Apolo, Dafne e eu

Meu loureiro tem quinze anos de idade, trinta centímetros de diâmetro e mais ou menos seis metros de altura. Como a ninfa Dafne, cujo nome, em grego, quer dizer “loureiro”, ele lança seus dois lindos braços na direção do céu, um pouco suplicante, um pouco desafiador. Lutei anos contra as pragas que engruvinhavam suas folhas perfumadas. Até que um dia, meu jardineiro seu Aparecido me disse que não lutasse, que deixasse que o loureiro pegasse as pragas no meu lugar. Eu entendi, então, que ele era uma espécie de Cristo de quintal, vegetal e pagão. Depois das podas da última primavera, meu loureiro renovou-se e se encheu de brotos. Há uma semana, porém, suas folhas estropiadas secaram repentinamente e seu lindo tronco começou a rachar. Consultei o jardineiro (que não é mais o seu Aparecido), um agrônomo e a Ruth Toledo, minha mestra dos florais. O jardineiro embatucou. O agrônomo ecoou a Clarissa Pinkola Estés ao dizer que todos os seres vivos, mais dia, menos dia, têm de se haver com a degenerescência. A Ruth me entregou as metáforas que estavam faltando, como sempre faz. E eu juntei tudo neste post, que deve soar como uma louvação e um epitáfio ao meu querido loureiro agonizante: a árvore de Apolo, senhor das formas, das artes e da poesia, da medicina e da música, o grande clarividente, mas também o deus da peste e o doador da morte súbita. Apesar de ambíguo, como toda divindade que se preza, no território de Apolo reinam (ou ele espera que reinem) a razão luminosa e as proporções perfeitas. O que significa, em contrapartida, que não são bem vindas nem as sombras nem as dúvidas. Ao contrário de Zeus, seu pai, Apolo sempre foi meio azarado com as mulheres. Não à toa. O feminino teme esse excesso de secura, lucidez e claridade que devassa os cantos, expõe e ameaça o que deve permanecer oculto na umidade. Em nossas caprichosas bolsinhas anatômicas – vagina, peitinhos, útero -, as formas, tanto  as belas quanto as terríveis, esperam, protegidas na penumbra, pela hora certa de vir à luz. Por isso, as mulheres sempre preferiram o irmão barraqueiro de Apolo, Dioniso, o deus das transformações, com quem elas mantêm uma afinidade natural. Dioniso adora roubar a cena de Apolo, até porque é o deus do teatro. Hoje, porém, vou resistir ao seu charme debochado para continuar falando de seu irmão, o altivo e belo senhor do meu loureiro. O mito conta que Apolo apaixonou-se por Dafne, uma linda ninfa, filha de um rio-deus. Isso porque ele andara gozando da cara de Eros, coisa muito temerária de se fazer, já que o Amor carrega em sua aljava dois tipos diferentes de flechas: uma, que semeia a paixão e outra, que desencadeia a indiferença. Para se vingar dos gracejos de Apolo, Eros  condenou-o a amar Dafne e a ser, em contrapartida, repudiado por ela.  Doente de amor, o deus perseguiu inutilmente a ninfa, tão somente para ser humilhado e evitado repetidamente. Quando, enfim, conseguiu agarrá-la à força, ela suplicou ao pai que a livrasse e ele a atendeu, aliás, bem ao gosto de Dioniso: metamorfoseou a filha em árvore. Essa cena é linda e foi pintada e esculpida por não sei quantos artistas, ao longo da história da arte: entre seus braços, um Apolo atônito vê a pele branca e macia transformar-se em tronco escuro e rugoso, o corpo flexível enrijecer e imobilizar-se. Os braços erguidos tornam-se os dois grandes ramos principais, que eu tanto admiro em minha árvore.  Inconsolável, Apolo colheu alguns galhos, talvez mechas de cabelo da bem amada que o detestava, e com eles fez sua coroa, a mesma que premia os campeões, nem tão vencedores assim, como se pode perceber. Do seu jeito enviesado e belo, o mito sempre me esclarece. Estou eu mesma às voltas com as formas esgotadas de Apolo, condenadas à decadência, e com as transformações de Dionisos, inevitáveis e renovadoras. Acabo de substituir minhas calças tamanho 38 por novas, tamanho 42. Eu, que entrei nesse abraço como ninfa, saio dele lentamente transformada em árvore. Na minha fantasia, mais uma vez meu loureiro adiantou-se ao meu passo. A Ruth me disse assim: “Despeça-se dele e aproveite para transformar a ecologia do canteiro. Agora vai ter mais sol e espaço para arbustos e flores”. Não é lindo?

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13 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Cristiane Marino
    nov 25, 2010 @ 13:38:34

    Olá Eliana!
    Que lindo este seu texto! Tão poético e profundo ao mesmo tempo. Fiquei muito tocada.
    Eu me lembrei de um trecho de um poema de Adelia Prado, que é uma de minhas autoras preferidas: “o que morre aduba o que nasce”. Que seja bom esse novo ciclo que se inicia em sua vida.
    Um abraço
    Cristiane Marino

    Resposta

    • elianaatihe
      nov 25, 2010 @ 17:02:23

      Vc já leu o post “No cemitério é bom de passear”? A Adélia já entra no título. Ela sabe lidar com o tempo, ainda que seja só no ritmo da poesia.
      Tb tem o Manoel de Barros: “Não preciso do fim para chegar”. Bjs. Apareça.

      Resposta

      • Cristiane Marino
        nov 29, 2010 @ 22:18:06

        Já li e adorei! A Adélia, a Clarice, o Guimarães Rosa e o Manuel de Barros estão no meu panteão. Tenho visitado seu blog sempre que posso e gosto muito. Coloquei seu link na página inicial do meu blog, o Mulheres em Círculo (www.mulheresemcirculo-luz.blogspot.com). As minhas companheiras de grupo também gostam dos seus textos. Em nosso último encontro conversamos sobre a entrevista onde você fala da importância da leitura na infância. Um dia ainda vou te conhecer pessoalmente.
        Bjs. Cristiane

      • elianaatihe
        nov 30, 2010 @ 10:26:29

        Cris.
        Estou colocando o link do seu blog no meu blog. Que legal esse circuito, não? Vamos nos conhecer sim. Aliás, já nos conhecemos bem. Só precisamos nos encontrar de fato.Bjs pra vc e para o círculo.

  2. Cristiane Marino
    nov 30, 2010 @ 20:26:03

    Eliana,
    É muito legal podermos criar um circuito de amor na contramão deste turbilhão da pós-modernidade.
    Bjs

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  3. Cristiane Marino
    dez 01, 2010 @ 22:27:14

    Eliana, seu blog ficou lindo!
    Adorei a mudança de visual, ficou muito mais gostoso de ler, mais convidativo…mais alegre! E a alegria é um bem raro e precioso.
    Bjs

    Resposta

  4. Tereza
    dez 09, 2010 @ 00:43:36

    Meu Deus!!! O que é isso???
    Quis saber do loureiro e pude ver e sentir.
    Eliana, como você consegue ser tão generosa com suas palavras, com seus apelos e sentimentos?
    Na próxima encarnação quero ser um loureiro e morrer no seu jardim.

    Resposta

    • elianaatihe
      dez 09, 2010 @ 09:57:11

      O loureiro foi embora ontem. Meu jardim está mais ensolarado e vazio. Me deu uma grande tristeza, mas ele estava mesmo morto. A hipótese mais plausivel é que as raízes foram bloqueadas pela estrutura de um muro. Sabe como é, a eterna luta entre natureza e civilização. Eu quero ser uma orquídea-palito e viver na sua varanda. Pode ser? Bjs.

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  5. Maria Cecília Sanchez Teixeira
    dez 09, 2010 @ 20:54:05

    Como sempre seus textos são maravilhosos. E ainda você diz que é melhor leitora que escritora! Concordo que a leitura e o cinema alimentam a sua escrita, mas você escreve muito bem. Sempre digo isso.
    Não sabia dessa história ainda e gosto muito de ver como você aplica o mito para compreender todos os acontecimentos da sua vida. Isso é fantástico.
    Cecília

    Resposta

    • elianaatihe
      dez 10, 2010 @ 17:45:28

      Essa história rolou durante o seu interlúdio portenho, Ciça. Anteontem os homens vieram derrubar meu loureiro e eu tive a primeira de duas enxaquecas (fazia mais de um ano que eu não tinha). Como foi doído ouvir a motossera trabalhando… Botei um pé de gardênia no lugar dele enquanto resolvo se vou atrás de outro loureiro. O que vc acha? Obedeço Dioniso e mudo tudo?

      Resposta

  6. Lourdinha
    set 29, 2015 @ 14:42:28

    Lindo, Eli. Inspirado e inspirador!

    Beijos!

    Lourdinha

    Resposta

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