas ele não foi adolescente na igreja batista, coitadinho… Tenha dó dele… e de nós tb.

  2. patricia
    jan 04, 2011 @ 13:08:13

    eu sou fã de carteirinha da poeisa do arnaldo…. desde os anos 80, ainda no lira paulistana!

    Resposta

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