“A estrada” para estômagos fortes e corações sensíveis

O apocalipse pode durar um minuto. Estamos lá, fazendo supermercado, assistindo aula, brigando no trânsito e… BUUUUUUUUUUMMMMM!!!! Em meio ao brilho do incêndio derradeiro, retornamos todos à grande mônada e a Terra se livra, num piscar de olhos, de seus piores pensionistas. O apocalipse também pode ser parecido com aquele de “Wall-e”, o desenho animado fofo e genial da Pixar. Detonamos tudo, poluímos a torto e a direito, nos fodemos geral e evacuamos o (e no) planeta. A civilização tecnológica, ainda competente, consegue embarcar um grupo de sobreviventes numa espaçonave à deriva. E lá ficam eles, boiando no limbo por séculos, cercados de gadgets eletrônicos, empanturrados de junkie food, reféns das máquinas, obesos, autorreferentes, à espera de que uma sonda os avise quando a Terra estiver novamente em condições de acolhê-los ou recolhê-los, tanto faz. No terceiro modelo, a meu ver o mais verossímil, o apocalipse pode durar anos, décadas, talvez séculos de lenta aniquilação da espécie  humana, que já tratou de aniquilar todas as outras, animais e vegetais. A humanidade da espécie, contudo, escafedeu-se rapidinho. No mundo completamente devastado, erram hordas daqueles que tiveram o azar de sobreviver à destruição do ambiente. Enquanto esperam pelo fim do firinfinfim, os homens vão regredindo a uma barbárie cada vez mais brutal. Em meio aos destroços da civilização, predadores humanóides sem culpa nem lei, sem vínculos que não os da horda, sem referências que não as próprias pulsões, saem à caça uns dos outros. Primeiro comem os bichos que sobraram. Depois comem os próprios filhos, a ponto de não restarem mais crianças no mundo. Por fim, comem os mais fracos, comem, enfim, qualquer um que cruze seu caminho. Essa é “A estrada” (The road) do título. Se você tem perfil de presa, é melhor ficar longe dela. O filme conta a história maravilhosa e medonha de duas pessoas unidas por um vínculo que as transforma em presas fáceis: um pai e seu filho de treze anos. No enredo, o homem exausto e essa rara criança estão envolvidos numa jornada épica até o litoral, onde acreditam que encontrarão uma saída do horror. Enquanto caminham a esmo, escondendo-se das feras, ambos partilham os fiapos da cultura e do afeto que ainda os sustentam, apesar da fome real. Essa versão hiperrealista do apocalipse é narrada por Cormand Mc Carthy no livro homônimo do belíssimo filme dirigido por John Hillcoat, estrelado pelo sensível Viggo Mortensen e que inclui uma participação inesquecível de Robert Duvall. Quase insuportável de assistir, tive de dividi-lo em três partes. Aguentei e confesso: valeu a pena. Sem clichês nem eufemismos, “A estrada” é um programa pesado, que indico a pais e mães com estômagos fortes e corações sensíveis, caso precisem de uma noção mais clara dos papéis que lhes cabem na educação dos próprios filhos. Saibam, porém, que não se sai ileso dessa estrada onde: a cada passo penoso é preciso escolher; o exemplo educa mais do que a conversa fiada; os papéis se invertem o tempo todo; a humanidade não é dada de bandeja, mas deve ser conquistada e mantida, ao preço de sangue, suor e lágrimas. Pode confiar. Você não vai morrer no final. Ao contrário: pode até ficar mais desperto. Como intui a mãe do menino, que é a alma da história, o mar encaminha uma saída. Civilização e barbárie não são polares. Cultura e barbárie são.

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Gabriel M. Santucci
    nov 15, 2010 @ 14:36:42

    Eli do céu!

    Pelo trailer já fiquei com frio na barriga. Vou pegar o filme aqui e depois digo o meu veredicto.

    Beijos e estou adorando o blog,

    Gabriel.

    Responder

  2. Gabriel M. Santucci
    jan 29, 2011 @ 12:27:11

    Assisti!
    Ante-ontem.
    Um ótimo filme. Fazia tempo que nao assistia um filme sobre o tema ‘apocalipse’ aonde nao se mostre apenas carnificina, mocinhos atirando pra todos os lados e blá blá blá.
    Achei muito forte e para um completo entendimento realmente precisa-se de GUTS in capital letters para sentar e assistir e deglutir.
    Muito obrigado pela sugestão.

    Muitos beijos,

    Gabriel.

    PS: Adorei Vanessa da Mata! 🙂

    Responder

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