O exílio de Héstia, a verdadeira rainha do lar

Quando eu tinha uns 11 anos, minha mãe me ensinou a lavar a calcinha no banho e a pendurá-la no varal, na área de serviço. Ela também me ensinou a enxugar a tampa da bacia da privada depois de usá-la e a aproveitar a toalha de papel usada no banheiro público para enxugar a pia, porque ela seria usada por alguém depois de mim. Quando eu punha certas roupas para lavar, ela dizia: “Esse vestido está limpo e bem pode ser usado de novo antes de ser lavado. Assim a gente economiza água e energia elétrica, sem falar que a roupa dura mais”. Minha mãe também me ensinou que a gente lá em casa não era sócio da Light, a Eletropaulo dos anos 1960-70. Isso queria dizer que cômodos vazios não mereciam a dádiva da luz acesa ou da televisão e som ligados, porque a energia não chegava de graça em nossa casa. Hoje sei que isso se chama civilidade. Inteligência prática. Racionalidade. Também se chama respeito pelo outro: o que paga as contas, o que usa o banheiro depois de nós, o que lava e passa a nossa roupa. Minha mãe dizia: “Aqui em casa não tem uma fadinha que faz tudo usando uma vara de condão”, mesmo que, na maior parte das vezes, ela mesma encarnasse essa fadinha. É claro que ser de Virgem ajuda muito nesses casos, mas sou muito grata a minha mãe por ter me criado com essa consciência do valor de uso e da conservação dos objetos, da necessidade de desenvolver uma independência e competência para lidar com a realidade concreta. Ao fazer isso, ela me ensinou a atribuir um valor visível e outro, invisível, ao mundo cotidiano, à dimensão banal da realidade. E eu aprendi com ela que nada é banal, nem a calcinha suja misturada com outras roupas no cesto, nem o prato de boa comida jogado quase inteiro no lixo, porque a mãe não teve bom senso para prepará-lo de acordo com o apetite do filho pequeno.  Minha amiga Marina, que foi gerente de uma pousada em Salvador, me contava outro dia de como os hóspedes brasileiros iam à praia, deixando para trás o ar condicionado e a TV ligados e as luzes acesas. Quando ela sugeria que desligassem tudo ao sair do apartamento, eles respondiam: “Mas nós estamos pagando…”. Esse ar condicionado zumbindo ao Deus dará, essa calcinha suja misturada no meio das outras roupas do cesto (quando não jogada no chão do quarto ou do banheiro), essa boa comida desperdiçada não são objetos sem alma, muito menos causas sem consequência. São mensagens de um modo de viver esgotado e decadente, mas também sintomas da repressão, em nossa cultura, de um arquétipo muito bem personificado, como sempre, por uma divindade do panteão grego: Héstia, a deusa guardiã do lar, a senhora do fogo da lareira, filha de Cronos, o Pai Tempo e neta de Gaia, a Mãe Terra. Mas vou falar dela só amanhã, para não desperdiçar a paciência do leitor.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Ruth Toledo Altschuler
    out 28, 2010 @ 12:30:51

    Ai que lindo, e tão bem escrito. Eliana, você é uma escritora inspirada, uma bênção nesses tempos em que tantos se expressam mas por vezes falta essa riqueza de conteúdo unida à profundidade e à linguagem poética.
    Sim, continue, até que muitos artigos se tornem livro, e os livros toquem a muitos que tem sede desse discurso que fertiliza.
    Parabéns pelo blog!! Amei tudo!!!

    Responder

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