Uma entrevista: para que serve contar histórias às crianças

Íntegra da entrevista concedida em 27  de outubro a Michelle Barreto, para uma newsletter da Fundação Social Itaú

Quais são os benefícios da contação de histórias para a vida das crianças?

O maior benefício de todos é uma alma “bem feita”, o que envolve autoconhecimento,  emoções bem cultivadas e uma imaginação rica, capaz de interferir na realidade para transformá-la de um jeito criativo. Outra coisa é a percepção de que a abordagem objetiva e lógica não dá conta da realidade. Há uma dimensão do real que só pode ser apreendida e vivenciada por meio da linguagem simbólica: as narrativas de fantasia, as imagens, as metáforas, a arte e sua diversidade, as tradições da cultura, a literatura, as religiões (não as instituições religiosas, mas nossa experiência espiritual genuína e profunda), o cinema…  

– Em que áreas do conhecimento as contações de histórias podem impactar positivamente no aprendizado de crianças?

Em todas. O repertório cultural que as histórias oferecem às crianças fornece um fundamento significativo para toda a educação formal que elas irão receber. E para todo o resto também. As histórias servem de base para a construção de uma visão ética e estética do mundo, ou seja, do que é bom e do que é belo, sem a intervenção de moralismos e modismos. Ouvir histórias desde muito cedo ajuda a criança a entrar em contato com a beleza das palavras, dos sons, dos sentidos… Afinal letras e números também são símbolos, imagens que estão no lugar de coisas concretas, de emoções, de eventos e que os representam para nós. Entrar no universo do conhecimento sistematizado tendo as histórias como guias é começar com o pé direito, percebendo que a língua e a matemática não se esgotam na gramática e nas equações. Elas também têm uma dimensão encantadora e misteriosa, que torna o aprendizado formal uma aventura prazerosa e não uma chatice tediosa.

– As contações de histórias podem impactar nas relações familiares? Isto é, favorecer o estreitamento dos laços familiares entre pais e filhos? Como esta relação acontece?

Pais que não encontram um momento no seu dia para contar histórias para seus filhos estão se privando e privando aqueles a quem mais amam de uma experiência afetiva e educativa sem igual, com aquilo que a cultura produziu de melhor: a narrativa e a família. A herança das histórias precisa ser transmitida, em primeiro lugar, de pais para filhos. Ela fala de nossa ancestralidade, de nossa herança antropológica profunda e comum, dos laços que nos unem ao passado e ao futuro. As histórias que contamos aos nossos filhos vêm carregadas com o calor da nossa história pessoal, da nossa voz, do nosso amor… Não existe NADA mais importante do que isso na educação de uma criança.  

– Os pais estão mais abertos para sentar com os filhos e realizar as contações ou eles ainda encaram a contação como algo supérfluo e se prendem na falta de tempo para não contar histórias?

Em cafés e restaurantes, tenho visto pais dando aos filhos pequenos seus Blackberries e I-Pads para não ter de entretê-los com uma história, um desenho, um joguinho simples e concreto compartilhado (palitinho, da velha, forca…). Ficam todos lá, sentados juntos na mesa, mas completamente desconectados uns dos outros, cada qual olhando para a sua telinha. Isso é muito triste. Nos preocupamos tanto em dar boas escolas, em formar nossos filhos para o vestibular, mas nos esquecemos do mais importante: antes do intelecto, vêm as emoções e a imaginação. É uma simples questão de ordem cronológica. Um intelecto poderoso pode facilmente ser sabotado por emoções descontroladas e drenado por uma imaginação pobre ou infantilizada. Há um ditado africano que diz: “É preciso toda uma aldeia para educar uma criança”. Educar de verdade dá muitíssimo trabalho, consome tempo (e não apenas dinheiro), implica envolvimento genuíno com o outro. A contação de histórias é um bom exemplo disso.

– Você tem conhecimento de alguma pesquisa que indique a relação entre o fato da família contar histórias diariamente para os pequenos com o interesse pela leitura desta criança na vida adulta?

As pesquisas são inúmeras e quem só se convence com estatísticas pode rastreá-las em bibliotecas digitais de universidades espalhadas por todo o mundo. Mas um olhar mais sensível não precisará delas para se lembrar da própria infância, tenha ela sido encantada pela presença das histórias ou desencantada pela ausência delas. A narrativa é nossa segunda natureza. Nosso cérebro é um processador de histórias, do “case” ao B.O., do contrato à reportagem, do relatório à ata, da novela ao “vídeo-game”… A narrativa dá sentido a nossa existência. Graças a ela, o ser humano sobreviveu, mesmo sendo fraco, sem garras, sem pelo, sem caninos enormes. E construiu a cultura em meio a um ambiente hostil. A narrativa deu sentido à técnica. Ela ainda oferece (mas não sei até quando) significado à civilização tecnológica, para que a gente não regrida à barbárie digital. Se isso não é argumento suficiente para um pai e uma mãe contarem histórias aos filhos, então sinceramente não sei se as pesquisas serão.

 – Quando a leitura não é estimulada em casa porque os pais que não tiveram oportunidade de ter contato com a literatura e, por isso, não se interessam pela leitura. O que fazer? Existe alguma sugestão para este adulto fazer com que o filho seja um bom leitor?

Há duas palavras que ajudam a gente a entender o que fazer neste caso: reparação e superação. Quando algum conhecimento nos faz falta na vida profissional, corremos atrás dele, superamos essa “ignorância” e reparamos um vácuo de nosso repertório. Agimos assim porque sabemos que há uma melhoria objetiva envolvida na aceitação desse desafio. Isso vale 100% para nossa vida em família e nossa vida interior. Se meus pais não me ensinaram boas maneiras quando eu era pequeno, eu trato de aprendê-las sozinho, ou vou ter problemas em minhas relações. Se não tive exemplos de leitura em casa, nem fui formado leitor pela escola, vou atrás de superar esse déficit, ainda que seja em nome da formação dos meus filhos. E aí acabo reparando uma carência de minha própria vida. Em matéria de estímulo à leitura, vale a mesma máxima da educação: ao invés de dar “sermão”, dê exemplo. 

– O que fazer quando as crianças não se interessam pela leitura? Como estimulá-la e tornar a leitura um hábito?

Leia diante dela, para ela, com ela. Consagre um horário para a leitura compartilhada. Ouça-a ler as coisas de que gosta. Peça a ela para lhe contar histórias que ouviu na escola. Estimule-a a transformar os pequenos eventos do dia-a-dia em histórias (os “causos”): na mesa, no carro, na sala de espera… Leia junto com ela o livrinho que ela retirou na biblioteca da escola. Leve-a para ouvir contadores de histórias, para assistir peças de teatro infantil, para conhecer bibliotecas, para ver exposições de arte com temas e artistas interessantes para ela… Converse com ela sobre os filmes e desenhos que ela assiste, os personagens dos vídeo-games que ela joga, os enredos dos livros que ela lê e dos programas de TV a que ela acompanha. Como você vê, tudo isso implica convívio, tempo compartilhado, exemplo, diálogo, interatividade, investimento afetivo. Isso é educar uma criança. De verdade.

– Qual é a importância da contação de histórias para a vida adulta de crianças?

Crianças que ouvem muitas histórias (no contexto interativo de que venho falando) certamente serão adultos mais abertos, curiosos, criativos, tolerantes, cultos e livres. O etologista francês Boris Cirulnik também garante que o contato mediado com as histórias nos provê de uma qualidade importantíssima: a resiliência, ou seja, a capacidade de superarmos e repararmos os traumas inevitáveis que a vida nos impõe. Para ele, a narrativa de fantasia nos ajuda a construir um “refúgio” dentro de nós mesmos, para onde escapamos quando a realidade se torna intolerável. Isso é mais ou menos o que fazemos quando nos entregamos à leitura de um romance bem rocambolesco, em meio a uma crise na empresa ou no casamento. Isso se chama “evasão criativa” e é fruto de uma personalidade resiliente.

– É possível relacionar algumas características das crianças que lêem mais das que crianças que não têm acesso à leitura?

Um aspecto visível é o repertório: são crianças que se comunicam melhor, têm vocabulário maior, estruturam melhor seu texto, seja ele oral ou escrito, desenvolvem o gosto estético para além da oferta paupérrima da TV todo-poderosa etc. De um ponto de vista mais profundo, são crianças mais imaginativas, que aceitam melhor as diferenças, que têm mais senso crítico, que lidam melhor com o lado negativo da vida, mesmo porque as boas histórias nunca excluem os aspectos sombrios da experiência, como o abandono, a dor, a raiva, a perda… São crianças mais centradas, menos propensas à hiperatividade e mais aptas a se auto-entreterem, mais capazes de tolerar imprevistos e contrariedades, com uma vida interior mais rica e organizada. O hábito prazeroso de ler é, nesse sentido, estratégico para a vida.

– Segundo um estudo da ONG Proeco (Projeto Educacional de Conscientização e Orientação), as crianças que mais emprestam livros da biblioteca são as mesmas que passaram mais tempo nas oficinas de contação de histórias. Pela sua experiência é possível dizer que as contações de história contribuem para que as crianças se tornem freqüentadores de bibliotecas?

Sim, claro. Essa relação ocorre, principalmente quando se trata de famílias com menos recursos, mas que prezam a educação de seus filhos. Como essas crianças não podem comprar todos os livros que querem ler, tornam-se sócios das bibliotecas públicas ou frequentadores das escolares (quando elas existem). Quanto às crianças de famílias com mais recursos, isso depende de quanto as bibliotecas são realmente franqueadas às crianças. A biblioteca da escola está disponível e é acolhedora? Os professores mantêm uma interação com os bibliotecários, de modo a realizar atividades em parceria? Os pais levam seus filhos a bibliotecas públicas, ainda que seja apenas para ouvir/assistir contações? A família dá valor aos livros? Frequenta junta livrarias? Visitas a bibliotecas importantes e a boas livrarias fazem parte da programação das viagens em família?

– Segundo uma pesquisa da Universidade de Nevada ter livros em casa é crucial para o aumento do grau de escolaridade dos filhos – e é mais importante do que o nível educacional dos pais. Durante 20 anos, os pesquisadores analisaram hábitos de pais e crianças, assim como seus currículos, e chegaram à conclusão que as crianças que tiveram livros em casa avançaram pelo menos 3 anos no grau de escolaridade em comparação ao dos pais. Você acha que leitura pode impactar no grau de escolaridade conforme aponta a pesquisa da Universidade de Nevada? Por quê?

O impacto da narrativa na vida de uma criança não é de ordem quantitativa, mas qualitativa, o que quer dizer que a dimensão quantitativa será, a seu tempo, naturalmente contemplada. Esses números todos podem até impressionar os mais incautos, mas quem, desde criança, teve a personalidade verdadeiramente impactada pelas histórias sabe que essa pesquisa revela uma parte muito pequena da realidade. “Ter” livros em casa não significa ler livros, muito menos que livros são lidos pelos pais aos filhos. Sim, a leitura oferece um suporte considerável à educação escolar, mas nem sempre as coisas estão envolvidas numa relação simplista de causa e efeito. A “contação” de histórias envolve muito mais: envolve relação, cultivo da alma, transmissão de uma herança cultural que transcende, em muito, a produtividade na escola, essa obsessão das famílias contemporâneas.

 – Qual é a importância de ações como a do programa Itaú Criança da Fundação Itaú Social, que este ano distribuirá mais de 8 milhões de livros com intuito de estimular a leitura de crianças com até 6 anos de idade?  

É uma coisa maravilhosa, uma ação cujo impacto na sociedade brasileira será muito mais profundo, amplo e duradouro do que se pode prospectar objetivamente. Essa idade é chave. Tudo o que virá depois será acréscimo, construído sobre o fundamento dos primeiros anos da infância, que pode ser sólido ou frágil. O mais bonito é que essa é a idade da consciência mágica, em que fazer de conta é a coisa mais importante que uma criança pode fazer na vida. Daí depreende-se que a inteligência racional se constrói sobre uma base simbólica. A brincadeira e a contação de histórias são as atividades por excelência desse período da vida. O resto é perfumaria. O kit de livros é, nesse sentido, um presente às crianças, mas também ao futuro de um país que tem urgência de cidadãos mais educados (num sentido amplo), consistentes, criativos e éticos, capazes de pensar num projeto coletivo, num destino comum. Esse Brasil que nunca chega precisa ser primeiro construído na imaginação de seus cidadãos, para então baixar à dimensão material. Se a gente retoma a máxima de Monteiro Lobato de que “um país se faz com homens e livros”, então essa é uma iniciativa voltada a “fazer a alma” do Brasil, no sentido de recuperar e reparar essa alma que, apesar de vasta, bela e rica, anda abandonada e esgarçada.   

– Iniciativas como esta da Fundação Itaú Social podem contribuir para a formação de novos leitores? De que maneira?

Bom, a próxima etapa cabe exclusivamente aos adultos que receberem o kit. Como você diz, trata-se de uma “iniciativa”, ou seja, a Fundação Itaú Social puxa o primeiro fio da história e as pessoas tecem o restante do enredo. Os destinatários são as crianças. Os adultos são apenas os mediadores. Cansei de ver materiais maravilhosos estocados nas escolas ou guardados nas instituições “porque as crianças sujam e estragam”. Que tal a gente ensiná-las a se relacionarem com esses objetos de grande valor? Isso é parte da educação que elas precisam receber de nós. Se os adultos assumirem de fato o papel de narradores-transmissores da herança contida nas histórias que esses livros carregam, então a iniciativa será um sucesso retumbante. Muitas crianças serão enredadas nas teias encantadas da leitura e nunca mais se perderão dela. E essa história terá um final feliz, ou melhor ainda, não acabará nunca.

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7 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Fabiana Prando
    out 29, 2010 @ 22:08:14

    Eli! Eli! Eli!
    Parabéns pela entrevista M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A-!
    Muito obrigada pelo presente!
    Beijos de fã confessa,
    Fabi

    Resposta

  2. Elaine Cunha
    nov 03, 2010 @ 14:58:07

    Excelente entrevista! Fiquei emocionada!
    Abraços fraternos.
    Elaine Cunha

    Resposta

  3. Trackback: Os números de 2010 « Mulher-Esqueleto
  4. Verônica
    abr 24, 2011 @ 15:06:37

    Parabéns pela entrevista Eliana! Excelente ferramenta de incentivo à maior riqueza da humanidade, o conhecimento…

    Resposta

  5. elianaatihe
    jan 03, 2015 @ 15:47:48

    Republicou isso em Mulher-Esqueleto.

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