Dia dos Mortos no ateliê de artes

Este post relata uma experiência no ateliê livre de arte para crianças, coordenada pela arte-educadora e artista plástica Ana Cristina Ronconi, do ateliê Ocuili, no Itaim-Bibi, São Paulo. Trata-se de um trecho do artigo “Trabalhando para chegar ao significado”: pequenas histórias do ateliê de artes, sobre a importância da arte na vida e na educação das crianças. Damos notícias quando o texto integral for publicado.

Entrar num processo artístico significa não se fechar a nada. Significa perguntar: “Que uso posso dar a isso tudo?” (Anna-Maria Holm)

O ateliê de artes é sempre uma experiência em que as culturas e seus símbolos são deliberadamente convidados a participar e estão conscientemente representados por meio dos artistas e suas obras, dos materiais, das imagens que vêm enxamear ao redor do trabalho, das histórias que elas mobilizam ou que as mobilizam, das vivências das crianças etc. O ateliê de artes é um lugar onde valores opostos podem dialogar e reconciliar-se: vida e morte, alegria e dor, atividade e passividade, luz e sombra…

A ARTE INCLUI TODAS AS FACETAS DA EXPERIÊNCIA

Nesse espaço, a diversidade é um valor altamente positivo e a diferença é criativamente apreendida e integrada. O ateliê de artes não é moralista, não é didático, principalmente não é politicamente correto, mesmo porque, como escreveu Lya Luft (Revista Veja, p. 24, 31-03-2010), “querendo ser politicamente corretos, estamos cometendo um triste engano, deformando histórias e até cantigas que fazem parte de nosso imaginário mais básico”. No ateliê, esse “imaginário mais básico”, que também podemos chamar “inconsciente”, é a fonte onde a consciência se renova e a personalidade se amplia. Nesse infinito acervo de imagens, todos os aspectos da experiência humana estão simultaneamente presentes e são abordadas por analogia, ou seja, como metáfora e fantasia, sempre respeitando-se a maturidade e o momento de vida de cada um dos participantes.

Na contramão da correção política, com sua intenção de diluir e escamotear o lado sombrio da realidade, está o movimento de atração-repulsa que exerce sobre nós a imagem da morte, como a suprema diferença com a qual nossa cultura ainda não consegue dialogar. As crianças, porém, têm uma profunda e saudável curiosidade (que alguns adultos costumam confundir com morbidez) sobre o tema da morte, encarado por nossa sociedade tecnológica e industrial como o maior de todos os tabus. Na impossibilidade de lidar com a morte (e com a violência, a tristeza, o fracasso, os inevitáveis revezes da vida, enfim) no plano simbólico, as crianças tornam-se muito mais vulneráveis às experiências concretas de sofrimento e perda. Simbolicamente superprotegidas (além de literalmente), elas são interditadas de entrar num contato, mediado por imagens significativas, com a dimensão sombria da existência, tornando-se indefesas e frágeis, porque foram impedidas de desenvolver a resiliência necessária para superar os traumas inevitáveis e reparar seus danos. A violência não ritualizada pela experiência simbólica muitas vezes emerge em expressões literais, como agressividade cega e autodestrutiva.

 UMA EXPERIÊNCIA TRANSCULTURAL

Tendo chegado do México, um país cujas culturas nativas desenvolveram um maravilhoso acervo de imagens para elaborar a morte de forma criativa e integradora, Ana Cristina sugeriu às crianças do ateliê a elaboração de um Altar de Mortos, de acordo com a tradição mexicana do Dia de Muertos, mas incorporando elementos de nossa cultura e  nossas tradições: as indígenas e a cristã. De imediato, o projeto mobilizou a todos, mesmo porque todos já haviam perdido algum ente muito querido, entre bisavós, avós e bichos de estimação. Do ponto de vista da cultura tradicional mexicana, o Dia de Mortos é um dia de festa, no qual se comemora a existência daqueles que se foram e se honram seus gostos e sua memória, por meio da música, das comidas, bebidas e doces típicos (pães em forma de caveira, por exemplo), das danças etc. O cemitério é transformado num lugar festivo, para onde vão famílias inteiras visitar e homenagear aqueles que se foram. Um lugar cheio de vida, cor, alegria, sons, movimento. É como se o cotidiano virasse de cabeça para baixo. Os opostos se reúnem na festa. E a arte comparece como protagonista desse evento em que dois mundos se encontram.

IMAGENS, MUITAS IMAGENS

Depois de contar algumas histórias mexicanas e brasileiras sobre o tema do Dia dos Mortos, Ana Cristina convidou as crianças para apreciarem obras dos artistas mexicanos Frida Kahlo e Rodolfo Morales, em busca de imagens significativas. O diário de Frida Kahlo, tecido de desenhos, anotações, rabiscos, confissões, fez sucesso entre os alunos. Revelando uma visão aguda, sensível e profunda sobre a morte, as crianças conversaram livremente sobre tantas imagens vistas e narraram suas próprias histórias e percepções acerca do tema, sentados na roda. Depois disso, Ana Cristina falou sobre o significado de um altar de mortos na cultura mexicana: um monumento privado e afetivo, que anualmente traz de volta à vida, por meio da memória e das imagens, aqueles a quem amamos e que morreram. Nesse dia, eles simbolicamente retornam ao mundo dos vivos, não para assombrá-lo, mas para reencantá-lo.

FAZENDO OBJETOS, TECENDO ALMA

Muito animados, os alunos partiram para a produção dos elementos decorativos que comporiam o altar. Havia as bandeirinhas de papel de seda coloridos, picotadas e rendilhadas; os porta-retratos que receberiam as fotos daqueles a quem eles desejavam homenagear; as flores ultracoloridas; os castiçais para as velas votivas; alguns símbolos mais próximos da cultura mexicana tradicional, como crânios e cãezinhos pelados (em várias culturas, como a grega e a egípcia, os cães são os guias que levam a alma dos mortos até o outro lado e em algumas culturas tradicionais do México, eles eram mortos e enterrados ao lado de seus donos, justamente para ajudá-los a achar o caminho). Também havia a etapa de arrumação propriamente dita, em que elementos perecíveis, como flores frescas e comidas, seriam posteriormente acrescentados.

Bandejinhas quadradas e retangulares de isopor (usadas pelos supermercados para embalar legumes) foram o material utilizado para a confecção dos porta-retratos. Com os fundos recortados, elas se transformaram nas molduras que, por sua vez, eram pintadas pelas crianças. Motivados pelas cores vivas e fortes da arte mexicana, os alunos trabalharam com liberdade e alegria, usando tinta acrílica e de artesanato. O resultado foi uma explosão de cores, padrões e experimentações de todo tipo, em que muitas vezes misturavam-se palavras e imagens, em que as palavras eram tratadas como imagem e as imagens comunicavam mensagens não-verbais. Em seguida, a argila serviu de material para a confecção dos objetos decorativos tradicionalmente ligados à data. Assim as crianças moldaram animadamente pequenos vasos e castiçais, alguns com motivos figurativos (cabeças, flores, animais, crânios, máscaras) e outros, com formas orgânicas e abstratas. Depois de ouvirem a história do cãozinho pelado mexicano (que se chama xoloitzcuintle na língua nauatl), todos também quiseram modelar esses graciosos personagens. Afinal havia alguns cães de estimação entre os homenageados no altar. Ao final, todas as peças foram pintadas com gesso líquido e, por fim, intensamente coloridas.    

CONSTRUINDO O ALTAR

Na semana anterior ao dia 2 de novembro, as crianças trouxeram as fotos de seus homenageados, que foram cuidadosamente coladas sobre fundos de papel-cartão colorido e presas às molduras, construindo assim os porta-retratos. Além deles, foram homenageadas algumas personalidades públicas e coletivamente amadas, que morreram entre 2008 e 2009. Nesse mesmo dia, o ateliê foi decorado com bandeirinhas rendadas de papel de seda e o altar foi montado, com velas coloridas em seus castiçais, arranjos de flores de plástico em vasos de sucata, além de outras peças decorativas, produzidas pelo grupo e por alguns adultos que também se envolveram pessoalmente no projeto. Na semana do feriado, as crianças trouxeram outras oferendas: flores frescas, docinhos, chocolates… O altar transformou-se numa maravilhosa união de opostos: alegria e tristeza, eternidade e finitude, cor e luto. Ele ficou montado por uma semana e, durante esse período, foi visitado por pais, amigos, frequentadores do ateliê, outras crianças. Alguns desses visitantes também o enriqueceram com suas próprias imagens significativas.

As crianças envolveram-se de corpo e alma na elaboração desse “lugar” em que a arte reuniu o que a racionalidade considera como uma oposição inconciliável: a vida e a morte. Desmontado o altar concreto, permaneceu, gravada na alma, a imagem desse “lugar” imaginário de conciliação dos contrários. Quem produziu e viveu essa  experiência certamente terá, doravante, mais elementos para elaborá-la criativamente.

Anúncios

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Mr WordPress
    maio 30, 2010 @ 12:18:18

    Hi, this is a comment.
    To delete a comment, just log in, and view the posts’ comments, there you will have the option to edit or delete them.

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: