Eu resgato livros

Para toda a vida vou me arrepender de não ter resgatado aquele livrinho. Era uma edicão dos anos 1940, tipo “Biblioteca das Moças”, capa dura encardenada de azul escuro, pequeno, com um cheiro bom de mofo cicatrizad0, mais uns buraquinhos de caruncho sarapintando as páginas do miolo. Era uma edição de contos fantásticos de Théophile Gauthier. Dei com ele enfiado num prateleira da estante de livros na casa de uma prima. Perguntei respeitosamente a ela se podia pegar emprestado e ela me respondeu: – “Mpfhhhhh…”, e deu de ombros. Devia ser uma herança ignota do pai dela ou do sogro ou de alguma finada tia romântica. Eu tinha uns 15 anos e, durante um ano ou mais, ele ficou meu. E porque eu o tirara do limbo, ele me agradeceu com algumas das melhores histórias que já li na vida: “O pé de múmia”, “Jettattura”, “Avatar”… Eu relutava em devolver, mesmo porque, cada vez que tentava, ele me pedia: “Não faça isso. Ela nem sabia que eu estava lá”. E eu respondia: “Amanhã eu te devolvo”. Nunca que devolvia. E lia de novo, só para ter a desculpa de que ainda estava lendo. Certo dia, num surto de maldita consciência virginiana, decidi devolver.  Remanchei mais uns minutos, antes de reenviá-lo ao limbo dos livros ignorados. Ele ficou lá, com as orelhas caídas feito um cachorrinho largado no pátio da ONG. Passaram-se anos. Um dia, me lembrei dele e tive muita vontade de reler “Jettattura”, um conto ótimo sobre mau olhado (não sei o que faz esse povo de cinema que não recupera essas velhas boas estórias, ao invés de inventar novas ruins).  Fui lá e revirei a estante. Nem sombra. Inquiri a suposta dona: descrevi o livro em detalhes, forma e conteúdo, enquanto ela me olhava meio estupefata, como se eu tivesse acabado de descer de um disco voador. Quanto terminei, ela disse, incrédula: “Nunca  tive esse livro na vida”. Era verdade. Nunca. Ele tinha sido meu por um ano inteiro e eu o havia traído. Daquele dia em diante, virei uma resgatadora de livros. Sei que alguns dos meus amigos vão ler este post e correr para conferir a estante. Então acho bom esclarecer que só resgato livros que eu mesma dei de presente, porque não sou cleptomaníca. Sou justiceira. Afinal se fui eu que condenei um livro ao limbo, cabe a mim tirá-lo de lá. Assim, se depois da tal conferência, vocês não tiverem achado aquele livro que lhes dei há anos e nunca foi lido, podem acreditar: fui aí pessoalmente e o tomei de volta. Duvido, porém, que vocês sequer percebam que ele foi subtraído, já que mal notaram que o tinham ganho. Quem ama os livros, sabe na hora em que o presenteado desfaz o pacote. Esse vai ler.  Esse vai devorar. Esse vai encostar. Contudo é preciso dar uma chance, até ao que está na cara que vai encostar, mesmo porque os livros têm um poder de sedução nada desprezível. Depois é o tempo, como em tudo o mais. Me esqueço. Passam-se três ou quatro anos, até que um evento qualquer me leve para perto da estante do dito cujo. Minha memória funciona. É hora de planejar e, se for este o caso, executar o resgate. Não sou arbitrária. Faço perguntas. Faço referências. Tento entabular uma conversa genérica sobre a obra, o tema, o autor. Tem gente que nem se lembra do livro. Podia até mesmo dizer em sua defesa que o trocou por um CD do Jorge Vercillo ou por outro livro, um da Zíbia Gasparetto ou o terceiro volume da série “Deixados para trás”, por exemplo… Eu aceitaria resignadamente porque, afinal, presente é presente. É preciso desapegar-se de um presente dado. Aceitar, sem ressentimentos, que “A praia” do Ian Mc Ewan ou “Bom dia, angústia” do Comte-Sponville tenha sido permutado por alguma obra do Gabriel Chalita, esse escritor tipo algodão-doce: fofo, melado, sem nutrientes. Faz parte do jogo. Mas nada. E o livro lá, empoeirado e intacto. Por sorte, minhas bolsas são grandes. Vou enumerar alguns que resgatei e que agora moram aqui em casa, rabiscados, arreganhados e contentes: “Isto és tu” de Joseph Campbell, “A louca da casa” de Rosa Montero, “A mulher com o vaso de alabrastro” de Margareth Starbird, “A alma encantadora das ruas” de João do Rio, “A barca de Gleyre” de Monteiro Lobato… Me pergunte se alguém deu pela falta.

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Fabiana Prando
    nov 03, 2010 @ 17:35:12

    Hahahahahahaha!!!!
    Você me mata de rir, Eli!
    Justiceira querida, amiga dos livros e da leitura, salve!
    Que bom que você existe e não desiste!
    Ao resgate, sempre!
    Beijos,
    Fabi

    Responder

  2. Paulo Mauá
    nov 05, 2010 @ 15:44:51

    Eliana, quem me apresentou teu blog foi a Fabiana Prando, daqui de Santos. Adorei o texto do sequestro de livros. Eu tomo outra atitude. Não presenteio com livros ninguém. Só a mim mesmo. Não empresto: permuto. E saber que mais alguém leu João do Rio foi o máximo, pois não conhecia ninguém sobre a face da Terra que o admirasse. Um abraço literário.

    Responder

  3. Miriam
    nov 09, 2010 @ 15:40:16

    Você resgatou um de minha estante, mas eu percebi… A louca da casa. Mas eu perdoo, já li muitas coisa da sua estante e alguns passaram bom tempo na minha.

    Responder

    • elianaatihe
      nov 10, 2010 @ 09:47:28

      Testemunho da irmã Miriam, que está me passando recibo. Viram como eu não invento nada?
      Bjs, querida. Já te dei outros no lugar daquele (os do Salman Rushdie são de leitura garantida).

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