Lucy, Patty, Samantha, Jeannie, Irmã Bertrile…

Seriados

Eram todas minhas amigas, ainda que eu fosse uma pirralha de dez anos de idade e elas, quase sempre, mulheres adultas ou algo parecido. Da decana Lucy, aprendi que ser doidivanas é só o pode nos resguardar da loucura literal de ser dona de casa e mãe. De Patty Duke, aprendi que ser boazinha (c0mo a Patty) é tão importante quanto ser malvadinha (como a Cathy): tudo é apenas uma questão de dose, timing e contexto. De Samantha, aprendi que, ainda que a gente tenha poder para melhorar certas coisas, deve evitar fazê-lo, pelo bem da mediocridade reinante. De Jeannie, aprendi que, se a gente tem poder é para usar e não para engarrafar e arrolhar. De Irmã Bertrile, aprendi que voar é apenas uma questão de combinar baixo peso com acessórios aerodinâmicos e uma boa dose de hiperatividade.

irma bertrile

Elas passavam o tempo todo às voltas com maridos chatos e controladores (Ricky Ricardo, péssimo cantor, que morria de medo do talento da Lucy, e James Stevens, cagão, intelectualmente limitado e, ainda por cima, feio como a peste), amados indecisos, atrapalhados e lindos de morrer (o major Anthony Nelson), vizinhas enxeridas e neuróticas (Ethel, a amiga inseparável de Lucy, e minha predileta, a sra. Gladys Kravitz, com seu impagável marido Abner), superiores paranóicos ou desonestos (o Dr. Bellows e Larry Tate), amigos vitimados pela implacável bondade feminina (Carlos Ramirez, dono do célebre Cassino Carlos a Go Go) ou amigos galinhas meio sociopatas (o major Roger Rilley), mães poderosas e manipuladoras (a maravilhosa Endora, que perseguia o insuportável James sem descanso), figuras femininas opostas complementares (a irmã da Jeannie, cujo nome nem eu mesma lembro, e a super-sexy Serena, prima da Samantha, ambas morenaças e, claro, malvadas, e a prima sapeca da Patty, Cathy, que era a cara e o avesso da primeira). E havia ainda tias(os) velhas(os) divertidas(0s) e infernizantes (tio Arthur, tia Ágata, tia Encanta e a tia Clara, todos da Samantha), etc etc etc…

Samantha-and-Serena-boogie-it-up-bewitched-2528078-547-431

A ordem do dia era a seguinte: perder tempo e queimar neurônios na escola; voltar para casa, almoçar e fazer a inútil lição; brincar com as amigas da rua; voltar, tomar banho e assistir seriados até o hora do jantar. Que delícia era frequentar a escola sentimental vespertina dos maravilhosos seriados americanos que passavam na ingênua TV brasileira dos anos 1960!  As imagens do feminino que encontrei neles, ao mesmo tempo estereotípicas e arquetípicas, me ensinaram muitas coisas sobre ser mulher, num mundo em transformação feroz. Na Sessão da Tarde, a gente via e revia clássicos do cinema nos anos de ouro 1940-50: dramalhões como “Imitação da vida”, “Flores do pó”, “Jezabel”, “A malvada”, “Mulhezinhas”. Neles as mulheres eram intensas, um pouco maquiadas e penteadas demais, quase sempre trágicas: Bette Davis, Lana Turner, Jane Wyman, Deborah Kerr, que fizeram as cabeças e corações de nossas mães… Mas quando Vênus despontava no céu, aquelas queridas amigas, tão normais e leves, entravam em cena, para transformar em risadas todas as confusões literais e desagradáveis que nossas famílias viviam no dia a dia e nas quais éramos inadvertidamente arroladas como figurantes. Obrigada, garotas ! Foi muito bom ter sido educada por todas vocês!

endora

Anúncios

14 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Cristiane Marino
    dez 13, 2010 @ 21:41:09

    Menina, que saudades da minha infância!
    Adorei este texto!
    Bjs
    Cris

    Responder

  2. claudia lopez de freitas
    dez 14, 2010 @ 05:11:46

    Tenho muita saudade desse tempo dos seriadinhos.
    Na fase em que me encontrava na vida, vivendo naquela casa,
    as estórias contadas ali eram só refresco num dia a dia chato e infeliz.
    Vc tem razão… Se analizamos um pouquinho só o perfil dessas mulheres,
    tinha um certo poder nas entrelinhas, que nos ensinou sem querer (ou por querer) a “dar a dobra” em tantas situações que fogem do nosso controle.
    Delícia de texto. Bj!

    Responder

    • elianaatihe
      dez 15, 2010 @ 09:46:58

      Sei que tem um pentelhos paranóicos por aí que dizem que esses seriados eram agentes imperialistas, mas acho que o problema deles é que eles não tinham televisão ou os pais eram chatos e não deixavam eles assistirem. Aquilo era um bálsamo de graça e de alto astral e as mulheres mandavam e desmandavam naquele mundo imperfeito e divertido.

      Responder

  3. Ana Luísa Lacombe
    dez 15, 2010 @ 11:20:48

    Delicia total! Quem não quis ser a Jeannie ou a Samantha algum dia na vida? Quem nunca cruzou os bracinhos e deu aquela piscadinha mágica?
    Adorava a Endora (sua ironia, irreverência e malvadezinha com James…) e adorava Tia Clara (meio maluquinha, esquecida, atrapalhada, errando as mágicas…).
    Recordar é Viver…
    Beijos

    Responder

    • elianaatihe
      dez 15, 2010 @ 13:14:24

      Minha tia Adelaide (aquela que não se casou para evitar de ir para a cadeia por assassinato de marido) era igualzinha à ti Clara. Vou ter de pegar uns filiminhos da Samantha hoje na locadora. Ai, que saudades… Bjs

      Responder

  4. claudia lopez de freitas
    dez 15, 2010 @ 11:56:46

    O Lúcio sempre compara minha mãe com a Endora (hahahahahahaha!!!!!)
    Mas sempre acho que ele é beeeeeeeeeeeeem mais gato e bem mais bacana que aquele marido pentelho da Samantha! Bj!!!

    Responder

  5. Maria Cecília Sanchez Teixeira
    dez 15, 2010 @ 14:45:35

    Veja que coincidência. Esses dias aqui, sem o que fazer vi um documentário sobre Elisabeth Montgmery, grande atriz que acabou se confundindo com Samantha. Quando o seriado terminou ela chegou a trabalhar em outros filmes e seriados, mas ficou marcada pela força da personagem. Morreu cedo, se não engano com 69 anos, de um câncer grave. Mas, de todas as personagens que você lembra, eu adorava a Samantha e a Jeanny. Realmente elas nos ensinaram preciosas lições de como lidar com maridos chatos e noivos maravilhosos, mas principalmente, com as situações cotidianas com humor, esperteza e paciência.
    Cecíia

    Responder

    • elianaatihe
      dez 15, 2010 @ 15:13:52

      É mesmo. Me lembro da Elizabeth Montgomery fazendo um papel sinistro: o de Lizzy Borden, uma solteirona travada que, nos confins dos EUA puritano do século 19, mata os pais e vai para a forca. Assisti faz muito tempo e me impressionou como ela desempenhou bem aquele papel sombrio. O filme se chamava “A lenda de Lizzy Borden”, ou essa era a tradução cretina do título original, pq depois li um artigo sobre o caso de Lizzy Borden, que nada teve de lenda. Samantha não tinha sombra (ou a projetava em Serena), mas Elizabeth tinha…

      Responder

  6. Cris Bonna
    dez 16, 2010 @ 17:00:30

    Que delicia recordar essas mulheres. Adorava a Jeannie e sua garrafa ( sem a rolha claro) e meu sonho era ser a Tábatha.
    Lembro do tio médico da Samanta que aparecia vindo de lugares inusitados quando era chamado e tia Clara que era maravilhosamente confusa e engraçada.
    Quem aqui nunca quis ser a Jeannie miniatura dentro do vaso de flores?
    ou Samanta acelerada? Será que vestia sapatinhos vermelhos?
    Beijos
    Cris

    Responder

    • elianaatihe
      dez 17, 2010 @ 19:26:29

      O dr Bombay !!!! Vc se lembrou do dr. Bombay! Ele era especialista em doenças de bruxos, um cara confuso, experimentador, que errava umas duas vezes antes de acertar o tratamento… Ele era bárbaro! Como eram bons os dubladores, não? A da tia Clara era maravilhosa. A da Endora, então! Não consigo ver os filmes com legenda, só dublados. E sim. Acho que a Samantha usava sapatinhos vermelhos para parecer normal. Era muito ruim para ela isso.

      Responder

  7. Fabiana Prando
    dez 19, 2010 @ 22:20:19

    Tão bom relembrar esses momentos com vocês…
    Eu simplesmente amava a abertura de Jennie e A Feiticeira com aqueles desenhos animados e a musiquinha…
    Obrigada, Eli!
    Beijocas saudosas,
    Fabi

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: