Caçaram Pedrinho !!! Vida longa a Monteiro Lobato

Se tem uma coisa que infernizou a vida de Monteiro Lobato foram as patrulhas. Estéticas. Políticas. Ideológicas. Religiosas. Autêntico, bocudo, polêmico, ousado, emiliano, enfim, até a medula dos ossinhos miúdos, Lobato foi execrado por diversas patrulhas em atividade à sua época, por dizer e escrever o que lhe dava na telha e fazer o que achava certo. Era, em suma, um homem leal ao seu daimon, coisa que os medianos metidos a ótimos nunca lhe perdoaram. Por isso foi xingado de americanófilo, subversivo, reacionário, entre outras pérolas. Vira e mexe seu nome ainda é usado em vão por uma pobre gente que não teve a sorte de lê-lo na infância. E que, ao que parece, também não faz questão de lê-lo agora, antes de emitir julgamentos equivocados sobre sua obra. Semana passada, um tecnoburocrata da educação chamou-o de racista, baseado num trecho fora de contexto do delicioso “Caçadas de Pedrinho”. Foi assim: o livro apareceu numa lista de indicações de leitura elaborada por uma escola pública do Distrito Federal e o tal funcionário padrão, com seu olho de águia devidamente remunerado pelo contribuinte, encontrou lá uma menção a Tia Nastácia subindo numa árvore para fugir de onças, feito “uma macaca de carvão”. Baseado nisso, o servidor decidiu acertadamente incluir “Caçadas” no seu gosmento index. Acertadamente sim, porque tudo o que Lobato nunca quis na vida foi ser politicamente correto. Muito ao contrário. Por isso acho ótimo que excluam sua obra infantil das mofadas listas escolares, as mesmas que servem para imunizar crianças e adolescentes contra os perigos do prazer de ler. Quanto menos Lobato for lido como dever escolar, menos chance terá ele de ser desencantado pelo toque de anti-Midas da escola. E quem pode dizer se esse leitor bissexto não acabou prestando um serviço à obra de Lobato? Quem sabe se a  polêmica levantada por ele não acabará servindo para reviver as histórias contadas por esse brasileiro genial, na memória de uns tantos pais e avós que tiveram as infâncias iluminadas por seus livros? Assim já estaria de bom tamanho, se a turma do pano-quente não tivesse tido uma ideia realmente desastrada. Que funciona mais ou menos como pregar um cartaz nas costas do livro, do jeito que fez a Emília com o estafermo do João Faz-de-Conta, em seu famoso circo de “escavalinhos” (Reinações de Narizinho). OK, fica na lista, mas com uma bula de “politicamente incorreto” em anexo. Lindo. Apenas para esclarecer aqueles que não conhecem bem Lobato e suas criaturas, a diabinha da Emília em particular:  frequentemente eles descrevem pessoas brancas como “bichos de goiaba” e “baratas descascadas”. Será que isso configuraria um empate? Eu ainda tenho para mim que “O saci” resolve , no ato, essa pendenga, quando atua como orientador e guia de Pedrinho numa jornada de iniciação aos mistérios da floresta. O neto branco da aristocrata latifundiária dona Benta (na verdade uma sitiante metida a intelectual autodidata), posto sob o comando de um moleque negro, e de uma perna só, ainda por cima? Será que isso aplacaria os pruridos do tal moço zelozo? Ou poderíamos também considerar a hipótese “O minotauro”, em que tia Nastácia amansa e ceva o monstro mítico no interior de seu próprio labirinto, empanturrando-o com seus divinos bolinhos de polvilho… Aliás, em matéria de incorreção política, sugiro aos inquisidores de plantão que investiguem “Histórias de tia Nastácia” porque vão se fartar. Ali tem conteúdo que justifique, inclusive, um auto-de-fé. E vou parando por aqui, porque não ganho para dar consultoria sobre Monteiro Lobato a gente desinformada. Para encerrar, invoco a Emília. Ela que mande esses caras de coruja seca pentearem macacos. Ou descascarem baratas. Tanto faz.

Anúncios

6 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Gabriel M. Santucci
    nov 17, 2010 @ 08:37:23

    Este post deveria ser publicado ONTEM!

    Que análise e crítica fantástica.

    Responder

  2. patricia
    nov 17, 2010 @ 22:24:57

    acho muito triste esse argumento do politicamente correto… uma ode à hipocrisia. e ainda, por cima, usado para incrementar censura! quer coisa mais incorreta? enfim, a imbecilidade humana é infinita… viva a liberdade, viva lobato, viva emília e todo o sitio!!

    Responder

  3. Maria Cecília Sanchez Teixeira
    dez 09, 2010 @ 21:04:22

    Adorei seus argumentos. Não tinha pensado que na escola os livros de Lobato podem cair na vala comum dos livros de leitura “obrigatória” que os alunos odeiam.
    Depois como você sabe eu faço campanha para o “politicamente incorreto” atualmente.
    Sabe que hoje recebi uma mensagem contra o livro. A remetente dizia que o texto estava escrito em inglês para poder ser divulgado mundialmente!!! Claro que deletei sem ler.
    Cecília

    Responder

  4. Nathalia Gonçalves da Silva
    ago 23, 2013 @ 18:26:14

    A mulher do Monteiro Lobato é viva ou não ??????????

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: