Da inutilidade da escola

Prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Riscos do alcoolismo e tabagismo. Perigos da drogadição. Respeito às diversidades. Sexualidade. Princípios básicos de higiene e nutrição. Iniciação à educação financeira.  Práticas ecológicas cotidianas. Direitos e deveres civis. Técnicas de expressão. Boas maneiras. Comunicação. Compromisso social (na prática, voluntariado). Educação no trânsito. Trabalhos manuais. Toda essa dimensão da cultura voltada para a existência e a co-existência está inapelavelmente exilada da escola. A escola não tem nada a ver com ela. Civilizar, no sentido de tornar humano, é obrigação da família. E como a família, por sua vez, cada vez mais delega essa função para a escola, resta aos garotos boiar no limbo que se estende entre os dois jogadores desse perigoso ping-pong.  Eles sabem logarítmos, mas não reciclam lixo. Conhecem de cor a tabela periódica dos elementos, mas não são capazes de preparar uma refeição simples e nutritiva. Desfiam datas e nomes de pessoas e movimentos em profusão mas, na balada, bebem até passar mal ou entrar em coma. Não são capazes de arrumar o próprio quarto, embora falem, no mínimo, duas línguas estrangeiras. Sabem manejar todo tipo de engenhoca tecnológica, mas não usam camisinha quando transam (e o fazem cada vez mais cedo, por motivos cada vez mais banais). Papagueiam discursos politicamente corretos, mas não se constrangem de agir como feitores com a empregada doméstica. São os deformados bem informados, os gênios de cercadinho, os precoces retardados, os bebês gigantes. São os dissociados, que sabem um monte de coisas, mas não sabem viver. Vêm de famílias “estruturadas”, que os perdem de mimos e se recusam a lhes servir de continentes, até porque educar dá muito trabalho mesmo. Frequentam “boas” escolas, que os entopem com conteúdos que, mais dia, menos dia, serão regurgitados no ENEM e no vestibular. O conhecimento que aprendem na escola serve para a escola. Não se aplica a nenhum outro lugar ou situação, a não ser àquele território exíguo que os muros da escola demarcam (e falo da escola privada, claro, essa perversa redoma). Fora da escola, as coisas que a escola ensina viram fumaça, revelando sua completa inutilidade, sua total dissociação da vida cotidiana. Sobre as questões da vida cotidiana, secundárias, convenhamos, a escola lava as mãos. Vida não é com ela. Só vestibular. E olhe lá. Se a familia jogou a toalha, ela é que não vai recolher. Aulas de sociologia e filosofia cuidam de aplicar algumas demãos de verniz sobre a grossa alvenaria desse pragmatismo. Aulas de educação física, onde ainda havia alguma chance para o corpo calibrar a mente,  ou o ateliê de artes, onde os sentidos ainda faziam sentido, vão sendo substituídos por mais aulas de laboratório. A sociedade espera que a escola seja inútil. Quanto menos consciência ela ativar, tanto melhor para a economia. E como o freguês sempre tem razão, esses burraldos brilhantes seguirão engrossando as estatísticas: de contaminação por DSTs, de obesidade e doenças coronarianas, de dependência de drogas e álcool, de gravidez adolescente, de distúrbios alimentares, de inadimplência, de acidentes automobilísticos fatais previsíveis e evitáveis… Sabem tudo… mas não sabem nada. Muitos deles, porém, conseguirão passar no vestibular. A escola, afinal, fez sua parte.

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25 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Gabriel M. Santucci
    dez 09, 2010 @ 12:45:54

    Eli,

    Realmente as escolas (e muitas universidades) viraram institutos só a colher resultados no papel. Decorar para passar, passar para trabalhar, trabalhar para ganhar dinheiro e gastar o dinheiro com todo o desnecessário para a vida real.

    Gostei muito desse post. Forte, real e necessário!

    Responder

  2. Mariluza Abrahao
    dez 09, 2010 @ 20:23:04

    Eli. Muito triste que seja assim. Gostei muito , Verdadeiro . Será que num futuro próximo conseguiremos ver revertida essa situaçao. Tomara! Bjs Mariluza

    Responder

    • elianaatihe
      dez 10, 2010 @ 17:50:49

      A gente trabalha para recuperar a vida da nossa alma, né, Mari? E procura contagiar as pessoas de quem gostamos com as nossas descobertas. É isso que podemos fazer de melhor.

      Responder

  3. Maria Cecília Sanchez Teixeira
    dez 09, 2010 @ 20:47:18

    Eli,
    Como sempre seus textos contundentes sobre a escola põem o dedo na ferida. Realmente, a cada dia me convenço mais da inutilidade da escola. Escreve-se tanto sobre ela e na prática nada muda. Quantas árvores derrubadas, quanto papel gasto para se fazer teses e mais teses sobre a escola e a cada dia que passa ela fica pior.
    Amei o texto.
    Cecília

    Responder

    • elianaatihe
      dez 10, 2010 @ 17:49:41

      Quanto recurso desperdiçado, não? Dinheiro, tempo, materiais… E quantas almas perdidas, principalmente. Eu escrevi o post e depois tive a segunda enxaqueca da semana.

      Responder

  4. Ana Luísa Lacombe
    dez 09, 2010 @ 23:45:33

    É Eli… Tem coisas que são pertinentes à adolescência, mas esta nova geração anda um pouco exacerbada no despreparo, na arrogância e estreiteza de visão. Contribuição do “entorno”: família e escola. A família lava as mãos e entrega as crianças ás babás ou ao “Deus dará”, a escola compra equipamentos tecnológicos para “acompanhar” as novas linguagens. Mas na verdade não se comunica, se trumbica.
    Temos que falar disso!

    Responder

    • elianaatihe
      dez 10, 2010 @ 17:41:42

      Sim, temos de falar muito e para muita gente, de modo que mais pessoas se sintam desconfortáveis com o que todo mundo considera normal, Analú. Para isso existem as matilhas, os contadores de histórias, os ateliês de arte, as praças, os galpões de cultura.

      Responder

  5. Fabiana Prando
    dez 10, 2010 @ 10:45:35

    Bravo, Eli!
    Forte, indigesto, um soco na boca do estômago… Na medida para incomodar, refletir e abrir espaço para criarmos novas alternativas.
    Obrigada! Você esta cada dia melhor!
    Beijos,
    Fabi

    Responder

  6. Vânia Noronha
    dez 10, 2010 @ 16:31:03

    Eli, está semana tivemos um amigo brutalmente assassinado nos corredores da Universidade onde exercia seu oficio de alimentar a alma por um destes alunos, formado nesta escola que você denuncia. Muito pertinente a reflexão. Nâo podemos deixar atitudes como esta permanecerem em nosso meio. Denunciemos e exijamos justiça. Sigamos…..

    Responder

    • elianaatihe
      dez 10, 2010 @ 17:31:32

      Oi, Vania! Que bom poder conversar com vc! Esse evento a que vc se refere é tão expressivo da inutilidade da escola, não é mesmo? Tenho um texto publicado no site do HIMMA (www.himma.psi.com.br ou psc.com.br, não me lembro direito agora, tente os 2 endereços) que escrevi quando aquele garoto coreano matou colegas e professores na Universidade da Virgínia, há alguns anos. De repente a sua mensagem me lembrou desse artigo. Vá lá ler e me conte se é isso mesmo. Bjs e saudades.

      Responder

  7. claudia lopez de freitas
    dez 11, 2010 @ 18:57:33

    ÊHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! tem blog!!!! Que legal!!!!!!!!!
    Posso encher seu saco aqui tb?
    Seu filho me adicionou no Facebook! Não é o máximo?
    Sobre o texto:
    Escola deprê… Filhos muitas vezes equivocados, porém achando que estão cheios de razão. Difícil equilíbrio. Será que um dia eles darão conta que a vida real é um pouco diferente? Ou eu estou cada vez mais irreal?
    Depois escrevo mais… Tô saindo pra trabalhar pra ganhar o tal dinheiro…
    Terça vou lá! ÊHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Responder

  8. Cristiane Marino
    dez 12, 2010 @ 18:46:37

    Olá Eliana!

    Bastante contundente este seu texto. Ainda estou pensando…
    Sabe, andei procurando onde está a lista de seguidores do seu blog, mas não encontrei. Como faço para me cadastrar como seguidora?
    Bjs
    Cris

    Responder

    • elianaatihe
      dez 12, 2010 @ 20:04:26

      Menina, e eu sei lá como faz isso? Acho meio sinistro esse negócio de ter seguidores, você não? Devo ser a blogueira mais tosca do ciberespaço. Vou perguntar aos universitários e ver se descubro esse negócio. Depois te conto. Bjs.

      Responder

      • Cristiane Marino
        dez 13, 2010 @ 21:39:36

        Oi Eliana!

        A vantagem de ser seguidora de um blog é que sempre que a(o) blogueira(o) o atualizar, você recebe um aviso naquela página do Blogger que a gente acessa para editar postagens . Aí é só clicar e conferir as novidades!
        Para cadastrar seguidores você tem que acessar a página Design no Blogger (fica próximo do Editar Postagens) e clicar em Seguidores, para que apareça na página inicial. Isto é, caso interesse a você, é claro.
        bjs
        Cris

      • elianaatihe
        dez 15, 2010 @ 09:57:41

        Uau! Isso é o que eu chamo de consultoria espressa on line. Obrigada, Cris. Vou ver se consigo fazer o trajeto e vc logo saberá! Bjs!

  9. Cristiane Marino
    dez 16, 2010 @ 23:13:56

    Eliana, eu era meio avessa a essa coisa de tecnologia, mas desde que comecei a fazer o blog, passei a brincar de descobrir ferramentas, recursos gráficos, visuais e etc… e aí virou uma diversão. Eu estou adorando fazer isso, quem diria!
    Bjs

    Responder

    • elianaatihe
      dez 17, 2010 @ 19:02:20

      Como é bom mudar, não, Cris? Eu era igualzinha. Só ando precisando de uns tutoriais. Mas vou melhorar nestas férias. Vou me dedicar e aprender. Vc vai ver.
      Bjs, querida.

      Responder

  10. Trackback: Os números de 2010 « Mulher-Esqueleto
  11. Shesley Layanne Reis dos Santos
    ago 06, 2014 @ 23:13:45

    Eli,
    Ameii seus argumentos, e super concordo com cada palavra escrita, vc sem dúvidas cosegue utilizar as palavras certas para demonstar o que deseja expor como argumento.
    SUCESSO :* Super bjo
    Shesley Layanne

    Responder

  12. Meg
    jan 03, 2015 @ 23:58:15

    Excelente, colocou no texto o que penso!!!

    Responder

  13. elianaatihe
    jan 04, 2015 @ 12:51:37

    Republicou isso em Mulher-Esqueletoe comentado:

    Reli este post por conta de um comentário que recebi ontem sobre ele. Em tempo de vestibular, achei que vale a pena republicar.

    Responder

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